sábado, 24 de janeiro de 2015

zenBubuia


"Sob a chuva" fotografia de Bob Menezes.



Por que sempre estamos todos pobres de espírito e ao mesmo tempo de saco cheio.


Vós que vos sentis fatigados no caminho da vida para a morte
descansai vossos fardos, medos e angústias sob a sombra
de uma velha árvore plantada pela mão do vento passageiro
na beira do rio do tempo no qual ninguém mergulha
duas vezes... 
E, no entanto, a correnteza nunca cessa de fluir.

Despidos de intenção contemplai serenamente ao pôr do sol
numa bela lagoa de água boa a lendária Victoria amazonica
tal qual flor de lótus a flutuar na negra superfície aquática: 
e tereis captado o espírito da Natureza, mãe de todas as mães.

Via essencial de beleza natural em estado puro vital
então vos comuniqueis a ela como a uma antiga deusa: 
alma de vossa alma iluminada e inteligência coletiva,
comungai em íntima dialética com vosso ser antes de nascer
sem necessidade de proferir palavra nem pensamento
tal qual quando estivestes em formação no ventre materno
apenas religados sutilmente por sentimento secreto placentário
no eterno retorno ao regaço do tempo do sonho
e encantamento onde coabitam todos os viventes para sempre.

Ó vós que vos inquietais do futuro obscuro
e não compreendeis jamais o senhor morto do passado
que vos desanima o presente sempre em vias de vir a ser. 
Acalmai vossa mente pela compreensão da simples razão
de uma semente que se reproduz e se renova simultaneamente
à brevidade duma flor singela:
renovai vosso coração pela compaixão aos seres mais simples
deste mundo 
e caminhai sempre livre nesta vida passageira 
como a flor duma quimera na primavera. 


zenBubuia

No princípio do caminho dos astros no céu profundo não havia espaço nem nadinha: logo, não tinha tempo nem fio de pensamento pra fiar a teia das palavras. 

A teoria cósmica flutuava em riba da tipacoema do rio que ainda não havia...

Ou seja, não existia começo e muito menos fim: era paresque como se a natureza da Natureza porvir dormisse profundamente num oceano de sonho embalado pela viola quântica de onze cordas...

Masporém todas gentes, os bichos, plantas e galáxias do infinito estelar e os encantados da imaginação criadora já estavam ali, em potência, embolados no nada do Nada no aleph prestes a explodir e vir a lume para implodir no ômega cósmico, muito mais tarde a bilhões de anos-luz; não se sabe como nem porquê exatamente e nunca se haverá de saber, talvez, ainda que desvendada seja a "partícula de Zeus".

Antes da gente existir não havia mito, não havia deuses, anjos nem demônios; não existia céu de glórias nem inferno de culpas terrenas (purgatório é geografia mágica pré-moderna), sequer a Terra Plana havia ainda...  

Fiat lux zero, zero Big Bang e todas teorias e livros sagrados juntos ao pó da ignorância.

A utopia selvagem da Terra sem Mal jazia junto ao mito da primeira noite do mundo dentro de um caroço de tucumã escondido no fundo do rio pela cobragrande. 

Sem curiosidade e paixão do bicho-homem não haveria mitologia: logo, nada de Criação, religião, arte, história, Evolução nem ciência nenhuma.

O velho caminho que vem da China misturado à iluminação da velha Índia para o mundo faz a vez e a hora do caminhante na última fronteira da Terra. 

É dizer, sem saber o mundo fez a si mesmo por sua própria conta e natureza, masporém por necessidade e acaso o dito cujo inventou a criatura Homem que por seu turno criou mitos e lendas explicativas do enigma da vida e da morte. 

Deste modo, flutuante e natural na maré da gravitação o mundo através da humanidade filha da animalidade toma consciência da complexidade de si mesmo: rema pra frente no algoritmo duma canoa boa feita sob medida para a grande viagem sem nunca voltar a trás até o fim dos tempos.



fragmento de versão em sânscrito do Sutra do Lótus, do século V, encontrada em Hotan, província de Xinjiang, na República Popular da China.

sábado, 10 de janeiro de 2015

tio Dal





Querido tio Dalcídio,

se você estivesse morto hoje farias 106 anos de idade: mas, na verdade, ninguém faz aniversário no tempo encantado, sobretudo, sob a pele de Alfredo e seu caroço de tucumã mágico vivendo ao lado de Andreza transfigurada em Princesa encantada no lago Arari tal qual teu alterego sonhava em cumplicidade com a sonsa entre rusgas e cismas das três casas e um rio da vida ou, como Guimarães Rosa ponha fé, transformado na estrela misteriosa que os antigos pajés Sacacas viram cair certa noite em pleno lago Guajará como anúncio, talvez, que teu verdadeiro nome de índio sutil seria Jurandir ("o que foi trazido pela luz do céu", "o que fala doces palavras").

estás agora cada vez mais vivo na cabeça e no coração da tua Criaturada grande, conforme reza à mais antiga das mais antigas filosofias dos povos originais da mãe Terra; neste memorável dia 10 chegaste do ignoto mundo dos caruanas carregado nas asas do pássaro guará tinto de sangue dos cabanos ressuscitados pelo dom daquele caranguejinho dos campos alagados, crairu chamado; que morre no peso do verão e revive com as primeiras chuvas do ano para habitar a terra dos mortais e vinhas tu do encantado país do sonho como todos os viventes e, por acaso,  no dia 16 de junho de 1979 retornaste às mesmas paragens eternas após setenta janeiros ao fim de dias e noites na passagem dos inocentes desta ilha-mundo.

por acaso deu-se tua natividade numa pobre barraca coberta de palhas tiradas pelas mãos do avô Bibiano, da mata próxima e o chão de barro batido por muitas gerações, porém muito bem tratada e rodeada de pés de cajueiro num terreninho baldio de areia fina varrido todo dia com vassoura de açaí; no Campinho, vila de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, ano de 1909, lugar onde teu tio Manuel Ramos costumava fazer presépio e apresentar lindas Pastorinhas.

o rio Paricatuba foi a parte que te coube neste latifúndio para reforma agrária da antiga sesmaria da imaginária fazenda Marinatambalo, pela herança dos barões hereditários da ficção do romance "Marajó" e os campos de Cachoeira te levaram longe pelos caminhos do mundo afora.

agora ainda mais longe o chalé imaginário de Petrópolis por ironia da baixada cachoeirense, a chuva que faz renascer o verde das queimadas nos invisíveis campos de Cachoeira estão te levando alto à posteridade, enquanto a triste realidade mata o sonho com a "plantation" aluada de arrozais que nem o bicho folharal assusta a Criaturada e faz desaparecer peixes e aves envenenadas: nem parece que tu vieste verdinho a este mundão de águas do Dilúvio como peixinho da lenda da cobragrande a te enxugar ao sol sobre as pedras da ponta do rio Marajó-Açu a fim de virar gente desencantada: estavas muito cansado, como qualquer cria que acaba de nascer.

que nem tua fatigada mãe a descansar de nove meses a bom ver o peso do filho dela crescer na barriga esperando o que seria o fruto concebido daqueles dias de euforia em segredo e medo do falatório das boas famílias e a língua grande da vizinhança na vila carente de futuro e lazer.

nos tais dias e noites de amor a preta pobre desletrada e o retórico capitão branco remediado e viúvo cobiçado das solteironas de família tradicional romperam certos padrões e preconceitos de um mundinho desafortunado e mesquinho: então ela deu a luz com ajuda de parteira caseira e tu foste para os teus um menino deus mulatinho e pagão destinado ao batismo católico na igreja de nossa senhora da Conceição, onde o tio Manuel Ramos era sacristão e zelador na falta de vigário quase sempre.

os reis magos nunca chegaram a Ponta de Pedras, exceto no presépio do Campinho com nuvens de algodão e estrela de papelão apontando para a rua Belém a caminho da praia da Mangabeira onde a antiga aldeia indígena nasceu; mas teu pai que era versado na arte pirotécnica mandou soltar dois rojões para avisar à redondeza de que lhe havia nascido mais um macho na família (se fosse fêmea, seria caso apenas de um foguete só estrondar naquele dia nas bandas do Campinho, conforme o costume); tio Manuel Ramos na hora da ladainha do Divino bateu o sino da igreja com a maior alegria e foi aí que tua mãe te deu nome José, do carpinteiro pai de Jesus de Nazaré e de teu outro tio irmão mais velho dela; tal qual minha devota mãe quis que eu também me chamasse assim acrescido de Jesus e Maria, que frei Inácio graças a deus barateou em José Maria apenas; foste Dalcídio por vontade de teu pai e meu avô Alfredo Nascimento Pereira, professor e rábula aficionado por nomes exóticos para dar aos muitos filhos que ele teve com três mulheres dentro de casa e não sei quantas por fora...

no cartório do senhor Raimundo Malato, da comarca, livro do ano de 1909, ficou registrado nascimento de uma criança do sexo masculino, filho de Margarida Ramos, solteira, nascida em casa do declarante Manuel Eustáquio Ramos, irmão da mãe da dita criatura recém parida, situada à denominada rua Samuel MacDowell nome de doutor para uma simples viela que serpenteava, desde o Fim do Mundo passando pela frente do Cemitério e por trás da Intendência (prefeitura), para entrar pela boca do Campinho entre açaizais risonhos e parrudos pés de palmeira miriti.

entre a criativa vontade do pai e a expedita pronúncia do tio, no falar marajoara, face ao cartorário restou um tal "Darcidio José Ramos" com que, certamente, o retórico capitão Alfredo não gostou e teve ele mesmo em pessoa que retificar, suponho, já como Dalcídio José Ramos Pereira na vila de Cachoeira; onde a cabo da viuvez advinda da morte de minha avó índia da aldeia da Mangabeira, Antônia Silva (1904), o capitão Alfredo contraiu matrimônio com dona Margarida e fez reconhecimento oficial de paternidade dos filhos do casal até então (Flaviano, Dalcídio e Ritacínio), festejada por filhos de ambos casamentos na fazenda Mãe Maria, segundo me contava meu pai caboco Rodolpho Antônio Pereira (Ponta de Pedras, 1904 - Belém, 1992) que lá esteve presente assim também seu irmão mais velho de pai e mãe, Otaviano Celso, poeta parnasiano obscuro que foi protótipo talvez de Eutanazio no romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira".

Meu mestre amado e camarada,

muito poderia te dizer numa carta póstuma nesta ocasião, mas se no tempo do sonho não há calendário nem relógio semelhantemente à idade do mito da primeira noite do mundo com aquele primitivo sol sempre a pino; aqui na terra dos homens nem bem o dia amanhece e quando se vê já é noite...

assim, nada direi no momento de nosso primeiro encontro ocorrido em casa de tia Alfredina, em Belém, quando eu repórter fui entrevistar o já famoso escritor Dalcídio Jurandir e acabou que não perguntei coisa nenhuma só a te responder sobre como iam todos da banda de lá na ilha grande, Cachoeira, Ponta de Pedras e vizinhanças;

nem falarei a respeito da carta que me mandaste em resposta por mãos do tio Ritacínio sobre minha pretensão em publicar o romance "Tipacoema", rebento duma infinita escritura danada que até parece o fado do Padre Antonio Vieira; que me escreveste para não desistir em dar testemunho do homem aqui largado em plena maré, tua criaturada como dizias secundado por Eneida de Moraes.

então, para encerrar estas mal alinhavadas linhas, estava eu ainda com cerca de sete anos de idade, em casa de meus pais em Ponta de Pedras a um quarteirão de distância da casa de meu avô Alfredo e sua terceira mulher, dona Isabel Trindade; e minha mãe, Othilia Varella Pereira; falava dos idos da mocidade dela morando no sítio Serrame, à margem do Rio Canal pouco acima do Curral Panema de que escrevi ultimamente: papai também era pródigo em contar muitos casos dos velhos tempos da família: minha rica imaginação infantil foi irrigada de imagens do lago Arari na era das vacas gordas, pássaros, bichos, campos gerais cheios de gado, fazendas Diamantina, Porto Santo, Fé em Deus, Por Enquanto, Araquiçaua, Laranjeiras... entre Ponta de Pedras e Cachoeira o rio era um só como todo conjunto de tuas obras no ciclo extremo-norte.

não havia um só dia em que a literatura oral onde tu fostes beber na fonte, não estivesse posta à mesa em minha velha casa de infância na rua Lauro Sodré, antiga Samuel MacDowell; mamãe relembrava passagens do sogro dela com a esposa dona Margarida e filhos do casal, no Serrame, ora a subir o rio para Ponta de Pedras e outras vezes a descer rumo a Cachoeira: foi numa ocasião dessas que ela conheceu Rodolpho, que veio a ser meu pai e de minhas duas irmãs.

tu eras ensimesmado, dizia ela, que te apelidou "Bico da Cachoeira" pelo hábito de contrair e apontar os beiços quando parecias sisudo. Já o tio Rita (Ritacínio Ramos Pereira) era rei da simpatia e dotado de fértil imaginação que cativava a todos. Meus dois avós eram amigos de muitas datas e consta que entre o capitão Alfredo e minha avó Maroca havia parentesco pelo lado da família Pereira.

até aí tu eras para mim um tio ausente morando no Rio de Janeiro, chamado Dalcídio simplesmente, que como outros eu não conhecia a não ser por ouvir falar em casa ou na casa de avó Sofia (Sophia Tautonila Pereira, na verdade minha tia, sendo tua irmã mais velha e mãe adotiva de meu pai, teu irmão por parte de pai).

então minha querida tia Armentina quase mãe de criação, irmã de minha mãe, chegou em Ponta de Pedras procedente de Belém: trazia ela de presente para mim dentre outras lembranças um catecismo católico cheirando a tinta, editado sob ordens do arcebispo de Belém dom Mario de Miranda Vilas Boas; onde logo na contracapa havia advertência sobre obras impróprias à leitura dos bons católicos.

e lá estava um certo "Dalcídio Jurandir" que a tia explicou era o mesmo filho do capitão Alfredo, devoto de Santa Rita de Cássia a ponto de inventar o nome de seu terceiro filho com dona Margarida, Ritacínio, em homenagem à santa: foi aí que vim a saber a história de meu bisavô Raymundo Pereira, recrutado como "Voluntário da Pátria" para a Guerra do Paraguai donde voltou com uma pequena imagem da mesma, salvo de morrer em combate mas não da tísica que o vitimou; por este fato meu avô como arrimo de família deixou estudo de direito na capital para ir lecionar em Muaná donde foi transferido a Ponta de Pedras, levando com ele aquela imagem paraguaia que, por sua morte, passou a meu pai e por morte deste último passou aos meus cuidados até agora.

o estrondo anticlerical que o romance "Marajó" fez agravou antecedentes de tua carreira pela esquerda do Ver O Peso com a academia do peixe frito, Tó Teixeira, Bruno de Menezes, Rodrigues Pinajé e outros bichos papões que te levou à prisão na horrorosa Cadeia de São José;

meu avô deveras chocado com a infausta notícia que chegou a bordo do "Boateiro" de um marinheiro só chamado João Catumbi, mandou meu pai urgente a Belém a fim de saber ao certo o que tinha acontecido até aquele ponto: Sidraque Pereira, irmão adotivo, era sargento da PM e por acaso foi teu carcereiro no São José; foi ele quem levou notícia a tua casa com a mensagem secreta: "queimem meus livros"...

fico olhando agora a imagem da santa achada na guerra do Paraguai que hoje comigo está na estante junto a meus livros e guardados mais caros e penso: que poderia eu sentir se a polícia varejando motivos para manter-me em prisão por motivos políticos me obrigasse a pedir a alguém para queimar meus livros? 

por que tudo aquilo se passou contigo e Guiomarina entre o ano que eu nasci, 37 e 1939, quando no fim do tempo do cárcere foste à vila de Salvaterra com tua brava esposa salvar tuas memórias para desforra futura daquele tempo de infâmia? filhos do retiro na vila de pescadores nasceram o "Chove" e o "Marinatambalo", publicado este com o conhecido título de "Marajó": foi este último fora da série de Alfredo que, por acaso, me levou a te encontrar...

minha mãe queria que eu fosse ser padre e meu pai preferia fazer de mim um garboso militar do exército, a moça que ajudava em casa, Lucíola; preferia que eu quando crescesse fosse servir à marinha de guerra porque ela achava muito bonita a farda branca... quando me disseram que padre não se casa, eu não quis mais ouvir conversa de ir para o seminário na Cidade, pois em frente a casa de minha avó morava uma menina muito bonitinha, capaz de me tirar da molecagem e sentir certa emoção peculiar à pré-adolescência.

por esse tempo, pela primeira vez, ouvi a perigosa palavra "comunismo"; por sua causa fiquei sabendo que o tio Dalcídio foi bater na prisão; meu avô Alfredo ficou deveras acabrunhado e sem jeito com sua devoção à Santa Rita de Cássia um tanto quando abalada; o tio Sidraque, coitado, correu risco de ser apanhado pelo comando da PM levando recado para a casa a fim de queimar provas que incriminassem o irmão preso no famigerado São José da praça Amazonas; e até a solteirice de tia Lodica tivera por motivo o noivo dela, um certo Tobias; sumir no Rio de Janeiro por causa do tal comunismo.

que diabo era aquele? mamãe não perdeu sono, pois sabia que o cunhado dela Dalcídio era incapaz de "matar uma mosca"; entretanto ela era daquelas católicas fanáticas e ultimamente vinha se comportando de maneira exagerada sobre tudo que dizia respeito a sua sacrossanta igreja apostólica romana, como ela dizia e repetia; aí nasceu minha segunda irmã no ano de 1946 e terá sido talvez um distúrbio nervoso pós-parto, logo na virada para 47, que altas horas subitamente a modesta casa com quintalzão que nem uma floresta na qual meus pais com os seus filhos moravam pobremente, foi invadida de repente por uma legião invisível de anjos e demônios em furiosa guerra entre suas falanges: minha pobre mãe enlouqueceu e eu nunca tinha visto nada parecido nem papai chorar em desespero como um criança abandonada...

a vila de Itaguari era um paraíso que de repente passou a inferno para mim, como num filme terrível vi homens a carregar minha mãe como uma fera para a embarcar à força numa canoa a vela com destino à cidade grande e ao hospício, ela a cantar ensandecida o hino de guerra jesuítica, "Levantai-vos, soldados de Cristo!" e toda vila de Itaguari de pé naquela manhã cedo para ver o que se passava... palavras que eu desconhecia para explicar uma situação que eu não imaginara nem nos meus piores pesadelos.

dias depois da tempestade, dona Isabel, esposa de meu avô Alfredo nos acompanhou em viagem a Belém, a mim e minhas duas irmãs, a menor com apenas seis meses de nascida; para ser entregues aos cuidados da boa tia Armentina, na avenida 16 de Novembro, 369: quando voltei a ver minha mãe ela estava enjaulada no Juliano Moreira como um bicho perigoso, não me reconheceu nem eu a ela.

longos dias de agonia e tormento para toda família; com o tempo e o amor invencível de tia Armentina à sua transtornada irmã a recuperação se fez aos poucos, muito lentamente, a cabo de drogas pesadas e eletrochoque: falaste a palavra Tortura? Imagina... Freud, Freud por onde estavas tu? o psiquiatra doutor Aloísio da Fonseca foi compreensivo para permitir tratamento domiciliar alternativo compartilhado com o médium kardecista Rafael Ferreira Gomes a fazer o milagre necessário, dois grandes homens dialogando entre a crença e a ciência;

minha tia me levava como acompanhante para não sei quantas sessões espíritas em diferentes lugares, o amável senhor Rafael deu-me de presente na União Espírita Paraense um exemplar do "Livro dos Espíritos" e eu li em busca de qualquer explicação para a expulsão do meu jardim do Éden, que havia sido até então o quintal de minha casa na vila de Itaguari...

ah, como eu odiei aqueles "espíritos" covardes! seres das sombras que do mundo invisível atormentavam a pobres sofredores da terra; eu queria por que queria sair na porrada para enfrentá-los e lutar contra os malvados... nunca os vi nem em sonho ou pesadelo; mas sofri demais os seus efeitos com toda minha vida e minha família destroçadas por nada;

se na verdade nunca tive muita fé em coisas ditas sobrenaturais, desde então nada mais restou; meu pai começou então, vendo minha descrença geral, a me chamar de herege e o tio Xandico, marido da Armentina, depois de uma animada discussão na qual eu lhe dizia que, logicamente, milagres não podem existir, simplemente, pelo fato de que se algo acontece uma vez pode acontecer de novo, portanto raro, porém factível; então ele concluiu por conta própria, com horror, que eu poderia ser ateu... Coisa demais a um bom português crente da Virgem de Nazaré.

felizmente o vendaval foi passando e a coisa, dia sim e dia não, fosse lá o que fosse arrefeceu, retornamos a uma vida quase normal: eu voltei a casa de avó Sofia, em Ponta de Pedras, como filho pródigo e alguém que achou asilo, foi ai que na hora religiosa da sesta ela me apareceu com o romance "proibido" no catecismo do arcebispo, "Marajó"; dizendo-me ela assim: "lê, foi teu tio Dalcídio quem escreveu".

li tudo, de fio a pavio, num fôlego só; aquela leitura do "Marajó" foi comparável a um prodígio para mim, clareou-me as ideias e até hoje sou muito honrado em ser teu simples e eterno aprendiz de esperança na humanidade e luta contra as injustiças deste mundo.

não tendo mais tempo na passagem de teu natalício, te mando um abraço aqui da terra e digo até por lá, no tempo do sonho, onde estás com grande parte desta família que se orgulha de ti.

do teu sobrinho José Maria

sábado, 3 de janeiro de 2015

Saudações marajoaras ao Brasil pátria educadora.


o menino e o búfalo (foto Luiz Braga): com carinho para a Presidenta Dilma mostrar a seu neto Gabriel.


Gente Humilde

 Chico Buarque

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Como um desejo de eu viver sem me notar

Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar

São casas simples com cadeiras na calçada
E na fachada escrito em cima que é um lar
Pela varanda, flores tristes e baldias
Como a alegria que não tem onde encostar

E aí me dá uma tristeza no meu peito
Feito um despeito de eu não ter como lutar
E eu que não creio, peço a Deus por minha gente
É gente humilde, que vontade de chorar.


fuga do paraíso

Uma imagem vale por cem discursos. O sonho de cada criança marajoara, que nem Alfredo do romanceiro dalcidiano, é fugir do paraíso ecológico idealizado pelos brancos -- montado sobre o lombo do êxodo rural --, para ir ganhar a vida no purgatório dos subúrbios insalubres e violentos da cidade grande. 

A fotografia, em epígrafe, sem que fosse esta intenção do fotógrafo, empoderada pela Criaturada grande de Dalcídio; transforma-se num símbolo da Amazônia Marajoara que talvez a UNICEF queira mais tarde adotar: uma pequena criança caboca montando grande animal importado da Ásia para os campos do Marajó. 

No momento solene em que a Presidenta da República proclama, dizem que inspirada talvez em Darcy Ribeiro por intermédio de Leonel Brizola; o lema libertador 'Brasil, pátria educadora'; bem que merece, como mensagem de Ano Novo, circular pelo Palácio do Planalto e nos Ministérios para atenciosa leitura federativa da burocracia governamental, terminando finalmente em postal memorável no gabinete do Ministro Cid Gomes, no Ministério da Educação.

Ideia-força do lema valente do segundo mandato presidencial e desafio da educação do século XXI, nos objetivos da ONU pós-2015, no país gigante da América do Sul face à face com a diversidade de suas extremas regiões e o apartheid social entre 200 milhões de cidadãos brasileiros. 

Pelas estatísticas oficiais, os marajoaras ainda não ultrapassamos a cifra de 500 mil habitantes, todavia se forem recenseados os tantos quantos da diáspora, certamente, já somos mais de um milhão. E se o mísero IDH insulano melhorar? Não digo que todos dispersos iriam voltar aos velhos pagos, a exemplo dos irmãos nordestinos expulsos pelas secas estão voltando para o sertão irrigado; mas que muitos outros brasileiros sonhadores do paraíso na terra amariam viver seus dias em qualquer um desses hoje complicados municípios do Marajó com capacidade para duplicar e até triplicar o número de habitantes. 

Para isto, o primeiro passo, no campo da Educação, será a modelagem imediata no MEC, conforme promessa de campanha da Presidenta Dilma; da Universidade Federal do Marajó como uma inovadora instituição federativa multicampi estratégica do desenvolvimento socioambiental ribeirinho. Por que não? Assim o PLANO MARAJÓ como rebocador da emancipação social e econômica desta brava gente brasileira deixaria de ser miragem semelhante ao lendário navio encantado.

Para a marginalizada criaturada grande de Dalcídio, Brasília é muito longe de casa e Belém não conhece de fato nenhuma das mais de duas mil ilhas grandes e pequenas da foz do maior rio do mundo, com as suas 500 e tantas "aldeias" ou comunidades locais situadas em 16 municípios de três microrregiões. 

Eis a extraordinária "ilha" do Marajó! Ilha inespugnável do antigo "homem malvado", vale explicar, que fazia barreira através de guerra de guerrilhas armado de zarabatana e dardos envenenados à invasão do bravo antropófago Tupinambá. Vasto território insular biodiverso e geoculturalmente diferenciado, praticamente do tamanho de Portugal com população comparável a de um país como o vizinho Suriname, na mesma área cultural guianense onde o povo marajoara se encontra há muitas eras antes de Colombo, como a arqueologia marajoara atesta: a maior área de proteção ambiental que deveria existir no planeta, caso o Parágrafo segundo, alínea VI, do Artigo 13 da Constituição do Estado do Pará saísse do papel. Aspirante ao reconhecimento pela UNESCO como reserva da biosfera na rede amazônica, pelo desejo da sociedade civil, desde a I Conferência Nacional de Meio Ambiente, conforme a carta de Muaná de 08/10/2003, pendente ainda de providências finais postergadas pelo governo estadual. 

A famosa ilha do Marajó é vista, externamente, como paraíso ecológico. Porém, no passado distante foi ela verdadeiro inferno para índios marajoaras que lá habitavam, há milhares de anos como prova a Cultura Marajoara e o Museu do Marajó com sua história inacreditável; e mais tarde quilombolas assediados por traficantes estrangeiros e contrabandistas nacionais por uma parte e castigados por outro lado por coloniais escravagistas que se intitulavam donos da região, apoiados por arcos e remos dos inimigos hereditários daquela brava gente, que viam na ilha atávica da amazonidade a mítica terra sem males procurada desde o Sudeste passando pelo Nordeste conquistado.  

Quem ainda sabe destas coisas poderia colaborar na recuperação da memória de pessoas do lugar, através da Universidade Aberta à Terceira Idade, integrada a todo o sistema educativo, cultural e ambiental como nós queremos na UNIVERSIDADE DA MARÉ E ACADEMIA DO PEIXE FRITO; mas este programa federal de extensão na rede universitária; entregue a jovens preocupados com o envelhecimento físico da população, não tem muito tempo de escuta dos mais velhos mestres das comunidades; capazes de evitar o último suspiro da memória das regiões, atacadas pelo Alzheimer da ecocultura tradicional. Nem mesmo Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Mário Palmério, Jorge Amado, Graciliano Ramos, o nosso 'índio sutil' Dalcídio Jurandir e tantos mais, que formam o mapa literário da civilização brasileira; não estão ao alcance do povo pelo motivo de que o povo carente de letras e de poder aquisitivo não lê. Apenas vê tevê, quase sempre, da pior qualidade educativa.

Considero-me um caboco de sorte. Poucos de minha geração em Itaguari (Ponta de Pedras, observem que este nome é tradução em português daquele topônimo em língua-geral) puderam escapar de um destino cruel na apartada ilha de nossos avós e nós os privilegiados daquela época tivemos em comum o fato de ter sido bem alfabetizados na escola pública nascida da revolução nacional brasileira de 1930.

Gosto de ouvir Chico Buarque na canção Gente Humilde e ainda me emociono com seus versos: "E eu que  não creio, peço a Deus por minha gente / É gente humilde, que vontade de chorar". Chorei até sentir dó de mim, alguma vez, como diz o compositor no dilacerante drama do artista em Bastidores.Por isto não me canso de escrever a todos e a ninguém.

UM ESCRITOR NO PURGATÓRIO


Em 1976, a revista Escrita publicou a entrevista,
aqui reproduzida, feita por Antônio Torres, Haroldo
Maranhão e Pedro Galvão, com Dalcídio Jurandir,
nascido em 1909 em Ponta de Pedras, Pará, que
estava doente. Jurandir morreria três anos depois,
deixando uma obra da maior importância,
que inclui, entre outros livros, "Três Casas e um Rio",
"Belém do Grão Pará" e "Linha do Parque". Em
1972 a Academia Brasileira de Letras lhe concedeu o
Prêmio Machado de Assis, entregue por Jorge Amado.


A poucos anos antes de morrer, Dalcídio Jurandir concedeu entrevista que resume as agruras da gente do Norte brasileiro para desfrutar de lugar ao sol [http://escritablog.blogspot.com.br/2012/11/para-lembrar-dalcidio-jurandir.html]. A respeito dos antecedentes de nossa luta interessados podem acessar, neste mesmo blogue, o post 
http://gentemarajoara.blogspot.com.br/2014/12/gdm-20-anos-pregar-aos-peixes-e-remar.html  

em 2007 Lula veio a Breves lançar o PLANO MARAJÓ: falta Dilma vir inaugurar a Universidade Federal do Marajó.

Com a experiência de tentativas e erros acumulados nestes últimos 12 anos de "vacas gordas", exatamente quando o Brasil aperta o cinto e assume a perspectiva realística de ter que vir a enfrentar fortes maresias e ressacas em tempos de "vacas magras'; o pobre e desconhecido Marajó velho de guerra pode desencantar e espantar para sempre o triste fado da colonialidade pela educação libertadora, agora. 

Com vontade política decidida de sua gente e a competência de seus representantes, Marajó poderá sim passar de filho enjeitado da Pátria educadora para servir de referência aos seus homólogos, dentre 120 Territórios da Cidadania, sob batuta do Ministro Patrus Ananias. Ou seja, mais de mil dos mais pobres municípios brasileiros.

Que é que Brasília e o restante do Brasil sabe, por exemplo, das pazes de Mapuá, em 27 de agosto de 1659, dando termo a 44 anos de guerra de conquista do rio Amazonas desde a tomada de São Luís do Maranhão? Como ex-prefeito de Sobral e governador do Ceará, Cid Gomes; talvez conheça a história do aventureiro Martim Soares Moreno que foi romanceada por José de Alencar. Mesmo assim vale a pena relembrar do pacto de Jaguaribe que mudou a história do Brasil tordesilhano com a conquista do Maranhão e Grão-Pará: invenção da Amazônia portuguesa, que não poderia ser sem a pacificação do Marajó.

Brasil aos 400 anos de Belém do Pará precisa saber: sem as pazes de Mapuá, provavelmente, o Pará teria sido uma grande Guiana holandesa... A Ministra Izabella Teixeira já esteve na Resex Terra Grande - Pracuúba, no Marajó; e teria declarado que agora é a hora e a vez das unidades de conservação integral. Nós pederíamos concordar, com reservas (vale o trocadilho...) se as RDS's e RESEX fossem um brinco. 

A Reserva da Biosfera Marajó-Amazônia com, pelo menos, três áreas-núcleos de proteção integral e um sítio da convenção Ramsar no intermédio de ecossistema de Campos e Floresta seria um grande laboratório em cooperação internacional, penso fundamentalmente na OTCA; todavia com protagonismo da nova universidade federal da mesorregião. Dilma prometeu, que venha a Breves ao mais breve possível e não falte de visitar a Resex Mapuá para o que Izabella deve mandar o ICMBio preparar heliporto e parceria com os ministérios da Educação, Cultura e de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Não digam não, pelo amor da Criaturada.
 




quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Rio Canal: memória da ilha da Ponta.


 
minha senhora dona Palmira de Nazaré, companheira de fé e de muitas jornadas, e o caboco que vos fala curtindo o Natal de 2014 com a família em Belém do Pará, aldeia Marambaia. [*]





obra da necessidade com o acaso

Neste blogue, no post anterior, contei a estúrdia história do meu primeiro natal, ocorrido por acaso na vila de Itaguari [Ponta de Pedras], e ao comentar amigos levaram a conversa para as bandas do Rio Canal, interior do município de Ponta de Pedras. A construção do canal do Ourém a braços de escravos, pelos idos dos anos 70 do século XIX; criou uma ilha a mais no arquipélago do Marajó e encurtou o tempo de viagem fluvial, por dentro, entre a vila de Cachoeira, na margem esquerda do rio Arari, e a nova vila de Ponta de Pedras, na margem esquerda do rio Marajó-Açu, sede do recém criado município, em 30/04/1878, desmembrado do primeiro.

Até então, as viagens entre as duas vilas irmãs costeando a baía em canoa à vela, ditas por fora; eram difíceis e perigosas. Enquanto por dentro, em canoas a remo, demoravam muito mais atravessando paragens ermas e desabrigadas em meandros de corrente vagarosa tomada pela vegetação, quase já nos campos baixos alagados da ilha grande. Masporém, aquela providencial passagem nova criada pela geografia humana, a custo de suor de escravos e lágrimas por suposto devido a algumas mortes acidentais da escavação braçal das terras cortadas pelo canal; deu uma ilha sem nome: tanto que poderia ter sido chamada com propriedade ilha do Canal, ilha de Ponta de Pedras ou quiçá ilha da Ponta. Por referência ao lugar chamado deste último nome, sito à confluência do rio da Fábrica com o furo das Laranjeiras, entre as ilhas de Santana e da dita ilha nova de que ora estamos falando, na antiga Costa-Fronteira do Pará, beira da baia do Marajó.  

Fato histórico e geográfico a toda prova, mas que ainda não teve o merecido destaque, sobretudo no que concerne ao ecoturismo de base na comunidade na doravante Costa do Sol onde o Marajó começa tendo por referência a antiga aldeia indígena que deu origem ao município de Ponta de Pedras e atual vila de Mangabeira, florão da primeira sesmaria dos Jesuítas no Marajó (1686), de um lado. E, por outra parte, também a primeira sesmaria e engenho dos Mercedários (1696), em Santana e Tartarugeiro, ambas banhadas pelo antigo Igarapé Puca e hoje rio da Fábrica supracitado.

No Canal e Curral Panema estão minhas raízes marajoaras e um haver de recordações das tantas e quantas vezes, em priscas datas, passei naquelas paragens a bordo de canoa a remo, igarité motorizada, barco motor ou lancha voadeira. Fui passageiro, às vezes, da lancha vapor Santa Maria da prefeitura, pilotada pelo senhor Raimundo Teixeira e noutras ocasiões remei solitário em montaria ou no meu casquinho maneiro feito de um tronco de piquiá, que minha mãe me deu de presente comprado ao afilhado dela Satuca Moraes, filho da Bita e do Anísio Aires, rapaz trabalhador que andava embarcado numa geleira na Contra-Costa. 

Pelo caminho do Ourém também andei a pé e fui a cavalo rumo a Arapiranga e Oriente, que era fazenda central e na verdade ficava a ocidente. Para oriente, propriamente dito, pelos lados do Curral Panema também andei em boa caminhada até Cachoeirinha, a comprar farinha em companhia de seu Ciro Moraes, já às ilhargas da beira da baía. Há uma geografia secreta nessas duas mil e tantas ilhas grandes e pequenas da Amazônia Marajoara, delta-estuário do Pará-Amazonas, onde muitas gerações de índios, pretos e brancos entrelaçaram suas vidas e mortes num rosário de acontecimentos felizes e outros nem tanto.

 antes carecia uma volta enorme através do Moirim e Arapiranga para ir do Arari ao Marajó-Açu: antiga via de índios e mocambos. 

Antigamente, pelo Ourém quem vinha por terra desde a beira da baía podia passar de pé enxuto aos campos gerais do Marajó. Claro que levaria dias e dias de caminhada. Caso houvesse cavalo poderia ir até ao Lavrado, entre Muaná, Cachoeira, Anajás e Santa Cruz. Para ir por fora, costeando a baía, só se fosse pescador acostumado à maresia ou embarcado em igarité grande ou barco à vela afeito ao banzeiro. Naquele tempo para ir pelo rio de Ponta de Pedras a Cachoeira carecia fazer rancho, contratar bons remadores, alugar montaria grande, armar panacarica e pernoitar no meio do caminho em casa de conhecidos, fosse no Serrame, Fé em Deus ou no Araquiçaua conforme o tempo da maré. 

Terá sido talvez ao tempo do Barão do Marajó, José Coelho da Gama e Abreu; no governo da província do Pará (ano de 1879 até 29/03/1881) que foi escavado o tal canal que virou rio. Por que eu penso desta maneira? Na conhecida obra "As regiões amazônicas" o Barão deixa claro seu interesse pela abertura de canais artificiais na ilha do Marajó a fim de melhorar a indústria pecuária. Fala ele no canal das Tartarugas e do Mocoões como coisa para o futuro, mas nada sobre Ourém. Certamente ele conhecia a história da construção do canal de Igarapé Miri que, em 1821, reabriu o Furo Velho que estava impraticável à navegação e poderia com esta experiência autorizar tentativa para tentar fazer coisa parecida a fim de encurtar o longo percurso fluvial entre as vilas da Cachoeira e de Ponta de Pedras.  

Mas, não estou dizendo que foi o Barão de Marajó quem de fato mandou fazer o canal do Ourém, apenas aventando uma hipótese. Sem máquina de dragagem confiados tão-só em pás, enxadas e alvião para trabalho braçal escravo o fatal acidente do canal de Igarapé Miri acabou se repetindo na tragédia de Terras Caídas com seus mortos soterrados debaixo de camadas de barro e lama que desabaram dos taludes na obra temerária. A criação do município, em 1878, terá sido incentivo para pedir autorização e recursos ao governo da província na obra que não poderia ser executada com trabalho escravo depois de 1888. Enxergo, então, na década de 1878 a 1888 a construção do Canal em tela.

O terreno que deu lugar ao canal era um lombo de terra amarelada, latossolo, cujos vestígios geológicos ainda se podem ver nos barrancos erodidos no sítio Meia Noite e no Serrame cuja erosão nunca termina a escavação, ano após ano. Como se por acaso fantasmas dos escravos mortos e soterrados de Terras Caídas não terminassem o canal e mudança da correnteza que se formou desde que as águas do Marajó-Açu e do Arari se confundiram com a baía adentro pelo entorno da nova ilha. 

Consta que antepassados do casal Amâncio e Rosa Costa receberam as terras de Enseadinha em recompensa pelos trabalhos de escavação do canal, talvez por parentes morto, lágrimas de dor e o suor derramados tenham eles recebido também carta de alforria até, finalmente, com a Abolição de 1888 ver todas famílias afrodescendentes livres para sempre. Quem sabe?

O canal dividiu o antigo sítio Ourém em duas bandas fronteiriças: do lado direito em direção ao Curral Panena, ficava o sítio do sumano Zecão (José Maria do Livramento), dono da igarité "Nossa Senhora de Fátima" (apelidada "Jiboia", muito bojuda, por erro de construção) chamava-se Ourém. Ele foi para mim como meu irmão mais velho: acho que seus antepassados podem ter vindos do arquipélago dos Bijogós, na Guiné-Bissau, que eram negros muito valorizados pelo vigor físico e estatura, servindo a seus senhores escravagistas e feitores como capangas e reprodutores para melhoria do plantel de cativos: estas não são coisas fáceis de dizer, mas a verdade é o primeiro passo para a justiça e a paz. 

A história não é para os mortos, mas para os vivos das presente e futuras gerações... O mesmo nome Ourém ficou para o sítio do lado esquerdo do Canal, onde seu Dário Cabral Noronha teve casa de comércio, porto da igarité "Fé em Deus" e umas poucas cabeças de gado. Tempos depois, Francisco Rodrigues, filho de João Rodrigues, que foi morador do Serrame adquiriu a dita canoa dos herdeiros de Dário Noronha. 

Na peculiar sociologia marajoara, morador é categoria de trabalhador sem terra que faz barraca (palafita) em terreno alheio com consentimento do dono legítimo ou tido como tal; mediante pagamento costumeiro de "meia" em espécie. Ou seja, se o terreno for várzea de açaizal, por exemplo, metade da colheita fica com o "dono" e este ainda tem preferência de compra da parte do morador a ser paga de acordo com o "apurado": resultado do preço da feira. Resulta na prática num subsídio imposto pela servidão da gleba ao morador em benefício do patrão que acumula, em geral, papel de fornecedor de mercadorias de primeira necessidade num regime latifundiário de superexploração da terra e da mão-de-obra. Por longos anos, terras da União foram exploradas por supostos donos através de "moradores", recentemente reconhecidos como usuários de terras de marinha isentos de quaisquer pagamentos. A extração de açaí, por exemplo, gera conflito entre supostos donos dos sítios e antigos moradores. Uma situação que está a mudar por uma parte, e por outra trás novas ameaças jurídicas à permanência da "Criaturada grande de Dalcídio" (populações tradicionais ribeirinhas) em seu habitat nativo.


sem jamais parar a cobra grande faz dragagem do Rio Canal

No infinito trabalho do Canal, tal qual a cobra grande Boiúna a dragar o rio Arari na galante teoria do índio arariuara a que o sábio de Coimbra se refere na "Notícia Histórica"; as margens novas da Ilha da Ponta acrescidas de aluvião avançam continuamente sobre a beira alta de terreno antigo da ilha grande, comida pelas bordas, que recua no espaço aberto pela erosão sem fim. É bonito ver e compreender o moto-contínuo de destruição e reconstrução das águas na lição hidrológica de José Ferreira Teixeira: universidade da maré no delta do maior rio do mundo, vida e morte do maior arquipélago fluviomarinho do planeta.

De tal modo, que o velho trapiche do Serrame aluído pelos invernos chuvosos e as marés vivas, o estaleiro arruinado, casa grande tuíra pelo ostracismo, comércio falido, o laranjal fanado, cacoalzinho triste plantado dentro da paliçada que defendia o orgulho do casarão como uma muralha; currais desertos, campos cerrados, bacurizeiros, tudinho engolido pelo rio... 

Meu finado avô Chico Varela com seu bigodão ruço de tabaco e café, olhos azuis de safira; a bronquite crônica e a viuvez fechada, a hérnia escrotal mitigada pela funda; sua rede larga na varanda entre vastas sestas e sonhos grandes, surdo às novidades da cidade e mergulhado em leituras de jornais retrasados da Galiza distante para sempre até morrer no exílio, em retiro no Curral Panema. 

Na cômoda de cedro vermelho com tampo de mármore branco, arca das vacas gordas; a gaveta de alarme com dicionário galego-português surrado e o cofre vazio dos lendários 50 contos de réis, fechamento de conta-corrente na casa aviadora de Antônio Silva, na Marquês de Pombal, aviso final da quebra da Borracha (última vez que o velho pisou em terra firme). 

O gramophone quebrado servia de viveiro aos sapos que ele criava para controlar formigueiros do coqueiral; o grande candelabro de porcelana leitosa lembrava o tempo perdido, relógio de carrilhão parado. O barco dos sonhos não viajou jamais, o San Thiago; naufragou com a morte de minha avó Maroca. Só a igarité Araci com o preto Amâncio de alma branca, chegando do Ver O Peso com os jornais de sempre e lenço encarnado ao pescoço anunciando a revolução de 1930 às margens plácidas do Curral Panema. Onde todavia a Lei Áurea de 1888 tardava e como, paresque, tarda ainda hoje... Apesar da igarité com a maré da noite e debaixo de ventania, ao sair da boca do rio Fábrica para fora, ter cruzado por acaso com o navio encantado e escapar, por um triz, de ser abalroado pelo paquete iluminado com música, festa, risadas e conversas da belle époque da Borracha a bordo.

O Puxador, onde a maré se divide no Canal

Tudo, tudo em ruína. Mas, apesar de não se mergulhar duas vezes no mesmo rio, o rio do tempo não devora minhas recordações de menino currupio a correr pelo pasto do Serrame seguido do fiel Tigre e dos gritos severos de mamãe. Enquanto houve bom tempo fui herdeiro de um pequeno paraíso em decadência, mas feliz e meu pai caboco me sagrou cavaleiro andante da Boicana na demanda do santo açaí com camarão do Bacurituba: ele Quixote da coleção de revista Chácaras e Quintais e eu seu Sancho Pança a ambicionar a ilha Barataria... A malária, às vezes, dava azo a visões estranhas com batalhas épicas na casa dos quarenta graus de febre contra moinhos de vento e reinos de cupim que brilhavam na borda do campo, à meia noite, numa estranha iluminação que minha comadre Didi acreditava ser a luz dos encantados. Cadê que eu tinha coragem de desdizer tamanhas sabedorias? Besta era quem destruía fé alheia e a natureza de todos.

Um belo dia, havia eu pouca idade, chegaram de Belém em igarité à vela em Ponta de Pedras, tia Armentina, Osmarina e Lila para saber se era verdade que meu avô Varela estaria doente no Serrame. Meus pais não sabiam, então foi decidido que as três iriam subir o rio para visitar o velho que não viam a par de tempo... Eu fiz berreiro para acompanhar a excursão e acabei vencendo a parada, aos cuidados da tia. Papai foi contratar seu Papa Osso para fazer a viagem em montaria com mais dois remadores. Era costume viajar a noite para fugir ao sol escaldante numa viagem que, dependendo da maré, gastava seis ou oito horas: quando eu embarquei na aventura, saindo da ponte da Casa da Beira foi como mergulhar de cabeça num formidável mural de nanquim. Cada árvore da beira do rio era um castelo de sombras que a imaginação fazia maior. 

Foi aí que despencou o dilúvio da lenda da primeira noite do mundo e não era só imaginação. Papa Osso no jacumã fechado como uma porta e os dois remadores calados se pegavam aos remos como se a chuva e a noite grande fossem castigos antigos daqueles buscadores do caroço de tucumã mágico, que a cobra grande deu de presente à filha dela que ia se casar. Lila e Osmarina nem um pio. Só o conforto do colo quente de tia Armentina me salvava naquela canoa engolida pela noite e a chuvarada. Mamãe dissera a tia, quando chegar no Ourém pede ajuda ao José... José do Ourém era descendente de antigos escravos de meu bisavô, cuja lenda de bom amo, fazia-nos crer que tudo aquilo era um conto de fadas onde pretos, brancos e pardos viviam com irmãos.  Ledo engano! Custou-me muito saber dos males da civilização ocidental-cristã e que a parte escura da família branca era que mais pegava no pesado e mais sofria injustiças e necessidades.

Chegando ao Puxador a maré vazou, bem calculada a passagem, seu Papa Osso era o cara. A correnteza ligeira rio acima nos levara ao Puxador e agora na vazante em continuação da viagem começava a puxar mais rápida para baixo, ao contorno da ilha nova formada pelo Canal... Ali o famoso Puxador quem errasse a maré ia se ver com correnteza pela proa. Se calhasse do vento soprar contra também era o diabo... A força da vazante abria redemoinhos perigosos que o piloto procurava evitar com certo esforço, já no Ourém havia um remanso e a chuva, por encanto, passou. 

Madrugada fria e úmida nem um galo no poleiro se atrevia a abrir um olho e cantar para acordar o sol, eu tremia de frio feito vara verde insistindo com a tia para chamar o pobre José a deixar a rede para vir remar de graça naquela desnorteada canoa. Era assim que a gente pensava que Deus fez o mundo para nosso regalo... Quando a inocência faz mal, mas felizmente José não ouviu coisa nenhuma ou se ouviu meus rogos infantis fez ouvido de mercador. Em compensação, quanto o dia clareou estávamos no Serrame, onde o velho Varela são e forte deu risadas de tonta preocupação.

O Canal divide e separa marés do rio Marajó-Açu através do Puxador e a cabeceira do rio Carapanaoca (depois Rio do Canal) comunicando o Curral Panema ao Rio Fábrica, que desagua na baía do Marajó e ao Furo das Laranjeiras, contornando a ilha de Santana antes de confluir com o Arari.  Tudo aquilo, me parecia, antes da abertura do canal era chamado pelos antigos, Igarapé Puca, que quer dizer igarapé comprido até então despovoado e caminho de índios bravios Aruãs vindos da Contra-Costa pelo lago Arari para incursionar até as ilhargas de Belém através do Carnapijó.


Então, me prometi a aprender e contar o que eu porventura aprendesse a respeito do canal que virou rio. Assunto também de curiosidade de outros interessados em preservar a memória das igarités e antiga navegação de "goiabas", comerciantes fluviais de Ponta de Pedras praticando escambo no rio e lago Arari geralmente em montarias (canoas a remo). 

O falar marajoara guarda reminiscências da antiga geografia humana da região das ilhas do delta-estuário do grande rio Pará-Amazonas. Celeiro de "gados do rio" (peixe-boi, tartarugas e pirarucu), naturalmente o índio e depois seus descendentes em suas necessidades de comunicação com o colonizador traduziu seu modo de vida ao mundo em transformação pela dominação dos brancos. A canuá indígena virou canot em francês e canoa em espanhol e português: se o caboco falar 'canua' ou não dizer 'caboclo', está errado... Portanto, quem vai aos 'gados do rio' por necessário irá montado no cavalo da água a que chamamos, lindamente, 'montaria'. 

Era assim que a gente trabucava levando mercadorias a troco de peixe seco e salgado, jacaré, muçuã, marreca, capivara e tudo mais a cabo dos antigos gados do rio, no comércio entre Ponta de Pedras e o Arari distante, tinha necessariamente que cruzar o "Canal do Ourém", depois, Canal e finalmente Rio Canal. Há muito tempo, vivi naquelas paragens e minhas raízes familiares com minha mulher se misturam àquelas águas remansosas, que confluem entre as bacias do Arari e do Marajó-Açu. Meus amigos sabem que tenho a mania da história e agudo interesse da geografia do vasto mundo. A saber quem nós somos, donde viemos e aonde estamos indo agora.

Contemplados

O primeiro Domingos Pereira de Moraes foi contemplado pelo Marquês de Pombal em reconhecimento a serviços prestados à coroa de Portugal com a fazenda São Francisco, conforme se lê na relação de Contemplados (cf. Alexandre Rodrigues Ferreira, "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó", 1783), que foi da primeira sesmaria dos padres da Companhia de Jesus: esta fazenda hoje é a Malato e a sesmaria (1686) deu origem, primeiramente, à 'Aldeia das Mangabeiras', depois freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Ponta de Pedras (1737); Lugar de Ponta de Pedras (1758) e município de Ponta de Pedras (1878). 

O segundo Domingos Pereira de Moraes em nossa árvore genealógica aparece na história paraense como diretor da Santa Casa de Misericórdia do Pará, pelos meados do século XIX. O terceiro Domingos Pereira de Moraes, avô de minha mulher e primo em primeiro grau de minha mãe. Era filho de minha tia avó Emília de Castro Moraes e de João Pereira de Moraes, dono do sítio "Taberebá" (hoje Boa Vista, que foi casa de comércio de Teodolino Cabral Noronha), no rio Curral Panema.  Segundo ouvi de dona Branca Moraes, esposa de Ciro Moraes, o nome "Curral Panema" de deve à maldição lançada por um frade que, há muito tempo, pelejava para criar gado no lugar e indo embora lançou aquela praga, dizendo ele num momento de fúria: "fica-te aí curral panema!". 

O certo é que ao tempo que morei naquelas bandas, pela margem direita do rio não criavam gado, que só havia e mesmo assim umas poucas cabeças de  boi punga (cabo-verdiano) pela margem esquerda. A história verdadeira é que, no ano de 1760, os Jesuítas foram expulsos do Pará e seus bens acabaram expropriados pela Coroa portuguesa, o mesmo para os frades das Mercês e do Carmo depois, donde na versão popular aquela lenda. O povoamento do Curral Panema foi feito com casais dos Açores, que ainda hoje tem descendentes dentre os quais de família Aires e Moraes, parentes dos Martins e Mendes entre outros. Quem mais sabia dessas coisas era o primo de minha mãe e meu em segundo grau, o finado Altamiro Martins.

Com o Canal interligando o Marajó-Açu ao Arari, naquela ilha nova ficou que nem jangada de terra onde se sustentam a cidade de Ponta de Pedras, vila da Mangabeira e povoados de Praia Grande, Vila Nova, Cajueiro, Cachoeirinha, Vilar (que foi lugar de aldeia dos índios Guaianá, nativos do Marajó); Antônio Vieira e Jaguarajó. 

O naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira não falou do "Rio Canal" por que o que havia era o Igarapé Puca depois rio da Fábrica chamado e não varava rio acima para o Marajó-Guassu, como era a grafia antiga... E José Ferreira Teixeira, em "O Arquipélago do Marajó" (1953) diz que a antiga ligação entre os ditos Marajó-Açu e Arari era feita através de uma longa volta, passando pelo igarapé do Arapiranga até as cabeceiras do igarapé Moirim, já pela margem direita do Arari acima da ilha de Santana e boca do Furo das Laranjeiras. 

A vegetação palustre, pouco a pouco, tapava a velha passagem do tempo dos índios. Por causa desta inconveniência, as autoridades da época deliberaram abrir um canal através do lombo de terra que existia, entre as bocas do igarapé do Deserto e do Inajazal, pelo lado do Marajó-Açu. Pela parte do Curral Panema, o rio Carapanaóca que afinal passou a ser o chamado "Rio do Canal" ou, simplesmente, "Rio Canal" de nossos dias. 

um velho sonho marajoara


Eu tenho um sonho: me hospedar um dia, comodamente, em companhia de minha senhora dona Palmira de Nazaré em linda fazenda-hotel comunitária, casando tradicionalidade e modernidade; em lá chegando a bordo de hidroavião, antes de eu morrer (se é que morrerei posto acreditar que irei me encantar de volta ao infinito entre caruanas da avifauna do Marajó) para ver o sol nascer de novo no velho e maternal lago Arari ancestral, ninhal de "mães" da natureza (que nem Maiandeua, na costa do Salgado).

Para isto tenho pressa em ver o bioma fluviomarinho do arquipélago do Marajó reconhecido como uma das mais interessantes reservas da biosfera da rede amazônica. Acredito no diálogo entre homens e natureza: daí que me dói o descaso das três esferas de governo e da sociedade brasileira com respeito ao Museu do Marajó criado por Giovanni Gallo, noves fora os voluntários e amigos que lutam para o sonho do padre insubmisso não acabar.

O titubeante Plano de Desenvolvimento Territorial do Arquipélago do Marajó (PLANO MARAJÓ) deveria deixar de lado o discurso técnico-burocrático para assumir algo mais concreto como uma agência de cooperação para o desenvolvimento socioambiental participativo, onde a criação da Universidade Federal do Marajó, desde já, passe a ser a ideia-força de realização do sonho de muitas gerações desta região insular desde o passado pré-colonial.


Como dizem meus parentes, o futuro a Deus pertence. Todavia, Deus criou o homem para dormir e sonhar a Terra sem males... Assim o sonho pode inventar o parto da primeira manhã de um mundo futuro menos duro e desigual.



[*] NOTA AUTOBIOGRÁFICA

Meu nome completo é José Maria Varella Pereira, filho de Rodolpho Antonio Pereira e de Othilia Varella Pereira, casado com Palmira de Nazaré Moraes Pereira (foto acima), filha de Emílio Fernando de Carvalho Moraes e Maria das Dores Nascimento Moraes; minha prima em terceiro grau. O casal tem uma filha e três filhos, os quais já nos deram cinco netas. Eu e minha mulher nascemos numa família marajoara que teve origem em Portugal, vinda provavelmente das ilhas dos Açores com casais (famílias) de colonos a partir do sargento-mor (major) da força militar portuguesa Domingos Pereira de Moraes, que acompanhou o capitão-general e governador do estado do Grão-Pará e Maranhão, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, no ano de 1751. 

Ao longo de quatro gerações, pelo menos, o nome atávico Domingos Pereira de Moraes repetiu-se em quatro pessoas de nossa família, segundo costume familiar em dar, geralmente, nomes de avós aos netos como modo de lembrar nossa história. Fato que sugere antiga devoção a São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) notável na propagação do catolicismo nas Américas: mais curioso ainda quando se sabe que os Pereira foram originalmente judeus e Moraes ou Morales, mouros do Marrocos; convertidos ao cristianismo na Península Ibérica, no complexo fenômeno ibérico denominado "cristão-novo" em Portugal e "marrano" (porco, infiel) na Espanha. 

No Brasil nomes cristãos-novos Pereira e Moraes, variação Morais; se propagaram a descendentes indígenas e afrodescendentes através do batismo católico, quanto estes receberam nome de família dos padrinhos. Desta maneira, o catolicismo se tornou mais que uma religião para assumir uma cultura colonial no início e, enfim, civilização transcontinental dialeticamente formada no complexo processo de dominação e resistência entre povos conquistadores e conquistados, que acabam por se mestiçar trocando genes e costumes entre si.

Somos, portanto, pequeninos grãos "dotados de razão e consciência" -- como reza o preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos --, num vasto mundo disperso pela diversidade de diferentes tempos e lugares. Por parte de mãe assumi o nome Varella, grafado com dois "ll" no cartório de registro civil de Raimundo Malato, em Ponta de Pedras. Mas, na origem em Espanha, se escrevia Varela, no berço celtíbero donde parece foi vertido ao sermo vulgaris (latim popular da região ibérica) no sentido de "varinha". Ou seja, a temida vareta mágica da antiga religião pagã dos magos Celtas que terminou por mandar muitos bruxos e bruxas à fogueira da Inquisição. Não se pense que a cristianização da Ibéria foi menos violenta que a evangelização da América...

Na história oral de minha família, a primeira pessoa que adotou nome Varela foi minha bisavó Micaela Varela Rincón, da região das Astúrias; que se casou com o marrano (judeu cristianizado) Pero Rincón Pérez, natural de Sotomaior, província de Pontevedra, na Galiza, fronteira com Portugal. As guerras entre reis da península mataram meu bisavô, o tio avô José e outro que não me lembro o nome. Então, Micaela mulher asturiana de sangue quente; disse que o mais moço de seus filhos  -- Celestino Pérez Varela, aliás Francisco --  não serviria de bucha de canhão a ninguém mais... Foi assim que ele, quase desertor, por volta de 18 anos de idade chegou ao Marajó com carta de recomendação a seu primo, Pedro Pérez de Castro, dono do sítio Fé em Deus, no Baixo Arari, e se casou com sua prima Maria Joana Castro Varela: foram eles meus avós maternos, começando a vida numa sorte de terra desabitada, chamada Serrame, no rio Carapanoca, mais tarde Rio do Canal.  Ajudado por ex-escravos de meu bisavô meus avós levantaram casa no Serrame e prosperam até que com o colapso da borracha e morte de minha avó Maroca o sítio entrou em decadência.

Enquanto foram remediados o Serrame foi um sítio notável frequentado pelos mais ricos fazendeiros que passavam, inclusive meu outro avô, Alfredo Nascimento Pereira, que tinha filhos do primeiro casamento em Ponta de Pedras como minha avó indígena, Antônia Silva (Sophia Tautonila, Raimundo, Laudelina Diva, Otaviano Celso e Rodolpho Antônio, que foi meu pai). Depois de enviuvar meu avô Alfredo foi morar com sua segunda mulher, dona Margarida Ramos, em Cachoeira e os filhos desta (Flaviano, Dalcídio José, Ritacínio, Lindinha e Alfredina). Uma segunda viuvez levou meu avô a se casar com dona Isabel Trindade, com quem teve meus tios e tias Anaspito, Mimi, Vivi e Adeflorindo Belasi Pereira.

Quando acabou, em 1840, a guerra-civil do Pará conhecida como Cabanagem, o Marajó é outras regiões estavam devastadas. Quarenta por cento da população de 100 mil almas havia perecido e a criação de gado praticamente estava inviabilizada com uns índios libertos já sem passado nem futuro, vítimas da "liberdade" do Diretório dos Índios (1757-1798); e poucos negros escravos. Foi aí que o governo da província do Pará mandou buscar imigrantes do norte de Portugal e da Galiza (Espanha), que são regiões fronteiriças e viviam crise econômica profunda com emigração em massa, para recomeçar a pecuária. Desde então, aparecem nomes de família tais como Pamplona, Gaia, Beltrão, Fontes, Boulhosa, Lobato...   .

O segundo Domingos Pereira de Moraes em nossa árvore genealógica aparece na história paraense como diretor da Santa Casa de Misericórdia do Pará, pelos meados do século XIX. O terceiro Domingos Pereira de Moraes, avô de minha mulher e primo em primeiro grau de minha mãe. Quando criança foi dado como tuberculoso e assim foi levado ao Serrame, onde minha avó Maroca e sua tia materna com ajuda de minha tia avó Sinhá, que recebia visitação do espírito de um tio padre e mago da Galiza, chamado Baltazar; deram tratamento com remédios de tias pretas Bonifácia, Fábia e outras mais onde uma rica dieta de turu... 

Domingos era filho de minha tia avó Emília de Castro Moraes e de João Pereira de Moraes, que foi dono do sítio "Taberebá" (hoje Boa Vista, que foi casa de comércio de Teodolino Cabral Noronha), no rio Curral Panema. Filho deste João Pereira de Moraes, meu tio Zito (de mesmo nome) marido de tia Maria do Pilar Varella Moraes, dizia ter visto a Yara (mãe d'água) num igarapé: era assim, aquele tempo e lugar, onde se misturavam sem grande contradição milagres de santos católicos e encantados indígenas e africanos. Vicente Moraes escapou de morrer nos dentes de um jacaré-açu para se tornar rezador de ladainha e contador de estórias, enquanto descansava da guerra que ele movia contra toda espécie de jacarés... Foi de Ciro Moraes que ouvi a versão tropical de Sherazade numa noite encantada do Curral Panema. Segundo ouvi de dona Branca Moraes, esposa de Ciro, o nome "Curral Panema" se deve à maldição lançada por um frade que, há muito tempo, pelejava para criar gado no lugar e indo embora lançou aquela praga, dizendo: "fica-te aí curral panema!". O certo é que ao tempo que morei naquelas bandas, pela margem direita do rio não criavam gado, que só havia e mesmo assim umas poucas cabeças de  boi punga (cabo-verdiano) pela margem esquerda.

Teodolino era dono da igarité "Mirasselva" e comprou o sítio Serrame, dos herdeiros de meu avô galego Francisco Pérez Varela; sito no Rio Canal (outrora Carapanaoca); seu irmão Dário Cabral Noronha foi dono do sítio Ourém e da igarité "Fé em Deus". Outro irmão do senhor Teodolino, João Cabral Noronha (Janja) foi prefeito de Ponta de Pedras, pelo extinto Partido Social Democrático (PSD) nos anos 50. Janja casou-se com Semíramis de Moraes Noronha, filha de Antônio Pereira de Moraes, primeiro presidente da Câmara de Vereadores de Ponta de Pedras, que assinou a ata de instalação da nova Vila (município), juntamente com seu irmão João Pereira de Moraes, eleito para a mesma Câmara, e dono do sítio "Taperebá", no Rio Curral Panema como já vimos. Os irmãos Domingos, Zito, Vijoca e Lili eram primos de Semirames, Boanerges, Tonho (Antônio) e Aspásia. Todos descendentes do primeiro Domingos Pereira de Moraes, contemplado da fazenda São Francisco.

O quarto Domingos, foi irmão mais velho de minha mulher, Domingos Pereira de Moraes Neto; com o falecimento de meus sogros viveu em nossa casa até a idade de 58 anos, vitimado por meningite em terra infância sempre foi como uma criança. 


 
Rodolpho Antonio Pereira, meu pai; minha avó Sophia (sentada) e tia Lodica, foto dos anos 50 no quintal de sua casa na cidade de Ponta de Pedras; onde hoje se acha a sede da Associação Musical Antonio Malato (AMAM).

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

MINHA MELHOR HISTÓRIA DE NATAL


uma bela laranja na ceia de natal



"Sou um caboco marajoara que teve sorte de ser bem alfabetizado pela Professora Alda Natália Gonçalves dos Santos, no "Grupo Escolar Professora Aureliana Feio", de Ponta de Pedras-PA. Muito curioso em saber quem inventou o mundo". Desta maneira singela gosto de me apresentar aos amigos da blogosfera, mas devia dizer que na verdade minha mãe foi quem me ensinou as primeira letras, como acontece naturalmente a quase todo mundo antes de entrar na escola.

Foi assim que, por defeito de reforma agrária e falta de desenvolvimento rural que preste, embarquei certo dia na canoa furada do êxodo da ilha do Marajó para a cidade grande de Belém do Pará. Era, paresque, velho fado dos nossos antepassados sempre a buscar vida melhor. Liso e leso na capital, pra começar fiz estágio de marreteiro no Ver O Peso e tive inútil experiência de comerciário fumado e mal pago, assim que de office boy em escritório de advogado sem carteira assinada. Com um pouco mais de sorte, acabei por acaso nos idos da década 60, me tornando repórter do novato Jornal do Dia

Diário paraense que não teve vida longa, no qual fiz algumas poucas reportagens que valeram a pena e escrevi uma breve série intitulada A Face Oculta do Ver O Peso, na tímida pretensão de revelar o invisível drama quotidiano da maior feira da América Latina, onde mais de 4000 trabalhadores sobrevivem com suas famílias a morar nas baixadas insalubres de Belém, salvo exceções; e suas desconhecidas conexões com o outro lado do rio e o resto do mundo. Era uma incipiente imitação do famoso folhetim de Nelson Rodrigues "A Vida Como a Vida É", que marcou época na imprensa nacional. 

Nessa temporada fui bisonho auxiliar do jornalista Angelo Giusti, que era responsável pela impopular coluna Inferninho do Contrabando. Digo impopular porque, naquela época, o contrabando reinava absoluto desde a fronteira do Oiapoque até as trinta e tantas baias da região do Salgado, passando pelo Baixo Amazonas e Tocantins, provendo emprego informal e renda mínima a tanta gente no mato sem cachorro que, sem este ilícito, não arranjaria grana nem para o peixe frito e açaí de cada dia. 

A então decadente cidade de Belém do Grão-Pará, tal qual o romance homônimo de Dalcídio Jurandir; não havia recurso para sacudir a poeira da falecida belle époque de Paris n'América. Sua boa gente era mais vítima que transgressora da legislação protecionista da florescente e invejada indústria de São Paulo, a qual chegou ao Norte de caminhão pela rodovia Belém-Brasília e atropelou a claudicante indústria paraense que ainda restava do fracasso da Borracha. 

Como vimos, mais tarde, no Estado do Amazonas a leseira amazônica foi mitigada com a criação da Superintendência da Zona Franca de Manaus (SUFRAMA) e, malmente remediada, na Zona de Processamento para Exportação (ZPE) de Santana e Macapá. No ponto de vista do eixo neocolonial instalado nas regiões Sudeste e Sul, o Pará podia dar-se por satisfeito com as sedes da SUDAM e do BASA, mas nem isso passava de lambança pra inglês ver. O que responde pela estúpida devastação da Floresta Amazônica e a empobrecida superpopulação da área metropolitana de Belém mais que qualquer coisa.

Já sabemos como a história do Pará é deveras complicada. Com o racha do Baratismo, a família Carneiro embarcou com armas e bagagem ao PTB pós-Vargas e fundou o inovador Jornal do Dia destinado a fazer oposição à velha oligarquia do PSD, onde a dita família oriunda de Goiás se arrimou, como tantos outros paraenses por adoção que cercaram o antigo Interventor Magalhães Barata.

Parada indigesta enfrentar aguerridos herdeiros do espólio político da revolução de 1930 no Pará. O antigo O Liberal, velho órgão oficial do baratismo, apesar de não ter poder de fogo diante da ferina Folha do Norte já no ocaso, de vez enquando fazia ferida. Enquanto isto, a provecta A Província do Pará lutava pela sobrevivência desde o fim da época de Antônio Lemos e da Borracha.  Foi assim que o JD, como relâmpago em noite sob batuta de Cláudio de Sá Leal, apesar de breve existência, sacudiu o marasmo da imprensa regional descendente do panfletário O Paraense, de Felipe Patroni. 

Na verdade, o mesmo Leal egresso de A Província e contratado por Pedro e Armando Carneiro, pai e filho; em luta política contra o PSD no poder, para fundar o Jornal do Dia; terminou contratado por Rômulo Maiorana para modernizar e transformar velho O Liberal em verdadeiro jornal. Rômulo foi um "contrabandista" diferente da maioria que apareceu para se dar bem e ficar na sombra. Ele evitou a máscara de político e acabou botando os políticos da terra no chinelo. Como muitos outros se capitalizou no comércio "clandestino" do Pará com as Guianas, porém sem hipocrisia parece-me que compreendeu logo que o contrabando no Norte do Brasil era consequência e não causa do federalismo torto que impera no país. 

Enquanto o PSD foi hegemônico, o "forasteiro" Maiorana era motivo de fofocas requentadas nas rodas elegantes da elite; na desgraça baratista, de repente ele foi tábua de salvação. Porém, longe de tentar a política pisou fundo na lama do atraso econômico e meteu a cara na renovação do comércio lojista onde a mesma elite arruinada se abastecia de produtos da moda. Deu banho de loja ao velho casario do comércio e saiu na chuva dando cara a tapas, conciliando-se discretamente com o poder militar na região emergente do golpe da ditadura contra o PTB de Jango. 

Enfim, um pragmático paraense adotivo sem querer ser santo, moralista ou famoso político; que aguentou o rojão quando o baratismo entrou em parafuso e no comando do jornalismo comercial levou a outrora inimiga "Folha do Norte" a pique, matando-lhe o temido título e arrematando no final o histórico prédio de tantas batalhas: hoje a sede da "Fundação Rômulo Maiorana". Uma notável referência na história política do Pará que ainda não se escreveu com necessária imparcialidade.

Então, como eu estava dizendo, o Inferninho do Contrabando era um agulhão feito sob medida para fustigar o governo de Aurélio do Carmo e desbancar o velho PSD estadual, mais que para moralizar o comércio do Pará com as Guianas. Giusti era um cara sério e tranquilo, observador arguto da cena paraense. Com ele não aprendi muita coisa, mas pelo menos seu jeito civilizado de fazer jornalismo pisando terreno minado no pântano das máfias locais de diferentes calibres: o JD foi para mim um precioso aprendizado, sobretudo, quando vinte anos mais tarde fui a serviço do Itamaraty trabalhar como vice-cônsul do Brasil em Caiena para cuidar da chamada "imigração clandestina". A Guiana Francesa e o Suriname ocupavam a maior parte do noticiário do Inferninho; lá por ironia da história fiz ex-officio, por assim dizer, "PhD" em malandragens e patifarias que até Deus duvida. 

Além disto, como vestibular da carreira, no currículo pregresso eu havia pisado a lama do dilúvio nas paragens do purgatório das Ilhas e Cabo do Norte, lugares marginais onde andar certo é praticamente errado. Onde todo sujeito honesto, visto pela maioria da canalha ululante, não passa de bestalhão...  Tivera eu rica experiência social no Marajó velho de guerra, todavia mais ou menos como cego em meio ao tiroteio... Quando me mudei definitivamente a Belém, fustigado pelo derradeiro surto de malária e crise de desemprego; estava beirando já aos vinte anos de idade. Enfim, contava 23 anos quando fui ser foca de reportagem policial, nesse tempo eu lia tudo que caia ao meu alcance em letra de forma e escrevia, mais ou menos, com os erros de praxe de quem não havia concluído o curso primário. 

Até então eu escrevia versos de pé quebrado para matar o tempo e tinha horrível pretensão de vir a ser romancista. Devorei resmas de papel almaço e gastei milhares de canetas Bic a ponto de me fazer calo nos dedos da mão como se fosse o diploma que não tive. Li Dalcídio aos dezesseis anos de idade: eu era tapado que nem uma pedra, quando virei a última página caíram-me as escamas dos olhos... Danei-me a rabiscar papel. Muito tempo depois, já em Brasília, levei susto tremendo ao entrar em contato com a obra de Guimarães Rosa: pareceu-me familiar ao pessoal do Curral Panema meu vizinho por um par de tempo nos centros do Marajó, povoado provavelmente com alguns casais dos Açores, que ao longo do tempo perderam memória de suas origens, mas não a fala e alguns costumes insulanos.

Em nossa província àquele tempo não havia curso de jornalismo e se houvesse creio que não me interessaria, pois nem eu tinha preparo para ingressar em tal curso. Mas, se a gente tivesse queda pra bancar repórter era o que bastava para entrar no jornal. Se a notícia fosse 'quente', podia-se escrever "caxorro", "autofalante", estar "afim" de ganhar dinheiro no jogo do "bixo" ou assassinar concordância verbal, sem medo do leitor descobrir nossa "crasça" ignorância. Por que toda redação que se prezava havia bons revisores, não raro membro da academia de letras. Então, redação e oficina de jornal além de escola prática acabavam também a ensinar carentes das letras pátrias a se comunicar sem grandes traumas. 

Hoje sou grato à minha mãe e à primeira professora que me ensinaram o bê-á-bá, mas também ao saudoso amigo Claúdio de Sá Leal e ao corpo de redatores do extinto JD que me ensinaram a fazer jornal. Com que hoje me atrevo a embalar meus blogs estúrdios na rede. Aposentado de direito desde 1998 e de fato em 2007, acabei de completar setenta e sete anos de idade e gostaria agora de escrever umas linhas a respeito da primeira noite de natal e da melhor que tive dentre todos natais de minhas recordações. 

Nasci na maternidade da Santa Casa de Misericórdia do Pará, em Belém, mas toda minha infância distante transcorreu na pacata vila de Itaguari (Ponta de Pedras), na beira do rio Marajó-Açu, ilha do Marajó. Papai Noel lá não chegava, talvez por que o saco de presentes se esgotava na cidade grande antes mesmo de atender o subúrbio. Ou por que o trenó do tal velhinho com as renas fatigadas desde o Polo Norte não aguentassem maresia de verão na perigosa travessia da baía sob forte vento geral. O certo é que a gente só tinha natal de presépio na igreja matriz e as pastorinhas do Campinho. Nosso natal, de verdade, era São João no meio do ano.

Foi aí que mamãe resolveu nos engambelar com a velha estória de Papai Noel, a mim e à minha irmã pequena que teria ainda três ou quatro anos de idade. Acho que meu ceticismo sem graça puxou a meu pai. Eu queria pegar o velhinho em flagrante na hora que ele fosse deixar presentes debaixo da rede de dormir... Detalhe importante, pois não se conhecia cama em Itaguari, a não ser alguma rara casa de rico. E olhe lá!... Sapatos também não eram pra todo mundo, de modo que nossos tamanquinhos estavam prontos debaixo da rede a receber presentes naquela noite estranha, enquanto eu fingia dormir desconfiado da demasiada patranha materna.

Não me lembro bem, mas penso que minha mãe estava mais ansiosa que toda população naquela primeira noite de visita de Papai Noel à vila de Itaguari. Minha irmãzinha, cansada da espera e sonhando com as Pastorinhas dormia profundamente enquanto eu 
de sentinela vigiava para desmascarar a farsa natalina em terra de Curupira. Altas horas, percebi certo movimento suspeito... Levantei-me súbito e vi minha mãe correr quase caindo sobre o penico ao sair do quarto. Então, foi que vi sobre meus pobres tamancos o mais formoso guará jamais feito, artesanalmente, em papel crepon pelas amorosas mãos de mamãe. Qual criança da paróquia poderia ganhar presente igual naquela noite misteriosa? Dias mais tarde, deixado ao canto pela bola e a peteca lá se foi meu guará de natal a voar para o vasto mundo da saudade.

Anos depois já não sou mais um pirralho ingênuo metido a esperto. Outro natal, desta vez em Belém do Pará, estou sozinho com minha mãe numa velha casa de madeira alugada numa baixada triste. Era só o que meu magro salário de repórter sem carteira assinada permitia. A ceia desta feita foi uma única laranja repartida em gomos para mãe e filho. Nada mais... Mas, que rica foi aquela abençoada ceia! Eu estava orgulhoso do bendito fruto de meu trabalho e via minha mãe feliz de seu único filho. Pois ela saberia dali em diante que seu rebento não se corromperia por ouro ou prata... 

Aquela pobre barraca suburbana parecia-me naquela noite mais confortável que a manjedoura de Belém, onde santa Maria pariu o Menino Deus. E o motivo de alegria fora a reportagem que eu fizera, publicada na íntegra pelo amigo Leal; denunciando um mirabolante plano de empresários de torrefação de café para supostamente acabar o contrabando... Se a matéria saísse conforme o ditado eu receberia gorda propina de presente de natal, dissera o contato dos contrabandistas que me procurou a fim de plantar a notícia. 

Contei ao Leal, secretário do jornal, a malandragem e lhe disse que ao contrário do esperado iria denunciar na reportagem a tentativa do cartel do café em barrar a arraia miúda dos barquinhos de contrabando para concentrar a muamba em mãos de poucos. Leal limitou-se a rir da minha cara, dizendo ele do alto de sua experiência que eu ainda era "puto novo"... Ou seja, que na profissão o jogo de verdade era muito mais bruto do que eu imaginava.

De fato, aquela manobra seria apenas simples balão de ensaio. Uma isca para botar repórter noviço no bolso... Por acaso, o golpe militar de 1964 veio surpreender e abortar algo bem mais sofisticado que seria, com auxílio da própria Receita Federal, fechar as portas de entrada do Amazonas ao tráfico de barcos de contrabando. A máfia, todavia, com a barra cerrada passaria a "comer a paca" sozinha passando a operar hidroavião com deposito de muamba em alguma fazenda com pista aérea no centro da ilha do Marajó. Dali, em horas mortas, sairia a muamba a diversos pontos próximos à costa da ilha com barracão cheio de caixas de uísque, sandálias japonesas, peças de carro para montadora de automóvel "cotia" dentro do mato do 40 Horas, armas e munição, etc. através de canoas de pesca que, "sem dar na vista", fariam remessas para cercanias de Belém. 

O grande plano do cartel falhou. Mesmo assim, a Alfândega com ajuda da "Burra Preta" (lancha patrulha de velocidade, emprestada pela Petrobras) passou a dar combate ferrenho a pequenas embarcações suspeitas de praticar contrabando miúdo. Queixas de violência e corrupção de policiais não faltaram, casas ribeirinhas invadidas e revistadas sem mandato, casos de espancamento para forçar caboco a abrir o bico e vomitar tudo que sabia sobre movimentação de contrabandistas na área. 

Um tal teatro dos horrores ribeirinhos servia de cortina ao tráfico ilegal onde pontificava a imigração clandestina de "refugiados econômicos" para as Guianas -- donde o capitão Palheta furtou o café que foi prosperar em São Paulo --, e que só fazia aumentar dia após dia. Em compensação, pelo mesmo caminho vieram dentre costumeiros contrabandos ritmos e músicas do Caribe para se aculturar no Pará. Prova de que é bandalheira todo bloqueio econômico e fiscal para beneficiar apenas a poucos espertalhões. E outras histórias e outras maldades com ou sem consentimento oficial... Agora toda noite de natal em minha casa quanto vejo a mesa arrumada para ceia, a grande família reunida, eu me lembro daquela curiosa história duma laranja só para mãe e filho comemorem a Natividade da cristandade. 
 

 Othilia Varella Pereira, minha mãe, cerca de 1967 em Brasília-DF.