sábado, 27 de junho de 2015

SOMOS TODOS ÍNDIOS.





Você se olhou hoje no espelho? Caso sim, sugiro que faça de novo. Em caso contrário, olhe-se agora com mais atenção como estivesse frente a uma pessoa desconhecida. Se você é de "raça" branca, tem cabelos louros e olhos azuis pense donde vieram seus pais. Se você for negro ou "pardo", se tiver cara de "japa" ou de "china" como foi que isto lhe aconteceu? Quem é você afinal de contas? Como se sente? O que lhe parece o povo brasileiro em sua diversidade e desigualdade social profunda? O que o Brasil significa para ti e aos teus? 

A humanidade filha da animalidade, certamente, ainda muito tem a evoluir. E o racismo é uma moléstia culturalmente adquirida para mascarar, sem dúvida, diferenças étnicas e linguísticas, traços genéticos e desigualdades entre classes sociais. O mito da "raça pura" ou "superior" deu no que deu... E, felizmente, a mestiçagem de corpos e espíritos vai cada vez mais fraternizando o mundo, apesar de tudo... 

Pense um "jovem" país pujante, malgrado suas agudas contradições históricas, com um vigoroso povo de alguns milhares de anos de idade, no qual os "mestiços" são atualmente grande maioria: se pensou Brasil agora sabe porque ele foi chamado o "país do futuro" e porque o avenir já vem chegando no antigo Pindorama de muito mais que seus 500 janeiros dilacerados pela conquista exterior. Agora, pensando bem, mande o famoso complexo de viralata pr'aquele lugar. E dê muitos vivas ao Povo Brasileiro com fé e orgulho, que nem Darcy Ribeiro fazia em priscas datas.

Todos nós somos índios! Não importa os cabelos louros, olhos azuis, pele branca como a Lua... Você deve saber que essa belezura, na verdade, é deficiência de melanina. Num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza, com certeza, a brancura é fonte perene da indústria de bronzeadores e de protetor solar. Tudo bem se o padrão estético dominante não implica com os cabelos pretos e lisos ou crespos, se não avacalha a beleza natural de sua pele morena, nem menospreza os olhos castanhos ou pretos que nem caroco de açaí maduro.

A Negritude para além da melanina, no patropi, abraçando "negros" de todas as "raças" começou antes de Pedro Álvares Cabral topar com os índios Pataxós na Bahia em abril de 1500. Em fins de janeiro do mesmo ano foram arrancados 36 índios marajós para escravos dos espanhóis, levados a ferros da ilha do Marajó a Hispaniola (Haiti e República Dominicana agora, donde o povo Taino se levantou para lutar em Cuba contra os conquistadores sob comando do bravo Hatuey e onde, em 1992, o Papa foi pedir perdão aos índios e aos negros nos 500 anos da América) - se você estiver por dentro da amazonidade saberá que "ilha de Marajó" ou cidade "de" Recife, ficam lá na ponte que partiu. O rio Marajó que deu nome à ilha e tudo mais derivado deste topônimo é, sim, do "homem mau" ('marãyu'), guerrilheiro aruã invencível na peleja, falante da "língua ruim" (nheengaíba) que ali viveu, lutou e deixou descendência após 5 mil e tantos anos de nomadismo atrás de peixe para comer pelas beiras do grande rio das Amazonas e beira-mar desde as ilhas do Caribe. 

Esta gente arteira que, há quase 2.000 anos, inventou por acaso a primeira 'universidade pés descalços' da Amazônia donde saíram "engenheiros do Arari", práticos do barro dos começos do mundo, arquitetos de aldeias suspensas sobre campos alagados ("tesos" ou 'mounds') donde a cerâmica marajoara, Arte primeira do Brasil e primeira cultura complexa das regiões amazônicas foi parida. 

Os Marajoaras, portanto, somos filhos dos primeiros "negros da terra" (escravos indígenas) da América do Sul (cf. viagem de Vicente Yañez Pinzón, 1500). Certo, os negros da Terra, propriamente ditos, chamados "negros da Guiné" na crônica racista colonial luso-brasileira, são descendentes dos primeiros seres humanos, na África ancestral, há coisa pra lá de um milhão de anos donde a Diáspora original foi habitar o nosso mundo comum até a última fronteira do planeta. 

Os seis mil anos de Adão e Eva são uma antiga lenda da Mesopotâmia, copilada na Bíblia com graça alegórica, mas não devem tapar o irmão sol com peneira nem obscurecer os beneditinos esforços dos cientistas. Entre estes, o jesuíta paleontólogo Pierre Teilhard de Chardin que, na China profunda onde o Taoismo e o Confusionismo se confundem em busca das conexões sutis entre os extremos Oriente e Ocidente, teve que resolver seus íntimos problemas de convivência entre a Fé e a Ciência e, ainda assim, resistir ao obscurantismo do Santo Ofício encastelado na igreja de Roma. Para vir, enfim, com o santo de Assis inspirar o Papa Francisco sob a luz do divino Espírito a editar a encíclica ecológica do catolicismo ecumênico do século XXI, "Louvado seja": consequência lógica daquele histórico pedido de perdão pela Igreja, em 1992, em Santo Domingo. Não por acaso, com certeza, às vésperas da Conferência Mundial do Clima, a COP-21, em Paris.

Somos todos Índios, desde quando o andarilho Marco Polo saiu da Itália a caminho das Índias. Mais ainda quando Colombo, enganadamente, chegou às Índias acidentais (sic) e Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo das Índias.

Na verdade, nossos antepassados índios vindos da Ásia já estavam na América, Amerik (o "país do vento", em língua Maya, região de montanhas do lago Nicarágua) há dez mil anos antes dos 500 anos pós-colombianos. Então, depois do "descobrimento" do país do pau-brasil, com as caravelas portuguesas vieram ao Brasil o cravo da Índia, a pimenta do reino, a árvore de fruta pão, a mangueira, o jambo, a noz moscada, o cânforo, o açúcar, o gado zebu e o búfalo onipresente na ilha do Marajó muito tempo depois... Agora estamos ainda mais juntos à velha Índia dos marajás no BRICS (bloco formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

De todo modo, os próprios hindus como os chineses saímos todos do seio da mãe África que civilizou o Egito através do Nilo e a Grécia através do Delta do grande rio africano, cujas fontes em Uganda são cortadas pela linha equatorial, assim que o gigantesco Amazonas equatorial, no novo mundo. E assim, somos todos índios e todos temos os nossos mitos e utopias da Terra sem males, antes do engano cartográfico de Colombo (na verdade, Salvador Fernandes Zarco, cristão-novo, nativo da vila de Cuba, no Alentejo, Portugal).

No Nilo e no Gânges as águas batismais da Antiguidade, no rio das Amazonas a última fronteira da Terra: aqui seis milhões de índios pré-colombianos foram engolidos pelo rio Babel e canibalizados pela civilização ocidental-cristã. Nós não podemos deixar extinguir os últimos entre os últimos de nossos parentes. Ou não poderíamos reclamar de invasores do Brasil e da cobiça estrangeira sobre a fabulosa Amazônia, considerada "celeiro do mundo" por Humboldt.


Bilhete para Dilma em Washington

Ainda não nasceu um Champollion para decifrar a "escrita" das gravuras e pinturas rupestres da Amazônia ou o grafismo da Cerâmica Marajoara e Tapajônica. Esta gente da primitiva diáspora queria nos dizer alguma coisa importante, há 10 mil anos atrás? Durante conversações nem sempre amenas entre os dois presidentes da República Federativa do Brasil e dos Estados Unidos da América, respectivamente, Dilma Rousseff e Barak Obama uma pauta densa estará servida na Casa Branca. Portanto, não cabe acrescentar coisa nenhuma no tabuleiro previsto.

Mesmo assim, o momento é emblemático para anotar no quadro das relações bilaterais entre os dois respectivos maiores países americanos dos hemisférios Norte e Sul a continuação da cooperação, iniciada no século XIX, em busca do "Homem americano" original... Ou seja, o Índio do Novo Mundo para alguns visto como remanescente das tribos perdidas do Cativeiro da Babilônia... Quantas lendas e mitos saídos desse longínquo passado! "Índio bom é índio morto" e mesmo assim o fantasma pele-vermelha fez a glória dos cow-boys e o lucro da indústria de cinema americano.

Todavia, esse espectro do passado está mais vivo do que antes. Com a internet, a inteligência coletiva segundo a bíblia de Pierre Levy e a filosofia lusíada do Espírito Santo do filósofo luso-brasileiro Agostinho da Silva.

A história comparada Brasil-Estados Unidos ensina que nossos velhos bandeirantes e pioneiros não nos deixaram lições éticas a fim de repassá-las as novas gerações. Pelo contrário, herdamos uma dívida ambiental enorme e um passivo humano nada menos que à dimensão de um extraordinário genocídio, causa pela qual o Papa João Paulo II pediu perdão, nas solenidades dos 500 anos de descoberta da América, em Santo Domingo, aos Índios e Negros. Porém, pedir desculpas ou perdão embora não seja fácil, de fato não resolve nada se não for acompanhado de sincero arrependimento e medidas materiais reparadoras.

Conhecemos as barreiras geopolíticas sobre a Amazônia desde o "testamento de Adão" abençoado pelo Papa em 1494, segundo a partição do mundo por um meridiano a 370 léguas a oeste desde Cabo Verde. Aqui, no espaço curvo de Einstein, os extremos Oriente e Ocidente se encontram na linha do equador terrestre e corrente equatorial marítima. O maior arquipélago de rio e mar do Planeta apresenta o pior IDH do gigante Brasil e aqui também, Anna Roosevelt, bisneta do presidente dos Estados Unidos deste nome de família; veio encontrar o que agora podemos chamar de primeira ecocivilização amazônica, a conhecida Cultura Marajoara. 

Marajó, então, não seria uma boa oportunidade de universidade multicampi internacional relembrando a cooperação Brasil-Estados Unidos desde a geologia americana de Hartt que levou à arqueologia marajoara? E se esta oportunidade, por acaso, favorecesse a repatriação da cerâmica marajoara levada para a Exposição Mundial de Chicago, em 1893, como gesto cooperativo norte-americano em benefício da educação da gente marajoara, tal como reza a Constituição do Estado do Pará em seu Artigo 13, VI, Parágrafo 2º e futura reserva da biosfera chancelada pela UNESCO?

A verdade manda dizer que o calcanhar de Aquiles do governo social-democrático de Lula e Dilma, endeusados por uns e odiados por outros, é o meio ambiente e a política indígena. A decisão correta de criar o Instituto de Pesquisa Aplicada (IPEA) e a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) na Presidência da República, deveria talvez ser completada elevando a politica nacional de proteção aos Direitos Humanos e desenvolvimento sustentável dos Povos Originais e mais populações tradicionais na estrutura direta da Presidência. Demonstrando, assim, com atos efetivos a concretude dos discursos para o País e o mundo pela vontade política da Nação Brasileira e importância para o Estado Democrático que deveriam ter estes brasileiros dizimados por séculos de vergonha face a Humanidade inteira. 

Os "nossos" índios e a biodiversidade brasileira não ficariam entregues à caridade duvidosa das ONGs nem ao bel prazer do terceiro escalão de governo loteado conforme chantagens recorrentes de "nobres representantes" de empresas no Senado e na Câmara dos Deputados, sem falar da cumplicidade patente de membros do Judiciário desde comarcas do grande sertão até esferas elevadas de Juizados onde os pobres não ousam enfrentar a ricos sempre blindados pelos mais caros advogados.

Esta falha notável da sociedade brasileira, que o governo saído do seio desta mesma sociedade encarna, acaba sendo transtorno bipolar coletivo quando, por exemplo, apoia e aplaude a iniciativa meritória histórica dos JOGOS INDÍGENAS MUNDIAIS e ao mesmo tempo escancara o flanco a críticas justas que acusam o cinismo do agronegócio a promover a propaganda do evento no interesse de melhorar a imagem no mercado exterior. Mas, não seria esta uma forma discreta de corrupção?


Se a Presidenta é brigona, para isto serviria encarar a colonialidade e o Bravo Povo Brasileiro, certamente, haveria de apoiá-la a dar o bom combate. Mas, quando a ignorância se casa com a arrogância resta a cegueira que o padre Vieira criticou no Maranhão, no século XVII: o colonialismo é uma tara congênita e a COLONIALIDADE AINDA É PIOR... Aí está a encíclica do Papa Francisco para abrir os olhos da cristandade viciada em Pecúnia... Logo a igreja romana, podia-se dizer, mas a coragem para mudar é mais importante que o simples arrependimento.


Vamos Brasil brasileiro ao encontro dos Povos Originais! Coragem para ser o que somos no mundo. SOMOS TODOS ÍNDIOS, nossa utopia fundadora é a Yvy Maraey antes da Utopia.






Nação, do latim natio, de natus (nascido), é a reunião de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, falando o mesmo idioma e tendo os mesmos costumes.





segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ismael, artista do povo de Ponta de Pedras, Amazônia Marajoara.


"São Francisco Marajoara" (1998), obra de Ismael (Ismaelino Ferreira), escultura em madeira com elementos ornamentais da flora e da fauna amazônica (foto de João Victor Noronha).







A arte, o que é arte? Artesanato é Arte? Para decidir sobre a questão, brigam acadêmicos e artistas populares mundo afora há muitos anos sem nunca chegar a um consenso. Mas, nós podemos dizer singelamente que se por acaso nem todo artesão é artista, em compensação todo artista é artesão: do fato que a palavra tem origem na mão criadora (ou melhor, nos 'artelhos' (dedos da mão) do artesão primitivo, chamado "Homo habilis". E a educação artística pelo barro, a pedra ou a madeira está à base da imaginação que explora os cinco sentidos do Homem.

A arte está por todas as partes do mundo pedindo passagem para se revelar na pessoa do artista desconhecido, a caminho da fama alguma vez, pela sublimação da paisagem que os olhos veem e pela imaginação do mundo que não se veria jamais sem a obra do artista. E temos nós, no Fim do Mundo, algum artista?

A história da arte, desde a pintura rupestre, é talvez a melhor parte da humanidade. E a educação perfeita seria aquela capaz de converter a vida real tal qual a matéria bruta que se transforma nas mãos do artista (como algum dia se dizia de todo e qualquer operário em construção), ele mesmo criador e criatura. Arte e artista ao mesmo tempo em seu modo de ser. O poeta é um poema (apud Agostinho da Silva), ainda quando já tenha regressado ao tempo do sonho donde veio de passagem pela Terra mãe.

Cada tempo e lugar tem a sua arte expressa pelo trabalho de seus artistas. O mundo das artes, segundo antigas concepções, é o espaço criado por artistas bafejados pelos deuses da inspiração.


todo este preâmbulo complicado
pra falar de um cara muito simples.

Ismaelino Ferreira, nosso querido Ismael; nasceu em Ponta de Pedras e faleceu precocemente em Belém, vítima dessas doenças da pobreza que a falta de medicina preventiva escancara nas estatísticas de morte e baixo IDH. Não que o artista e sua família de pequena classe média fossem necessitados, mas quem é rico quando a comunidade onde se vive é carente em quase tudo? 

A "saúde" pública então é porta de entrada de muitas doenças para as quais já tem vacina, como as hepatites, por exemplo. Deixou ele uma obra considerável, infelizmente, interrompida e um exemplo de vida de artista no Purgatório chamado "ilha" do Marajó que, na verdade, é um mundo. 

Sinceramente, eu não me lembro daquele caboquinho em particular entre a pirralhada de "Itaguari" (Ponta de Pedras). Como, em Cachoeira, ninguém poderia prever que aquele mulatinho filho da preta dona Margarida com o branco capitão Alfredo iria no futuro ser o premiado "índio sutil" ganhador do cobiçado Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras (único até hoje para um romancista da Amazônia) pelo conjunto de obras do ciclo literário Extremo-Norte. 

Quando prestei atenção num certo Ismael, notavelmente tapuio como tantos outros índios marajoaras com amnésia étnica; ele era já um artesão com nome feito, embora em início de carreira. A terrinha da gente é um celeiro de talentos, modéstia à parte, e nem vou repetir que se trata da terra natal de Dalcídio Jurandir nem desfilar a galeria de jornalistas, escritores, músicos e outros profissionais que deixaram o umbigo enterrado naquele pedregoso chão. Basta lembrar cordões juninos, Boi-bumbá e, sobretudo, a velha banda que acabou sendo, por merecimento próprio, a Banda Sinfônica Antônio Malato representando uma longa tradição musical de raízes populares a toda prova.

Tivemos bons mestres e professores dedicados, que sem maiores recursos didáticos fizeram o melhor possível e nos deixaram boas sementes. Ismael é um exemplo disto que quero aqui dizer: veio de berço humilde, cresceu aproveitando as poucas chances que a vidinha lhe oferecia para expressar sua vocação artística. Sua grande oportunidade foi o "mecenas" e padrinho que encontrou na pessoa do bispo da antiga prelazia, Dom Ângelo Rivatto; no momento certo, oferecendo cursos profissionais a jovens desempregados que se tornaram oleiros, marceneiros, carpinteiros navais, pintores e artesãos. 

É justo recordar aquele jesuíta italiano imperioso, que um dia me disse ser unicamente discípulo de Jesus Cristo no céu e Dom Helder Câmara na terra; na pacata Ponta de Pedras ele foi uma trovoada sob ventos do concílio Vaticano-II, que deu com o costado naquela ilha bárbara onde seu adorado Vieira deixou pegadas pelas beiras do Mapuá na pacificação dos bravos "Nheengaíbas". Rivatto foi quem, sem querer, me deu a dica do acordo de paz entre o "payaçu" dos índios e os sete caciques marajoaras. Acredito que sem o bispo em apreço eu não teria jamais escrito sobre Antônio Vieira, não haveria o artista Ismael que conheci para talhar "São Francisco Marajoara" em cumplicidade com a heresia tropicalista que me assiste.

Quando o embaixador do Brasil em Bogotá (Colômbia) precisou de um artista competente para entalhar uma porta em madeira de mogno com grafismo marajoara para o parque Brasil naquela capital sul-americana, a brilhante ideia esbarrou no vazio. Quem? Onde? Como? Que resposta a secretaria-geral do Itamaraty em Brasilia, exercida pelo paraense de Óbidos Baena Soares, poderia dar ao embaixador brasileiro no país irmão?

Eu era servidor do Itamaraty em Brasília e fui chamado à presença do chefe do Departamento de Administração, embaixador Eduardo Moreira Hosana, outro paraense na casa de Rio Branco; confesso que fiquei apreensivo pois a casa é rígida com a hierarquia (era como se um sargento fosse urgentemente convocado à presença de um general). Hosana nas alturas do ministério brevemente expôs o problema, complicado por vazamento de informação resultando em embaraço entre figurões da política paraense, que o ministério queria evitar de toda maneira. 

Já na ante sala do gabinete um ilustre senador da República aguardava para se entrevistar com o dito chefe de departamento oferecendo como cortesia do governo estadual um projeto onde elementos naturais tais como rãs, vitórias-régias e outras figuras da fauna e da flora amazônica embelezariam o portão ornamental proposto para o parque Brasil de Bogotá.

Face ao imbróglio político que se previa, o embaixador Hosana estava decidido a agradecer a oferta do governo paraense e responder claramente "sim" ou "não" à embaixada em Bogotá ficando o Itamaraty, caso a encomenda fosse realizável, responsável por todos os detalhes da operação até se entregar a "porta marajoara" pronta e acabada na Colômbia. Isto seria possível?

Simples para mim informar, que, de fato, até aquele momento não existiu jamais uma porta marajoara em barro ou madeira e ali se acabaria logo o assunto de uma vez. Entretanto, era rara oportunidade para inventar uma porta evidenciando a cultura marajoara e a competência do artesão pontapedrense. E eu não conhecia nenhum outro que não fosse o caboco chamado Ismaelino Ferreira, na ilha do Marajó, capaz de tamanha invenção. Então, confiando 100% no "taco" de Ismael eu respondi prontamente sim e recebi carta branca para agir imediatamente sem mais tratativas.

O tempo passava e um ministro do gabinete brincava, pressionando-me diplomaticamente dizendo sempre que passava por mim: "olhe lá meu caro, não me venha com uma porta mexicana"... Claro, além de Ismael em seu atelier na distante cooperativa da diocese de Ponta de Pedras eu confiava na equipe de apoio da Comissão Demarcadora de Limites em Belém, dirigida pelo coronel Ivonilo Dias Rocha, um raro administrador público, para elaborar o projeto em detalhes depois de pesquisa na reserva técnica do Museu Paraense Emílio Goeldi a cargo do desenhista José Maria Mesquita Ramos e do engenheiro civil Clovis Rubens Bona, encarregado da missão que entrou em contato com Ismael e acompanhou pessoalmente a execução da obra em Ponta de Pedras, transportando-a depois a Belém aos cuidados da Força Aérea Brasileira despachada regularmente para entrega na embaixada do Brasil em Bogotá. 

Se não bastasse a Ismael ser escultor e entalhador, ainda foi ele locutor da rádio comunitária FM Itaguari, entrevistador e apresentador de programa. Em boa hora o prefeito Bernardino Ribeiro confiou a Ismaelino Ferreira a Secretaria Municipal de Cultura. Com criatividade, podemos dizer, a Prefeitura de Ponta de Pedras se antecipou ao governo do estado que fechou o horroroso e mal assombrado Presídio São José para dar lugar ao esplêndido polo joalheiro São José Liberto. Bem mais modesta, mas não de menor simbolismo local a velha Cadeia Pública se transformou na Secretaria Municipal de Cultura na terra natal de Dalcídio Jurandir, enquanto eu cedido sem ônus para a Prefeitura fazia figura de Secretário Municipal de Meio Ambiente; com Ercílio Marinho na Secretaria Municipal de Turismo formamos um trio caboco de tiradores de água da pedra. Entre outras coisas que não se conseguiu realizar, ficou pra trás a ideia supimpa de criação de um "Prêmio Tapuia" de Cultura e a criação da Fundação Dalcídio Jurandir (FunDAL) abortada por obtusidade política.

Para falar da figura ímpar do artista Ismael, cumpre esclarecer um pouco o fundo histórico da comunidade pontapedrense, onde o artista nasceu e foi plasmado. Então, são necessárias rápidas pinceladas sobre a inaudita experiência humana e pastoral da Prelazia (25/06/1963 - 15/10/1979), depois Diocese de Ponta de Pedras; com seus antecedentes na história do catolicismo na Amazônia em relação dialética com nações indígenas, colonos e escravos africanos no quadro geral de fundo entre Reforma protestante e Contra-Reforma romana e sua posterior evolução até nossos dias. 

No total, visto pelo povo como conjunto de acertos e erros, lá se vão 52 anos de tentativas desde a bula Animorum Societas, do papa Paulo VI criando o território eclesiástico constituído de Ponta de Pedras, Muaná, São Sebastião da Boa Vista, Santa Cruz do Arari e Cachoeira do Arari (em sentido horário a partir da sede episcopal, com a catedral de Nossa Senhora da Conceição) desmembrado da Arquidiocese de Belém do Pará. Hoje, mais que nunca, no mundo globalizado Marajó com uma diocese (Ponta de Pedras) e uma Prelazia (Soure) católicas está ligado há mais dois mil anos de história do Cristianismo.

Nestas mal traçadas linhas, trata-se duma tímida abordagem de história social. Não é preciso ser católico para compreender que sem a missão da Sociedade de Jesus - constituída de poucos e destemidos "soldados de Cristo" -, no século XVII, não existiria sequer a Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665), ou Marajó; adversa aos Jesuítas e nem por isto o donatário lhe pôde negar as sesmarias requeridas, certamente com receio de provocar dano nas relações do reino de Portugal com a Santa Sé... Deve-se ter em mente o fato, extraordinário, que ao contrário de povoadores e exploradores de pau-brasil e cana de açúcar donatários de diversas capitanias no Brasil, a ilha grande do Marajó foi doada ao próprio secretário de estado de el-rei dom Afonso VI, Antônio de Sousa de Macedo, um estadista, patriarca dos Barões de Joanes; que portanto estava a par dos perigos de vizinhança do Pará com as colônias concorrentes de Portugal nas Guianas e Caribe. 

Ninguém melhor que os Jesuítas por perto dos outros sesmeiros particulares ou religiosos (Mercedários e Carmelitas, neste último caso) para segurar e acalmar aqueles "índios bravios, desertores e escravos fugidos" dos centros da ilha (cf. "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó" de Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783), que fizeram retardar a ocupação efetiva da ilha do Marajó durante 64 anos, desde a fundação de Belém do Pará até a construção do primeiro curral de gado cabo-verdiano no rio Arari (1680), pelo carpinteiro português Francisco Rodrigues Pereira.

Sabia o chanceler de Dom Afonso VI, obrigatoriamente, da carta de Vieira, datada de 11 de fevereiro de 1660, ao rei por intermédio da regente mãe, dona Luísa de Gusmão viúva de Dom João IV, relatando a situação da região pacificada após 44 anos de guerra de conquista desde a tomada do Maranhão aos franceses, em 1615, incluindo a expulsão dos holandeses e ingleses do Xingu, Baixo Amazonas e Amapá (1623-1547) até as pazes de Mapuá (Breves) em 1659. 


Por via de consequência, sem a militância pacificadora dos Jesuítas no Marajó sentinela do Norte, o Grão-Pará poderia ter sido uma imensa Guiana Holandesa e não se teria hoje uma Amazônia brasileira. Nossa educação popular carece, profundamente, de cultura histórica. Para isto, os professores teriam que aperfeiçoar seu conhecimento dialético da História fugindo do velho e encardido 'decoreba'. Mas, desgraçadamente, reza o fado segundo o qual a pacificação dos velhos "Nheengaíbas" não tem nenhum "interesse acadêmico"... Sabemos, entretanto, por que isto desinteressa a certos acadêmicos amigos dos donos das sesmarias dos Barões de Joanes e dos herdeiros dos Contemplados.

Ora, o município de Ponta de Pedras - "onde o Marajó começa" e deu a primeira página do romance "Marajó", na suposta fazenda Marinatambalo no rio Paricatuba, primeiro romance sociológico brasileiro - é consequência territorial da velha fazenda São Francisco (Malato), a primeira sesmaria dos Jesuítas na ilha do Marajó expropriada da Missão (1757) e doada (1760) por ordem do Marquês de Pombal ao sargento-mor (major) Domingos Pereira de Moraes, 'contemplado' entre outros homens-bons; antepassado do vereador Antônio Pereira de Moraes, primeiro presidente da Câmara da nova vila de Ponta de Pedras (cf. ata de instalação, de 30/04/1878) e de seu irmão João Pereira de Moraes, vogal da dita Câmara Municipal: não por acaso, a escultura tropicalista "São Francisco Marajoara", obra de Ismael recomendada e encomendada por este neto de índia marajoara da aldeia da Mangabeira que vos fala, é emblemática de toda dimensão desta nossa curiosa história.

O rio Marajó-Açu - que dá nome à ilha e a todos mais topônimos derivados - deu lugar à primeira sesmaria que os padres Jesuítas tiveram na ilha do Marajó, em 1686, com a sede de fazenda São Francisco (depois Malato) em cujas terras havia antes a aldeia dos índios "Guaianazes" [Guaianá], elevada em 1758 em Lugar de Vilar, tendo por padroeiro São Francisco (supostamente de Borja) e foi também nas terras da dita sesmaria formada a aldeia de catequese com índios "mansos" trazidos da aldeia Samaúma (Barcarena), a "aldeia das Mangabeiras" [hoje vila da Mangabeira], que no quadro da expulsão dos Jesuítas (1759) e implantação do Diretório dos Índios (1657-1798) passou junto com o Vilar a se chamar Lugar de Ponta de Pedras, tendo Nossa Senhora da Conceição por padroeira (cf. "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó" de Alexandre Rodrigues Ferreira, 1783).

Fica claro assim, que a origem remota do município de Ponta de Pedras desmembrado de Cachoeira, em 30/04/1878, se encontra nas terras de sesmaria da fazenda São Francisco [depois Malato e agora São Francisco do Marajó] situada na confluência do rio Araraiana com a baía do Marajó. Além desta primeira fazenda dos Jesuítas ainda existiram as fazendas São Braz [Fortaleza] e Nossa Senhora do Rosário [Rosário], na bacia do rio Marajó-Açu, fora as mais que os Jesuítas tiveram no rio e lago Arari, inclusive a fazenda Santa Cruz que veio a ser o município de mesmo nome, desmembrado de Ponta de Pedras em 1960.

O maior impacto da atuação do bispo prelado Dom Ângelo Rivatto S.J. em Ponta de Pedras até hoje é controverso sob o ponto de vista dos pontapedrenses, refere-se à criação de duas cooperativas polêmicas. Na verdade não foram exatamente cooperativas, mas de todo modo, com defeitos e qualidades as "cooperativas de Dom Ângelo" ou da "Nella" (colaboradora Nella Remella, tida e havida como "braço direito" do bispo) fizeram história e deveriam ser estudas sem preconceito como referência para o desenvolvimento territorial do Marajó, em seus pros e contras. O papel social de Nella Remella em Ponta de Pedras, sobretudo com a Casa da Fraternidade, por exemplo, para o povo necessitado não pode ser desprezado sem que se cometa ingratidão.

Sobre isto tudo, é lamentável a falta de imparcialidade e de interesse acadêmico a respeito desta importante experiência socioeconômica da Diocese de Ponta de Pedras durante a missão de Dom Ângelo: no meu modesto ponto de vista, independente, considero um êxito socioambiental sem precedentes, mas infelizmente acompanhado de insustentável fracasso gerencial e econômico. É fato que os membros da comunidade católica de Ponta de Pedras custaram a se acostumar à mudança de estilo do primeiro bispo de Ponta de Pedras para o segundo, Dom Alessio Sacardo S.J. Duas personalidades diferentes talhadas para dois momentos diferentes e agora chega com expectativa a vez de um terceiro bispo, Dom Teodoro Mendes Tavares, nacional de Cabo Verde (África), padre da Congregação do Espírito Santo.

Antes de finalizar, convém falar da "Cooperativa Mista Irmãos Unidos de Ponta de Pedras (COPIUPP)" com a sua feição kibutziana... Mas, quem sabe disto? Quem poderia inventar um "kibutz" caboclo, que na verdade foram agrovilas criadas com a cara e a coragem, fé em Deus e pé na estrada? Praia Grande - esta comunidade, em especial, como projeto-piloto do famoso Programa Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia (POEMA) em parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Fundação alemã Daimler-Benz -, Armazém, Cajueiro, Antonio Vieira, Cachoeirinha, Ilhinha, Jaguarajó - aqui o inovador projeto de agricultura familiar sustentável da EMBRAPA, que começou com pedido de socorro para salvar o coqueiral que morria e não se sabe bem como acabou depois de seu aparente sucesso técnico -, Santana e Porto Santo, numa "reforma" agrária sem muito barulho na parte mais agreste do município, onde outrora retirantes das secas do Nordeste encontraram água e chão na, então, chamada "Colônia da Mangabeira" ao tempo do prefeito Fango (Wolfango Fontes da Silva), antes da revolução de 1930. 

O bispo voluntarista recebia críticas severas e o conflito instalado com o padre Giovanni Gallo evidenciou problemas internos que ainda se podem deduzir da leitura dos livros do fundador do Museu do Marajó. Uma infelicidade para a gente marajoara que em sua maior parte ainda não entendeu tudo que se passou nem o que poderia ser realizado, caso o trabalho social e pastoral tivesse enveredado por rumos mais serenos.

Ismael foi cria da "Cooperativa Mista Fabril, de Recursos Humanos e Turísticos (COMIFRHUT), das duas a que mais benefícios trouxe para a população carente. Esta foi escola profissional, foi empresa, foi olaria, estaleiro, fábrica de móveis. Tinha, sim, que pegar no tranco e deveria ter seu tempo de maturação e transformação profissional. O mesmo talvez caiba refletir a respeito do Museu do Marajó em sua história de resistência, luta e contradição.


uma imagem vale por cem discursos



"A História como Deus não é para os mortos", dizia o historiador José Honório Rodrigues. Segundo este estudioso da História do Brasil, Deus e a História são para os vivos. Os fatos históricos ocorridos no passado não cessam de fazer efeito no presente e de projetar-se ao futuro... A historiografia são registros momentâneos como um álbum de fotografias ao longo de uma vida em apreciação dos fatos conforme as épocas e os homens na voragem do rio de Heráclito. 

Sem a missão de Angelo Rivatto em Ponta de Pedras não se explicaria a arte de um Ismaelino Ferreira e outros artesãos, agricultores familiares, padres, e tantos personagens da história local. Rivatto pode parecer um santo anjo para uns e um déspota esclarecido para outros, sem tocar no explosivo conflito pessoal com o padre Giovanni Gallo...

Para mim, a obra do Gallo e de Rivatto se complementam inseparavelmente (como aliás Dalcídio Jurandir observou em primeira hora no testemunho da correspondência de Maria de Belém Menezes que falta publicar): reconciliados no leito de morte do padre dos pescadores do Arari, a herança do bispo e do padre jesuítas se desmaterializa dos "cacos de índio" no Museu do Marajó e das terras e construções das imperfeitas "cooperativas", para caminhar no sentido de um alto ideal onde há de atingir a fecundante paz que vem das funduras do Mapuá com os sete caciques confederados por Piyé e a utopia evangelizadora do padre Antônio Vieira na miragem do Quinto Império do mundo. 

A imagem do artista Ismael agora repartida pela internet leva uma mensagem viva para todos os Marajós da vida mundo afora.



quarta-feira, 3 de junho de 2015

Engenheiros do Arari

A Cultura Marajoara - Denise Pahl Schaan (8574582689)



Caro Professor Mangabeira,

Em primeiro lugar, agradeço-lhe por ter tido a coragem cívica de aceitar o desafio de uma arriscada viagem de descobrimento ao Marajó. Digo arriscada, politicamente, devida ao passivo de esperanças ainda não concretizadas desde quando o delegado do rei de Portugal e representante da Cristandade, padre Antonio Vieira, por aqui passou no século XVII. Uma "ilha" fora de série -- entre a Amazônia azul e a Amazônia verde -- que adentra ao continente (microrregião de Portel) depois de reunir 2.500 ilhas que se escondem envergonhadas pelas margens da história aonde só costumam ir marreteiros do pré-capitalismo regional em busca da mais valia do trabalho dos ribeirinhos e caçadores de votos a cada temporada eleitoral. 

Por essas paragens "a Criaturada grande de Dalcídio" (Jurandir) resta invisível desde a expropriação da ilha dos Aruans ou Nheengaíbas, em 1665, para doação da capitania da Ilha Grande de Joanes ao secretário de estado Antonio de Sousa de Macedo, donatário que nunca botou os pés em Melgaço, aliás, aldeia de Aricará; ou outro qualquer lugar do Grão-Pará.

Dessa maneira, o senhor ao contrário do donatário da Ilha Grande de Joanes, pôde ver com seus próprios olhos e ouvir com os seus ouvidos um pouco do muito que esta despossuída gente marajoara tem a dizer ao Brasil e ao mundo caso ela soubesse ler e escrever melhor, noves fora os muitos analfabetos de pai e mãe que já nascem "estrangeiros" em sua própria pátria. 

Com certeza essa sua viagem foi um pequeno grande passo numa estrada de mil léguas na remodelação da Educação nacional: digo isto, pois quem for capaz de colocar Marajó nos trilhos do desenvolvimento humano será capaz de fazer qualquer coisa boa no resto do mundo. Logo mais o senhor compreenderá e saberá a razão pela qual uns poucos militantes ficam animados com a sua presença neste fim de mundo que também é porta de entrada para a maior bacia fluvial da Terra.

Em segundo lugar, em vez de pedir ajuda; gostaria modestamente de oferecer como contribuição ao seu trabalho no Palácio do Planalto estas mal alinhavadas linhas eletrônicas, sempre lembrando o quanto a internet banda larga será importante nestas ilhas com suas 500 e tantas "aldeias" (comunidades) isoladas. Não sou exatamente um homem crente e, bem ao contrário, sou crítico diletante da catequese cristã e do colonialismo (cf. José Varella Pereira, "Novíssima Viagem Filosófica" e "Amazônia Latina e a terra sem mal"). 

Entretanto, se intelectuais e educadores brasileiros pretendem decifrar o enigma amazônico para trazer as luzes da Pátria Educadora aos confins do Brasil deveriam aceitar a sugestão de fazer como o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, nascido na Bahia, na monumental "Viagem Philosophica" (1783-1792) que fez do Marajó o primeiro capítulo da viagem ("Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó", 1783).

O golfão Marajoara de Aziz Ab'Saber ou Amazônia Marajoara de Denise Schaan e Agenor Sarraf, certamente, constitui vestibular para altos estudos amazônicos. Além da SAE na prospectiva de longo prazo, acredito que o IPEA e o MCTI no curto prazo poderiam ser parceiros estratégicos do MEC na aplicação do Pátria Educadora através de atividades de extensão nos campi das universidades públicas atuando no Marajó: inovar é preciso, burocratizar não mais é preciso. A cooperação federativa se ela já é precária entre os dezesseis municípios da mesorregião e secretarias de governo estadual, não parece efetivamente melhor entre repartições federais. Mas, não se pode pedir à Presidência da Republica para instalar um telefone da Controladoria-Geral da União 24 horas a fim de bancar o Big Brother tupiniquim.

Poderia a Universidade de Brasília (UnB) se interessar em compartilhar com a UFPA e outras universidades nacionais e estrangeiras a invenção de uma universidade marajoara para o século XXI? Diria que o primeiro passo deveria ser a Extensão voltada a mobilizar entidades da sociedade civil, igrejas, sindicatos, cooperativas e associações pela erradicação do analfabetismo de adultos. Sabemos do fracasso do Mobral e de como outros países puderam se livrar desta herança da escravidão e da exclusão social: logo, a educação continuada pela base seria esta maneira de colocar em prática uma nova Extensão engajada com a Pátria Educadora.

Espero que este blogue caboco chegue ao tablet ou celular do Ministro após o toró de ideias que a viagem ao Marajó pode lhe ter causado: a rede eletrônica, segundo Pierre Levy, é a inteligência coletiva e o filósofo sebastianista Agostinho Silva diria que é o mesmo que os crentes chamam de Espírito Santo. São diversos Marajós para além de dezesseis municípios que somados fazem um território com o dobro da superfície dos Países-Baixos e tem população equivalente a de um país comparável ao vizinho Suriname, por exemplo. Que Marajó o professor de Havard poderá ter visto, ouvido e recolhido para levar de volta a Brasília? 

Certamente, se ele pudesse permanecer até um ano inteiro em Melgaço poderia saber da geopolítica do recém restaurado reino de Portugal para consolidar a conquista do Amazonas tomado aos holandeses e ingleses graças a rixa entre índios Tupinambás e Nheengaíbas (Nuaruaques ou Marajós). As aldeias de Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel) estão implicadas nas pazes de Mapuá (Breves)... Em meio à névoa barroca da utopia evangelizadora de Antônio Vieira (carta de 11/02/1660 a El-rei de Portugal Afonso VI, "História do Futuro" e "O reino de Jesus Cristo consumado da terra") escapa alguma coisa reveladora, por acaso, das preocupações do atual pontificado do papa Francisco: a paz universal sonhada -- quem diria -- há mais de três séculos na Amazônia lusitana e agora brasileira. Que completará 400 anos em 2016...

Todos nós, nativos ou não, não somos mais que videntes e ouvintes de uma longa história escrita no barro dos começos do mundo. Sabemos, graças ao progresso da Ciência, que nossos antepassados vieram todos do coração da mãe África há milhares de anos para descobrir o mundo e hoje somos bilhões de seres humanos a bordo de um planeta em profunda crise civilizacional.



QUE OS ENGENHEIROS DO ARARI TEM A VER?



Os engenheiros do Arari foram aqueles e aquelas que, há quase dois mil anos, saíram dos cinco mil anos de nomadismo amazônico atrás de piracemas na pesca de gapuia (captura de peixes e coleta de mariscos à mão) e, por necessidade e acaso, acabaram inventando a primeira aldeia suspensa na ilha do Marajó que levou à Cultura Marajoara. Do mesmo modo, em 1972, o padre Giovanni Gallo com seus colaboradores leigos inventaram o sui generis MUSEU DO MARAJÓ...

O museu do Gallo foi feito para as pessoas "ver com as pontas dos dedos" (explicação nos livros escritos pelo mesmo). Já, Rosemiro Pamplona e seus roqueiros cabocos fizeram paródia da banda "Engenheiros do Havaí", são músicos do Extremo Sul... Isto me lembra do Extremo Norte, ciclo romanesco de Dalcídio Jurandir, que foi ao Rio Grande do Sul escrever o primeiro romance proletário brasileiro, "Linha do Parque"... E o Havaí é a terra natal de Barak Obama, Mangabeira Unger foi mestre de Obama em Havard... Os Mestres da Guitarrada cantam o Caribe no Pará: e os antigos marajoaras vieram de lá.

Misturando minha lucidez com a minha maluquez, dá vontade de dizer tudo isto e muito mais, cantando. A linguagem mais perto do coração da gente.




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REGISTRO DA ARTE MARAJOARA NO PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL BRASILEIRO

sábado, 23 de maio de 2015

"Campus de Cachoeira": a desprezada lição de Giovanni Gallo inventando extensão universitária que a criaturada de Dalcídio carece.


memória do Centenário de nascimento de Dalcídio Jurandir (Ponta de Pedras 10/01/1909 - Rio de Janeiro, 16/06/1979). Fotografia da casa remanescente do antigo chalé do capitão Alfredo Nascimento Pereira, pai do romancista e editor da gazetilha "O Arary", retratado no romance "Chove nos campos de Cachoeira" escrito no ano de 1939 na vila de Salvaterra (distrito de Soure), com placa metálica alusiva ao Centenário e faixa com transcrição de anotação do acervo Dalcídio Jurandir depositado na Casa de Rui Barbosa (Botafogo, Rio de Janeiro).



imagem do escritor com o chalé original de "Chove nos campos de Cachoeira".



"Quando eu morrer levem-me para Cachoeira, enterrem-me debaixo da Folha Miúda (a minha árvore, defronte do chalé, toda a minha infância) quero ficar ali, perto do rio e perto de casa debaixo daquela sombra entre os ninhos e as estrelas, parece que todos os meus sonhos ficaram pendurados naqueles ramos todos, meu primeiro deslumbramento. Eis porque minha saudade me faz ter esse desejo romântico"... 
(Dalcídio Jurandir, setembro de 1932).



No próximo ano a Universidade Federal do Pará (UFPA)  completará, no Marajó, 30 anos de interiorização considerada a instalação do campus de Soure, em 1986, seguido do campus de Breves pouco depois. Exceto os tempos pioneiros do Centro Rural de Atendimento Comunitário (CRUTAC), na década de 70, quando a federal do Pará desembarcou com um exército Brancaleone na famosa "Ilha dos Aruans" ou "Capitania da Ilha Grande de Joanes" (1665-1757), por via de Extensão Universitária abrindo caminho à futuros cursos de graduação que hoje se realizam nos dois campi. Foi, pois, com a antecessora da PROEX que a UFPA chegou à ilha do Marajó e poderia ser com um projeto a ser talvez denominado "Campus de Cachoeira" - rememorando o romance "Chove nos campos de Cachoeira, evidentemente - o primeiro passo efetivo à desejada autonomia dos campi marajoaras em direção à futura universidade federal multicampi das Ilhas.

Por ironia da história, os anos setenta foram marcados a ferro e fogo pela luta de resistência à Ditadura e aos grandes projetos de desenvolvimento da Amazônia que à força de Incentivos Fiscais duvidosos levaram antes à devastação da floresta amazônica e ao agravamento do conflito de terras do que ao prometido desenvolvimento humano regional. Mas também, na contra corrente dos anos de chumbo, em 1972 viu-se florir a coincidência extraordinária de criação do Museu do Marajó pelo obstinado padre dos pescadores Giovanni Gallo e o reconhecimento da obra literária do índio sutil Dalcídio Jurandir pela Academia Brasileira de Letras com o Prêmio Machado de Assis. 

Dois acontecimentos emblemáticos para a amazonidade embora separados e ocorridos em locais díspares e distantes - o Rio de Janeiro cosmopolita e o pequeno e isolado município de Santa Cruz do Arari -, porém dotados de formidável importância histórica na construção da consciência social, cultural e política do povo marajoara. Como se pode constatar na correspondência de Maria de Belém Menezes e Dalcídio Jurandir, que suscitou à distância o livro-reportagem "Marajó, a ditadura da água", de Giovanni Gallo dando começo a uma renascença inesperada e vazão à resiliência inerente na bravura de uma gente incomparável remanescente de "índios bravios, desertores e escravos fugidos" nos centros a ilha (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira, "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó", 1783) que retardaram a colonização por mais de 50 anos desde a tomada de Mariocai (Gurupá), em 1623. 

Daí, certamente, a origem da pauperização das populações tradicionais, da cultura de marginalidade e do invencível abigeato que resiste a todas repressões policialescas e tentativas de controle social.  Até hoje o mundo acadêmico, empresarial e político do Pará, com raras exceções que confirmam a regra, não deu mostras concretas da importância convergente da presença da UFPA através do pioneirismo do velho CRUTAC no maior arquipélago fluviomarinho do mundo; a consagração nacional da literatura amazônica do Extremo Norte e a invenção magistral do primeiro ecomuseu do Brasil à margem do lago ancestral que viu nascer a primeira cultura complexa da Amazônia como elementos de integração territorial e inclusão socioambiental. E assim, em vez de um projeto de desenvolvimento humano sustentável, predomina a insustentável clivagem de interesses individuais e egoismo de classe que a colonialidade impõe com a pobreza de homens e ideias contra o descobrimento de 2000 anos de Cultura Marajoara que deveria orgulhar o Brasil em sua inata qualidade de maior pais amazônico da Terra, capaz de inspirar a invenção de um futuro melhor para todos.

O trigésimo aniversário do Campus de Soure será excelente oportunidade de balanço de pros e contras em cinco décadas de atividades da UFPA no Marajó já contemplando encerramento da etapa de interiorização nesta região e o futuro polo universitário marajoara multicampi integrando a educação integral desde a creche até a pós-graduação na comunidade dos dezesseis municípios adotada as mais avançadas tecnologias pedagógicas de ensino à distância. Visando a sua autonomia sob perspectiva do programa federativo Pátria Educadora a dar lugar a uma universidade nova específica para o maior arquipélago de rio e mar do planeta, sito no Golfão Marajoara, composto de mais de 500 comunidades ribeirinhas espalhadas em 2500 ilhas e grande "ilha" na floresta amazônica de Portel, na terra firme. 

Principal demanda do Movimento Marajó Forte - MMF ao qual o GRUPO EM DEFESA DO MARAJÓ - GDM aderiu com os seus 20 anos de militância socioambiental (1994-2014), a nova universidade multicampi que se deseja deverá cobrir toda mesorregião Marajó na expressão geográfica um "país" ou província insular de mais de 500 mil habitantes em território de 104 mil km², que soma dezesseis extensos municípios - microrregião Arari: Cachoeira do Arari, Chaves, Muaná, Ponta de Pedras, Salvaterra, Santa Cruz do Arari e Soure (em sentido horário a partir de Cachoeira do Arari, Ponta de Pedras, Muaná, Chaves, Santa Cruz do Arari, Soure e Salvaterra); microrregião Breves: Afuá, Anajás, Breves. Curralinho e São Sebastião da Boa Vista (em sentido horário a partir de Breves, Afuá, Anajás, São Sebastião da Boa Vista e Curralinho) e microrregião Portel: Bagre, Gurupá, Melgaço e Portel (em sentido horário a partir de Gurupá, Melgaço, Portel e Bagre).

O GDM é fruto direto da Pro-Reitoria de Extensão da UFPA (PROEX) a cabo de dez anos de educação ambiental no Marajó em parceria com a legendária Sociedade de Preservação dos Recursos Naturais e Culturais da Amazônia (SOPREN), entidade decana do movimento ambientalista na região a qual se associa inseparavelmente ao respeitável nome do médico Camilo Martins Vianna, em cuja gestão como Pro-Reitor de Extensão da UFPA o GDM se formou dia 20/12/1994. E que teve como resultado dez Encontros em Defesa do Marajó ao término de cada ano escolar: o último deles encerrando todo ciclo, ocorreu em Ponta de Pedras a 30 de abril de 1995, com a publicação da "Carta do Marajó-Açu" constituída de pauta de reivindicações sobre Educação e Saúde Públicas regionalizadas, implantação da APA-Marajó (Art. 13, VI, § 2º da Constituição do Estado do Pará), proteção aos sítios arqueológicos e difusão da Cultura Marajoara entre outros itens pontuais. 

Desde então, o GDM assumiu voluntariamente a tarefa de disseminar os princípios da Carta do Marajó-Açu de 1995, síntese dos dez anos anteriores de encontros em defesa do Marajó; o que até 2014 corresponde a 30 anos de voluntariado em educação popular. Todavia, este movimento de parceria entre a UFPA e a comunidade marajoara teve por antecedente o (CRUTAC), na década de 70, ao qual além de Camilo Vianna também o nome da professora Ana Rosa Bittencourt se perpetuou na terra natal de Dalcídio Jurandir, Ponta de Pedras. Vejam publicação de 07/12/ 2007, no sítio eletrônico da UFPA, transcrito abaixo:


" O médico e ambientalista Camilo Vianna foi  homenageado no último dia 07, durante o encerramento da 10ª Jornada de Extensão da UFPA, no Espaço Cultural do Vadião. Professor aposentado da instituição, já ocupou os cargos de pró- reitor de extensão e  vice-reitor, Camilo  recebeu das mãos da reitora em exercício  Regina Feio Barroso a medalha dos 50 anos da UFPA e dos 10 anos de realização da  Jornada.
Regina Feio destacou a importância da iniciativa da Pró-Reitoria de Extensão. “A UFPA não poderia deixar de fazer esta homenagem a quem tanto  ajudou a construir esta universidade”, disse.
Em agradecimento, Camilo Viana, que também coordenou o Centro Rural de Atendimento comunitário (CRUTAC) semente das ações de extensão universitária,  disse que não se pode falar em interiorização sem lembrar aqueles que atuaram nos projetos. “Não podemos deixar de falar  nos companheiros, ou melhor, companheiras, porque muitas foram as mulheres voluntárias que atuaram no primórdios da extensão. Era um esforço subumano mas também maravilhoso”, lembrou.
Conferência – A reitora em exercício da UFPA fez a conferência de encerramento da 10ª Jornada de Extensão da UFPA. Regina Feio, que já esteve a frente da PROEX, saudou os participantes da Jornada em particular os bolsistas dos campi do interior. “Sabemos dos desafios que vocês enfrentam”, frisou.
   Regina Feio discorreu sobre a trajetória da extensão na UFPA, com  um resgate histórico das iniciativas. “Extensão é definida como objetivo acadêmico a partir da reforma universitária de 68, quando foi definido que as universidades deveriam estender à comunidade, em forma de cursos e outras ações, o resultado de suas atividades.
    A extensão universitária no Pará  teve inicio  na década de 70, quando a Universidade de Viçosa (MG) e Universidade Federal de Santa Catarina começam a desenvolver atividades em Santarém e Altamira, onde hoje funcionam campi absorvidos pela UFPA. É nesse período que a UFPA cria a Coordenadoria de Assuntos Culturais e Estudantis que depois ganha status de Subreitoria coordenada pela saudosa professora  Anunciada Chaves. “É também por meio de ações no CRUTAC que a UFPA passa a cumprir seu papel junto a comunidade com atendimento médico odontológico”, lembra Regina.
    A aprovação do Estatuto da UFPA, em 1972, possibilitou  a criação da Pró-reitoria de Extensão  e da criação do primeiro plano diretor voltado para a área.
No final da década de 80, é criado o Fórum de Pró-Reitores de Extensão. “É nesse momento que se mostra o olhar diferente que se passa a ter para o conceito de extensão, porque  é fortalecido o debate sobre a indissociabilidade  entre o ensino, pesquisa e extensão, afirma Regina.
A extensão deixa assim  o seu caráter assistencialista para se tornar uma política acadêmica,  uma  atividade curricular pedagógica e importante ferramenta para articulação com projetos regionais e nacionais. Nos anos seguintes, começam as discussões sobre áreas, temáticas e indicadores de avaliação para projetos de extensão.
“Hoje o  nosso Estatuto atual  define a universidade multicampi e propicia a elaboração de uma política acadêmica dirigida a todos os campi.  Produzir conhecimento, formar profissionais capazes de transformar a região e estar a serviço da sociedade  é a nossa missão”, finalizou Regina."
No bojo da campanha contra a divisão territorial do Pará, no plebiscito sobre projeto de criação dos estados do Tapajós e Carajás, em 2011, surgiu o Movimento Marajó Forte (MMF) e o GDM convergiu com o mesmo manifestando-se conjuntamente contrários à divisão do território estadual. Ao mesmo tempo que GDM e MMF somavam forças contra o separatismo também coincidiram no discurso contrário ao status quo que levou à tentativa de divisão do Pará, notadamente o IDH dos municípios marajoaras colocados na rabeira do desenvolvimento humano do País. 

Era dizer NÃO à divisão territorial feita sob medida para multiplicar oligarquias da região e também NÃO à leseira do povo pobre do rico estado do Pará. Mais ainda NÃO ao estado vergonhoso de analfabetismo crônico de quase metade da população do Marajó em contraste à propaganda do "paraíso ecológico" ignorando o potencial ecoturístico de de base na comunidade, a riqueza cultural e biodiversidade da grande "ilha" no delta-estuário do maior rio do mundo! 

Não se aceita mais a colonialidade da velha empulhação oligárquica. E o MMF, audaciosamente, levantou bandeira para criação de uma nova universidade federal no Marajó, plataforma superior de uma educação ribeirinha libertadora. Projeto ao qual o GDM aderiu prontamente a caminho de provável fusão entre tribos marajoaras militantes do movimento social à exemplo dos antigos Nheengaíbas no século XVII em Mapuá (Breves), Aricará (Melgaço) e Aracaru (Portel) reunindo caciques Aruãs, Anajás, Cambocas, Pixi-Pixi, Guaianás, Tucujus e Mamaianás a fim de tratar as pazes com portuguese e tupinambás a cabo de 40 anos de guerra. 

De modo que o grande público brasileiro e internacional venha a compreender e a se engajar também num profundo movimento de resistência cultural que resgata a luta das populações tradicionais contra a conquista e colonização há mais de quatro séculos. Quem, para tamanha façanha, melhor para ser porta voz de sua criaturada que o próprio "índio sutil" (Dalcídio Jurandir no dizer amável de Jorge Amado: discurso de entrega do Prêmio Machado de Assis de 1972) que a imortalizou no ciclo romanesco do Extremo Norte? Portanto, a fim de dialogar com a Pátria Educadora seria preciso mandar Alfredo em embaixada a Brasilia representar a república antropoética marajoara. Quem sabe numa performance especial no espaço cultural do Congresso Nacional...




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Dalcídio Jurandir e Jorge Amado, academia Brasileira de Letras, entrega do Prêmio Machado de Assis de 1972.



OS CAMPOS DE CACHOEIRA COMO SUGESTÃO DE "CAMPUS" ECOCULTURAL DA PRIMEIRA OBRA LITERÁRIA AMAZÔNICA DISTINGUIDA PELO PRÊMIO MACHADO DE ASSIS E ROTEIRO PARA TURISMO LITERÁRIO MARAJOARA.



Está claro que esta gente não quer só comida de graça e circo da chuva movido a álcool turbinado por sonzão treme terra... Tampouco a criaturada grande de Dalcídio, que muito espera das promessas do Turismo e do desenvolvimento sustentável, não quer de jeito nenhum trocar seis por meia dúzia entre fogos e fanfarra para inaugurar amanhã grande placa colorida de marquetingue da desejada, falada e ardentemente imaginada "Universidade Federal do Marajó" onde ainda hoje nós lemos o nome de  "Federal do Pará": todavia, ao contrário de costumeira ingratidão de filhos pela velha mãe, daqui do sofrido solo do Marajó a venerável UFPA jamais há de ir embora: parceira para sempre. Quem sabe? Livre pensar é só pensar... Como prova de estima e eterna gratidão a nova universidade multicampi marajoara que há vir no futuro próximo, também esta novidadeira poderia ensinar alguma coisa à velha e querida mestra. Pelo menos, em matéria de Extensão ecocultural com participação interativa da comunidade, por exemplo.

Pois, como a história da UFPA nos ensina sob o olhar indiferente dos búfalos conformados com a liberdade perdida dos verdes campos sem fim entre chuvas e esquecimento, no Marajó foi a Extensão Universitária quem fez a ponte da interiorização e desembarcou primeiro a bordo do CRUTAC. Quem ainda se lembrará do pioneirismo do CRUTAC? Seria interessante que a PROEX através de Soure pudesse, efetivamente, com recursos do Pátria Educadora ensaiar os primeiros passos para autonomia dos campi do Marajó rumo á configuração da nova universidade da Ilhas que todos sonhamos e que a gente marajoara precisa. 

Como, outrora, na travessia da UFPA de Belém para a ilha do Marajó, a Extensão Universitária tendo desembarcado à frente do Ensino Superior; desta vez a PROEX poderia tomar a cargo talvez etapa de transição à autonomia dos campi de Breves e Soure para a futura universidade federal mediante inovador projeto, digamos assim, "Campus de Cachoeira" na provocação didática vanguardeira e abrangente de "Chove nos campos de Cachoeira" no romanceiro do Extremo Norte (algo mais que apenas a sugestão para um campus universitário na cidade de Cachoeira do Arari, por exemplo, para chegar a mais de 500 "aldeias-escola" - comunidades ribeirinhas conectadas a rede brasileira de educação - de todos dezesseis municípios do Marajó fazendo uso principalmente da rede social na internet).

Este campus imaginário e revolucionário ao mesmo tempo em matéria de extensão universitária, aqui ligeiramente esboçado a título de homenagem aos militantes e beneficiários do CRUTAC dos velhos tempos do mestre Camilo Vianna; poderia talvez se inspirar dentre outros mestres da amazonidade marajoara na vida e obra do autor de "Chove nos campos de Cachoeira", Dalcídio Jurandir. 

Filho do segundo casamento de seu pai, o mestre escola e rábula da vila de Ponta de Pedras Alfredo Nascimento Pereira, nasceu na humilde casa de seu tio materno Manoel Eustáquio Ramos no bairro do Campinho. Sua mãe, Margarida Ramos era uma jovem mulher negra solteira que ficara grávida do capitão viúvo de sua primeira mulher Antônia Silva, uma indígena da aldeia de Mangabeira (Ponta de Pedras) e ex-aluna da escola primária: o tio registrou o recém nascido com nome de "Darcidio José Ramos" (livro de registro de nascimento do Cartório Malato, comarca de Ponta de Pedras-Estado do Pará, ano de 1909).

No ano de 1910, o capitão Alfredo deixando os filhos de seu primeiro casamento em Ponta de Pedras mudou-se com sua nova família para a vizinha vila de Cachoeira (Arariúna e atual Cachoeira do Arari) onde ele adquiriu o famoso chalé retratado no romance de seu filho mais famoso e foi nomeado secretário da intendência municipal na administração do coronel Bento Lobato de Miranda, que hoje dá nome à rua do bairro de Petrópolis onde se achava edificado o dito chalé de Alfredo (alter ego de Dalcídio) e a árvore Folha Miúda na beira do rio debaixo da qual o romântico Dalcídio da mocidade queria ser enterrado depois de morrer: o chalé foi demolido pela desídia dos humanos descuidados de educação e cultura e a árvore de infância do escritor a erosão do rio levou abaixo no rebojo da cobra grande Boiúna ou o Navio encantado - mas apesar de tudo, tudo está a salvo do dilúvio a bordo de "Três casas e um rio" e outros livros da memória dalcidiana...

Em Cachoeira, o capitão Alfredo e dona Margarida se casaram formalmente de papel passado e terá sido no reconhecimento de paternidade que o registro de nascimento do escritor foi retificado como Dalcídio José Ramos Pereira (Dalcídio Jurandir ficou sendo o pseudônimo literário, mais tarde por vontade própria do "índio sutil"). Toda infância do escritor transcorreu em Cachoeira, entre 1910 e 1922: isto, contudo, não quer dizer que nesse período ele nunca tivesse viajado com seus pais para ir às vezes à vizinha Ponta de Pedras e Belém...

Com treze anos de idade, em Belém, frequenta o grupo escolar Barão do Rio Branco a fim de terminar o curso primário e começar a cursar o ginásio Paes de Carvalho. Se em "Passagem dos Inocentes" o "chalé se separa" com o pai agora metamorfoseado na pele do Major Alberto, supostamente em Muaná (na realidade Ponta de Pedras), retornando temporariamente à velha casa de sua viuvez com os filhos do casamento com a índia morta (hoje o terreno na cidade de Ponta de Pedras onde se edificou a sede da Associação Musical Antônio Malato); e dona Amélia (em figura de Margarida Ramos) com a sua ninhada de pretos passando direto para o bairrozinho de Areínha (suposto Campinho), bordado de pés cajueiros frondosos na beira do igarapé onde a mata se avizinhava da vila com o açaizal e os parrudos miritizeiros, donde o avô Bibiano tirava sustento e se confundia com os troncos escuros do palmeiral. No romance "Primeira Manhã" o chalé de Cachoeira com a estante de livros do Major é o elo pelo qual o ginasiano entediado da aula maçante se evade pela trama dalcidiana que coloca Alfredo a dois passos de Missunga, puxando o antropológico "Marinatambalo" ("Marajó") por um inesperado parágrafo adentro das artes mágicas do caroço de tucumã do arteiroso menino marajoara. Ademais, a fazenda Paricatuba onde "Marajó" começa na vadiagem de Missunga é bem a lembrança disfarçada do rio de mesmo nome, tributário do Marajó-Açu que banha Ponta de Pedras na literatura dalcidiana.

Aos 16 anos de idade Dalcídio já é um dos diretores da revista artesanal Nova Aurora, mas não termina o terceiro ano ginasial. Desde 1927 ele decide se tornar autodidata e contando com a preciosa ajuda e orientação de seu amigo Dr. Raynero Maroja, que viu o talento do jovem e lhe empresta livros; o moço do Marajó entra em contato com grandes mestres da literatura como Balzac, Cruz e Sousa, Guerra Junqueiro, Augusto dos Anjos e outros notáveis escritores do primeiro tempo de sua formação.

Na sequência desse aprendizado e amizade, em outubro de 1929, com apenas 20 anos de idade Dalcídio foi nomeado secretário-tesoureiro da Intendência Municipal de Gurupá pelo seu amigo Dr. Raynero Maroja, então no cargo de Intendente daquela municipalidade histórica. Então, durante as horas vagas que, certamente, não seriam poucas começou a escrever a primeira versão de "Chove nos Campos de Cachoeira" que ele iria descartar dez anos depois quando em 1939 reescreveu a versão definitiva.

Dalcidio permaneceu na intendência de Gurupá cerca de um ano, donde se afastou em novembro de 1930 e passou a trabalhar num barracão de seringal à margem do rio Baquiá Preto, região das Ilhas de Gurupá, hoje fazendo parte da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Itatupã-Baquiá. Nesse tempo, ensinou as primeiras letras a dois filhos do seringalista Paes Barreto, que se tornara seu amigo. 



Conclui um livro de contos e um romance, onde narra lembranças da infância em Marajó, em 1931, exercícios de mocidade certamente para a obra que viria mais tarde. Faz versos e descreve paisagens. Com a memória desse período de perambulação pelas Ilhas, Dalcídio em plena maturidade e já doente escreveu, no Rio de Janeiro, "Ribanceira" seu último romance: resulta então que Gurupá é lugar de memória do começo e fim do ciclo Extremo Norte.

Retorna a Belém sem emprego, todavia com auxílio de amigos é nomeado auxiliar de gabinete da Interventoria do Estado. Era a revolução de 3 de Outubro chegando ao Pará velho de guerra... Ele colabora nos jornais "O Imparcial", "Crítica" e "Estado do Pará" as redações fervilham de ideias e parcialidades. O colapso econômico da Borracha era recente na província onde o futuro romancista de "Primeira Manhã" faz sua formação intelectual à margem do ensino formal, inclusive frequentando a Academia do Peixe Frito em companhia de Bruno de Menezes, Tó Teixeira, Rodrigues Pinagé, Eneida de Moraes, Jacques Flores e tantos mais modernistas. Conheceu o antropólogo Manoel Nunes Pereira que teria grande importância na sua orientação de escritor, notadamente na elaboração de "Marinatambalo", publicado com título de "Marajó", saudado pela crítica como o primeiro romance sociológico brasileiro.


Para saber mais, leia:


Tragédia e Comédia de um Escritor Novo do Norte...

Dalcídio Jurandir
acessando o link
http://www.releituras.com/djurandir_tragedia.asp



Campus de Soure (Marajó), Universidade Federal do Pará (UFPA), criado em 1986