domingo, 30 de março de 2014

TURISMO LITERÁRIO COM A CRIATURADA GRANDE DE DALCÍDIO JURANDIR

romance seminal do ciclo Extremo-Norte (capa da 1ª ed., 1941).


"indagava por que os campos de Cachoeira não eram cheios de flores,
como aqueles de uma fotografia de revista que seu pai
guardava. Ouvia o major Alberto dizer à d. Amélia: campos da Holanda. 
Chama-se a isso prados".
           (Chove nos campos de Cachoeira / Dalcídio Jurandir".


Canções de Alinhavo

Chove nos campos de Cachoeira
e Dalcídio Jurandir já morreu.
Chove sobre a campa de Dalcídio Jurandir
e sobre qualquer outra campa, indiferentemente.
A chuva não é um epílogo,
tampouco significa sentença ou esquecimento.
Falei em Dalcídio Jurandir
como poderia falar em Rui Barbosa
ou no preto Benvindo da minha terra
ou em Atahualpa.
Sobre todos os mortos cai a chuva
com esse jeito cinzento de cair.
Confesso que a chuva me dói: ferida,
lei injusta que me atinge a liberdade.
Chover a semana inteira é nunca ter havido sol
nem azul nem carmesim nem esperança.
É eu não ter nascido e sentir
que tudo foi roto para nunca mais.
Nos campos de Cachoeira-vida
chove irremissivelmente.

Carlos Drummond de Andrade.

Fotografias do acervo familiar de Dalcídio Jurandir. Direitos cedidos à revista Plural Pluriel.
Academia do Peixe Frito, Belém do Pará décadas de 1930-1960.


Há dez anos passados, no dia de aniversário de nascimento de Dalcídio Jurandir (10 de Janeiro), único romancista da Amazônia com o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras (ABL) até hoje; voei de Belém a Amsterdã e Paris via São Paulo. Um enorme desvio em completo desfavor de René Descartes, porém apoiado triunfalmente pelo ditado político do poder econômico das companhias de aviação... 

A data e a viagem foram para mim pura sorte. Mas, com a feliz coincidência eu não pude evitar de pensar nos verdes prados da Holanda a que Alfredo se refere nas páginas sempre vivas do "Chove" e desejei, secretamente, ver de perto um velho moinho de vento próximo a um daqueles invejáveis canais que deram fama e milhões de cartões postais à ecológica e desenvolvida Holanda. Certamente, a paisagem cultural dos Países-Baixos pode servir muito bem de inspiração ao desenvolvimento sustentável do Marajó velho de guerra. Em Belém todo sujeito letrado sabe que esta cidade grande da península do Guamá poderia ser a Veneza amazônica, caso não a tivessem aterrado de cabo a rabo. Porém eu acredito que melhor seria compará-la a Amsterdã, esta rainha dos diques do Mar do Norte com seus 100 km de supimpas canais. Já de Paris eu queria trazer das margens do Sena ideia para inventar um caminho geoturístico passando pelas Antilhas para chegar, diretamente da velha Europa, a Amazônia oriental inclusive Guiana francesa e Amapá integradas por estrada. De Macapá a Belém do Pará um viajante sem pressa, vindo de Paris por avião, poderia pegar barco para o Marajó varando os centros da ilha em canoa-motor através dos rios Anajás e Arari, para saltar em Cachoeira do Arari e pegar conexão rodo-hidroviária através de Salvaterra para Belém.

Um caminho puxado, não é? Sim, mas em compensação comparado com o enorme desvio por Rio ou São Paulo o viajante do mundo tem mais a descobrir do que aeroportos, hotéis e restaurantes caros e maçantes. De todo modo, este fabuloso roteiro Europa-Amazônia - oxalá os negociadores do acordo de livre comércio MERCOSUL-União Europeia lembrem-se que a distância mais curta entre dois pontos é uma reta e que a Amazônia Oriental e as Antilhas existem! - seria totalmente compatível produtos ecoturísticos de base na comunidade à la carte, conforme o gosto do freguês.

LEMBRANÇAS E LAMBANÇAS

Cinco anos de serviço exterior brasileiro em Caiena com abrangência sobre as ilhas de Guadalupe e Martinica, no Caribe, antecedidos de larga experiência do lado de cá da faixa de fronteiras Norte, abriram-me os olhos para ir além dos crônicos problemas do contrabando e da célebre "imigração clandestina" (no meu ponto de vista, até então, um caso típico de "refugiados econômicos"). 

Era mister aprender a fazer do limão uma boa limonada. O diabo é que Brasília e Paris ficavam - e ficam ainda -, muito distantes do Oiapoque, onde, reza o velho ditado, "o Brasil começa". Parecia-me e me parece urgente a necessidade de desentortar o mapa das relações internacionais com respeito às regiões amazônicas. A brava gente brasileira não sabe que a cooperação internacional descentralizada (envolvendo estados sub-nacionais, províncias e municipalidades) é um modalidade de relações internacionais contemporânea fadada a fazer futuro e que o Amapá com o governo regional da Guiana francesa tem uma parte criativa nessa história. De minha parte, tenho batalhado em vão, para que a região do Marajó com seus dezesseis municípios venham a ser integrados nesse ou outros esquemas de desenvolvimento territorial em cooperação internacional descentralizada.

Por isto, fico feliz com a notícia de que o Estado do Pará e a Região da Martinica estão estabelecendo protocolo de cooperação regional. Faço votos de um novo e profícuo relacionamento inclusivo, donde a Guadalupe também venha a contribuir, retomando a iniciativa conjunta do Governo estadual paraense, em 1989, através da Secretaria de Indústria, Comércio e Mineração, com Nelson Ribeiro; e o Consulado do Brasil em Caiena, com o então Cônsul e atual embaixador em Kingstown (São Vicente e Granadinas) Michael Gepp.

A canção "Porto Caribe" de autoria de Paulo André e Ruy Barata deve ser entendido como manifesto de navegação cultural. E, ainda mais, um chamado sobre as raízes étnicas e antropológicas de todas as Guianas venezuelana, guianense, surinamense, franco-guianense e brasileira. A gente precisa saber que nossa cidade de fronteira Oiapoque, no outro lado do rio é chamada de "Martinica"... Isto se deve a garimpeiros antilhanos na bacia do Oiapoque, em fins do século XIX, que descobriram ouro no Amapá enquanto o povão brasileiro corria para dentro da floresta amazônica em busca de árvores da Borracha... Daí desse filão guianense saiu o primeiro romance escrito em créole , "Atipa" (pronunciar "atipá", que corresponde ao apelido do protagonista, um garimpeiro guianense; e ao peixe cascudo conhecido por Tamuatá), de autor anônimo sob peseudônimo de Alfred Parépou (pupunha, fruto amazônico muito apreciado de um lado e outro da fronteira).  

A LUA NA BAÍA DE MADININA

Milan Kundera é um escritor, aparentemente, com grande atração pela lua. Na baía de Fort-de-France, capital da Martinica, ele escreveu ter visto os chifres da lua de uma maneira que antes ele nunca havia visto... Eu também vi a lua sobre a baía da antiga "ilha das flores". É qualquer coisa maravilhosa. Aqui entre nós pouca coisa sabemos sobre a Martinica, exceto a marchinha da Chiquita bacana... Poucos sabem que o carnaval fora de época, que aqui chegou pela volta grande da Bahia com nome de "micareta", na verdade é importação indireta da Martinica. Onde, se chama 'micarême' (do francês démi carême, "meia quaresma")...

Sem que eu soubesse, fui a Martinica com a suspeita de ir achar traços antigos da guerra ancestral entre meus parentes longínquos Tainos e o inimigo hereditário Galibi, aliás Kalina (donde veio o nome Caribe, canibal). Quem sabe eu poderia me instruir um pouquinho mais a respeito dessa eucaristia bárbara?... Na verdade, não tive tempo de procurar como deveria. Entretanto, o inesperado: encontrei minha alma preta, que nem J-P Sartre, escondida sob minha cara pálida. O encanto, certamente, veio da lua de Madinina: mas estava, como que a me esperar guardada na poesia de Aimé Cesaire... E foi aí que vi que a Negritude vai além da melanina.

Então, a lua que na minha aldeia do Itaguari, no Marajó, era uma menina correndo pelo alto céu, enquanto na terra poeirando pelo luar eu a namorava em cada esquina; me contou em segredo que antes mesmo do rei mandinga Abubakari II atravessar o Mar-Oceano desde o rio Gâmbia para chegar ao Hayti com seus dois mil canoeiros negros, duzentos anos antes de Colombo; todos índios saídos da lenda da primeira noite do mundo, para ver a lua fugindo do império do trabalho, já eram negros da Terra. Motivo pelo qual, mais depressa eu quis embarcar a bordo da utopia da Terra sem males.  

Como é bonito escutar dizer "La Martinique" e saber que vem do créole "Matinik"... "Lamatinik", nome de mulher com sobrenome "ilha das flores"... Era chamada Madinina. Na arcaica língua caraíba se chamou Ioüanacéra (de ioüana, iguana e caéra, ilha).

Estas coisas emergem em meu pensamento nesta hora em que o turismo do Pará dá mais um soluço. Será que desta vez vai dar pé ou será que será só se deus quiser e ao vosso reino nada? Ou será que volta a tropeçar na bebedice do nosso fado. E eu que queria fazer uma ponte suspensa sobre o "Mar português" de Pessoa, além do Tejo e cabo Bojador, mas desde a beira do Sena até a baía do Guajará a fim de adivinhar "L'avenir de la capitale du Pará"... Misturar as línguas portuguesa e francesa num patois pato no tucupi bem gostoso e temperado.

Para tamanha pajelança até escrevi o desconforme ensaio pós-colonial "Amazônia latina e a terra sem mal", com o qual desembarquei em Paris pronto a desafiar o super star Jack Lang para vir a Cachoeira do Arari ouvir falar de um certo Dalcídio Jurandir. Bela surpresa, Monsieur Lang não apenas veio, mas disse a que veio, quando abriu a valise e me presentou com um exemplar autografado da biografia "Nelson Mandela, uma lição de vida", de sua autoria, traduzida ao português. Sua entrevista, em Soure, com o bispo Dom Frei José Luís Azcona e pescadores foi memorável e eu ainda não esqueci. As portas ficaram abertas e a ponte do Oiapoque está feita: por enquanto, ainda parece um espectro da guerra do Amapá. Ainda faz escuro, mas eu canto fazendo coro ao poeta maior Thiago de Mello no esplendor da sua maturidade. Que Aimé Cesaire e Bruno de Menezes pelas ondas neuronais da memória de seus filhos entoem alto som o "Batuque" para nos despertar da mundiação da Boiúna e da dormideira do "desenvolvimento" insustentável.

Mas, para tanto carece superar a síndrome da belle époque ostentando por todos os meios a expressão geográfica de Belém do Pará, segundo Henri Coudreau e Eidorfe Moreira entre outros. Tal façanha equivale a um trabalho de Hércules, mas seria como construir uma grande ponte norte-sul e sul-sul ao mesmo tempo, em duas mãos, sobre ambas margens do Atlântico. Superando assim a triste herança colonial e a histórica crise da família real de Portugal em conflito com o império de Napoleão. 

A realidade, todavia, manda dizer que tudo isto depois de tanto tempo ainda é utopia. Mas que seria da História se não existissem utopias? Aprendi com um veterano diplomata francês, que é preciso "habitar o tempo", quando lhe disse eu que faz parte do imaginário guianense o casamento do príncipe Caienne, filho do rei Ceperu; com a princesa Belém, filha do rei Brasil. Como diria Oswald de Andrade, devorei imediatamente o discípulo de Talleyrand...

 Claro está que as grandes metrópoles europeias e sul-americanas mantém relacionamento civilizado de alto nível, todavia quanto mais se aproximam da faixa equatorial aumenta o calor e diminuem as Luzes... A expectativa de construção da ponte sobre o rio-fronteira do Oiapoque reabria horizontes. E, portanto, lá fui eu acompanhar em serviço como assessor de relações institucionais o presidente da PARATUR e hoje Secretário de Estado de Turismo Adenauer Góes, no interesse de vir se realizar em Belém do Pará a Feira Internacional de Turismo da Amazônia - FITA. A ideia inicial seria criar um evento bienal reunindo, sobretudo, países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) acrescidos da França, por causa da vizinhança das Guianas e Antilhas, mais Espanha e Portugal em razão dos vínculos históricos com os respectivos países amazônicos. 

Naquela hora, uma pajelança à beira da loucura... Mas, o pior estava por vir, quando em consequência daquela viagem arriscada, o eterno ministro da Cultura de Mitterrand, Jack Lang, aceitou a aventura de desbravar o roteiro geocultural amazônico na rota das Guianas saindo de Paris até Belém e ilha do Marajó, passando por Caiena e Kuru, voltando pelo mesmo caminho. Inolvidável... A visita ao chalé de "Chove nos campos de Cachoeira" e ao Museu do Marajó, que não se fez por que São Pedro safadinho e os caruanas de plantão não quiseram e mandaram o dilúvio em vez de uma chuva qualquer para fazer jus ao romance dalcidiano.

Enduro, paresque, para bravos viajantes do mundo: turismo de resort e bronzeador é para os fracos... Falar de turismo literário na Amazônia, em 2004, seria algo como pregar no deserto a descoberta estúrdia do turismo religioso de Katmandu. Logo, se a gente quisesse "vender" um destino com a cara da gente marajoara, carecia conquistar corações e mentes além fronteiras...

Como já expliquei diversas vezes eu não tenho negócio turístico, não sou turismólogo nem posso, a rigor, ser considerado um turista. Entretanto, por amor à Criaturada grande de Dalcídio vislumbrei no turismo a possibilidade de matar a fome do IDH perverso e fazer festa da cidadania.



   sugestão para criação do "DIA DE ALFREDO" em Marajó junto à FITA




FONTES:

Fernando Rebouças
Sabemos que a leitura, por meio da imaginação e sensações, nos permite viajar a lugares reais e irreais; descritos e imaginados pelos seus autores. Atualmente, em nosso mundo palpável, a literatura, além de inspirar viagens pelas letras, incentiva a viagem aos ambientes que inspiraram a criação de um livro e aos locais onde nasceram e viveram os autores. Conhecer mais sobre a vida dos escritores, onde viveram e trabalharam; assistir palestras, participar de lançamentos e de feiras literárias são os principais motivos para o surgimento e o aquecimento do turismo literário. O turismo literário é um segmento do turismo cultural que permite o contato entre o leitor com o local da obra,  autor e com eventos de lançamento editorial.
Os leitores, ao visitar a cidade natal de um autor, têm a possibilidade de conhecer a casa  onde o autor nasceu, a casa onde viveu, a igreja em que se casou, os bares que frequentou, entre outros lugares por meio de uma rota turística específica. Por outro lado, esse estilo de turismo possibilita a oportunidade do leitor refazer a rota de determinado personagem e de estar presente perante uma atmosfera de lendas pertence à relação existente entre ambiente e obra.
Em Paris, há uma rota para os turistas seguirem pelos locais narrados por Victor Hugo; e por Dan Brown, na obra “O Código da Vinci”. Na Inglaterra, a cidade Stratford-upon-Avon é muito visitada por ser a cidade natal de Shakespeare.

Turismo literário no Brasil

A cidade Cordisburgo, Minas Gerais, é visita por ter sido descrita na obra “Grande Sertão: Veredas”, do escritor Guimarães Rosa. Em Cordisburgo há o “Circuito Guimarães Rosa”, o circuito inicia na casa onde nasceu o autor da obra.
Na Bahia, a Ilhéus de Jorge Amado, descrita em “Gabriela Cravo e Canela” é procurada e vivenciada a cada esquina dos prédios coloniais e nas praias da Costa do Cacau. A cidade de Ilhéus também possui um bairro batizado de Jorge Amado em homenagem ao escritor. A cidade poder ser conhecida pelo roteiro turístico cultural Quarteirão Jorge Amado.
Quando o assunto é evento literário, a pequena cidade fluminense Paraty já faz parte do circuito internacional de turismo literário por meio da realização da Flip – Festa Literária Internacional de Paraty. Durante a realização do evento, que conta com a venda e lançamentos de livros, encontro com escritores e debates, os hotéis da cidade ficam todos ocupados, movimentando o comércio até das cidades vizinhas. Em média, durante a Flip, Paraty recebe 12 mil visitantes.
Fontes:
http://pt.wikilingue.com/es/Turismo_literário
http://revistahost.uol.com.br/publisher/preview.php?edicao=0905&id_mat=324
Almanaque Saraiva – Ano 5, n° 50 -  Julho de 2010.

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) é um festival literário lançado no ano de 2003 e realizado pela Associação Casa Azul. Acontece anualmente na cidade fluminense de Paraty1 .
A FLIP é considerada um dos principais festivais literários do Brasil e da América do Sul. O financiamento é assegurado por um sistema hierarquizado de patrocinadores e é conduzido pela organização sem fins lucrativos Associação Casa Azul. Além de palestras também são realizadas discussões, oficinas literárias e eventos paralelos para crianças (Flipinha) e jovens(Flipzona). O sucesso mundial desde seu ano de fundação se deve principalmente ao envolvimento e participação ativa de autores de vários países reconhecidos internacionalmente.
O festival foi idealizado pela editora inglesa Liz Calder, da Bloomsbury, que morou no Brasil e agenciou diversos autores brasileiros, tomando como modelo o festival literário de Hay-on-Wye, no Reino Unido2 . O festival é associado com outros semelhantes, tais como o Festival Internacional de Autores, em Toronto, Canadá, e o Festivaletteratura Mantova na Itália, para mostrar a interculturalidade na literatura.


para 2014. A meta da Companhia Paraense de Turismo (Paratur) é receber 1.073.202 turistas e movimentar mais de R$ 650 milhões.
Na última sexta-feira (24), o secretário de Turismo do Pará, Adenauer Góes, o presidente da Companhia Paraense de Turismo (Paratur), Marcelo Mendes, e o supervisor do Dieese, Roberto Sena, apresentaram os números do turismo no Estado. De acordo com a Paratur, a expectativa é receber 10,18% a mais de turistas do que em 2013, sendo 983.235 mil do Brasil e 89.967 internacionais.


quinta-feira, 20 de março de 2014

NO DIA DO GRIÔ CABOCO MARAJOARA CRITICA O TURISMO QUE SE FAZ NA ILHA DO MARAJÓ


SUGESTÃO DE TURISMO LITERÁRIO COM A CARA 
MARAJOARA (ilustração banner do Campus Rio/UFRJ)




Os griots, jali ou jeli (djeli ou djéli na ortografia francesa), são contadores de histórias, vivem hoje em muitos lugares da África ocidental, incluindo Mali, Gâmbia, Guiné e Senegal, e estão presentes entre os povos Mandê ou Mandingas (Mandinka, Malinké, Bambara, etc.), Fulɓe (Fula), Hausa, Songhai, Tukulóor, Wolof, Serer, Mossi, Dagomba, árabes da Mauritânia e muitos outros pequenos grupos. A palavra poderá derivar da transliteração para o francês "guiriot" da palavra portuguesa "criado".

Nas línguas africanas, Griots são referidos por uma série de nomes: Jeli nas áreas ao norte de Mandê, Jeli nas áreas ao sul de Mandê, [ver  http://pt.wikipedia.org/wiki/Griot ].


Literatura oral é isto que os contadores de estória fazem. Isto que eu e meu camarada Agostinho Quirino Batista somos, antes de qualquer coisa, contadores de estória. Ou seja, Griôs. Mas não confundam griô com cantador de estória da carochinha. A literatura de Dalcídio Jurandir o que seria se ele desde o colo de sua mãe não tivesse escutado velhas estórias da Criaturada grande, que parecem ter sido conservada no ilhamento da grande ilha do Marajó? E que seria da literatura de Érico Veríssimo, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa... O renome de Câmara Cascudo e Ariano Suassuna sem a contação infinita dos contos que o povo conta?

Muito respeito pois a esse tesouro vivo que passa pela memória da gente, de geração a geração. Já tive oportunidade de declarar e aqui neste dia de 20 de Março de 2014, quero repetir em letras graúdas:

O MARAJÓ É A ÚLTIMA FRONTEIRA DA AMAZONIDADE.

  A amazonidade é esta coisa única no mundo onde as raízes indígenas do rio das amazonas bebem, através do Mar, a encantaria africana e a santidade e diabruras da velha Europa misturadas. Trata-se de um patrimônio da humanidade.

Por isto, Dalcídio sentenciou: " o caboclo marajoara é um cidadão do mundo"... E eu declaro meu profundo aborrecimento contra os matadores da amazonidade, os principais que se apresentam prontos a falar do que não sabem. Vendem gato por lebre. Celebram o "Búfalo" como símbolo cultural do Marajó. Apresentam a dança da chuva ou a dança do fogo pele-vermelha como dança dos "índios" Marajoaras. Mas nunca ouviram falar da dança do peixe (Pirapuraceia) ou da lenda da Primeira noite do mundo.

Há oito anos escrevi o artigo abaixo para o site de "Turismo, Lazer e Cultura" (ETUR, de São Paulo) antecipando minha despedida do órgão oficial de turismo do Pará, onde estive durante oito anos (1999-2007). Salvo detalhes, as críticas continua atuais.


A III Fita do Pará face à nova economia na Amazônia

12/7/2006 - José Varella

Que me desculpem os experts do imaginário alheio e grandes teóricos do mercado turístico diplomados e pósgraduados mundo afora, mas transparência e autenticidade é fundamental neste negócio de futuro. Inventar turismo na Amazônia não deve ser brincadeira nem negócio como outro qualquer. Aqui, naturalmente, se requer conservação do habitat das águas e de floresta sem falsificações nem fantasias de santuarização.



A logomarca Pará: a obra-prima da Amazônia está mais visível no mercado nacional e internacional de turismo, constituindo assim um caso de sucesso. O investimento nesta identidade venceu descrédito e já dá bons frutos. Este é o sentido maior para os promotores da III Feira Internacional de Turismo da Amazônia (FITA) www.fitamazonia.com.br e www.paratur.pa.gov.br , realizada em Belém entre 15 e 18 de junho de 2006, como marco entre duas etapas do processo de promoção regional no mercado externo.

Dez anos de ensaios para decolagem segura e boa viagem rumo a uma economia regional sustentável para a qual o turismo deve ser principal caixeiro-viajante. Outro ponto forte, compartilhado pela comunidade de países amazônicos, foi o destaque conferido ao evento pela Secretária Geral do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) www.otca.org.br , Rosalia Arteaga Serrano, que palestrou no seminário sobre atividades da Comissão de Turismo da organização multilateral com sede em Brasília.

 Com presença do Ministro do Turismo, Valfrido Mares Guia, do Presidente da Embratur, Eduardo Sanowiski, do ex-Ministro de Turismo e Esportes, Caio de Carvalho e outras autoridades que prestigiaram a iniciativa do Governador Simão Jatene por intermédio do Presidente da Paratur, Adenauer Góes, o evento contou com participação de delegações dos paises da OTCA e da Guiana Francesa, Martinica e Guadalupe que prestigiaram o acontecimento de Belém, além duma centena de compradores vindos de diversos países e outros tantos expositores que inauguraram a bolsa de negócios turísticos do Pará. 

 Assim, paralelamente à Fita o seminário dos dias 15 e 16 debateu este valioso recurso econômico de prestação de serviços e suas oportunidades para sociedades regionais periféricas como as regiões amazônicas, prensadas como marisco entre o mar e o rochedo, diante da dicotomia entre ser ou não ser “celeiro do mundo” ou “almoxarifado nacional”.

Entretanto, encontros semelhantes a este nos abrem os olhos para o fato da nova economia mundial estar mudando cenários estabelecidos pelo colonialismo antigo. E, desta maneira, mais depressa se demonstra a terceira via que se está abrindo às relações intra-nacionais e inter-nacionais para configurações pós-modernas, que a terceira onda industrial está trazendo em todo o mundo. Alternativa interregional sul-americana integrando a pan-Amazônia ao Nordeste brasileiro, Brasil Central, Andes e Caribe interposta à fatalidade da devastação pelo bem do país ou santuarização em nome da humanidade. Nada a ver com paranóias separatistas e arrivismo nacional-populista, enfim, pois que é exatamente de  inclusão e abolição de apartheids que se está a falar.


 Política e economicamente, a adversa desflorestação da Amazônia é um suicídio que se consuma de maneira irremediável com prenúncio de desertificação por toda parte onde a cobertura vegetal deixou pobreza e extinção das espécies, como a zona Bragantina, por exemplo. Aí se agrava a dependência técnica e econômica da região, piorando a questão social manchada secularmente pelo trabalho escravo ou semi-escravo.

 Mas, o Pará focalizado com o Mato Grosso e Rondônia no arco das queimadas; dispõe de quase metade do extraordinário potencial turístico da Amazônia, infelizmente sem todos os meios necessários para transformar “matéria-prima” da paisagem cultural em produtos: a mata virgem não dará filhos saudáveis se não for conservada...

É preciso estudar a oportunidade das atividades turísticas à luz da nova economia e não aplicando cegamente receituário de vinte ou trinta anos atrás. Um turismo de interesse científico especial poderia “vender”, por exemplo, a cidade perdida de Mazagão transplantada do Marrocos, os buracos da Serra do Navio deixados pela extração de manganês, a febre de ouro na Serra dos Carajás, o retumbante fiasco do Projeto Jari, as lições de Fordlândia, Belterra, o sonho faraônico da estrada de ferro Madeira-Mamoré e seus muitos mortos e outras aventuras da tresloucada ocupação da Amazônia. 


Se esqueletos fósseis rendem ingressos em museus, não é ilógico imaginar que “ossos” duros de roer da história colonial ou neocolonial possam também render alguns cobres em benefício de remanescentes de suas vítimas. Este é o espírito da coisa, fiado na corajosa homilia de João Paulo II nos 500 anos de descoberta da América, quando Sua Santidade humildemente pediu o perdão dos Índios e Negros em nome da Igreja Católica Apostólica Romana.

A feliz iniciativa da OTCA (www.otca.org.br), sob a culta inteligência e competente diplomacia amazônica desempenhada pela doutora e poetisa equatoriana Rosalía Arteaga, em promover expedição de jovens estudantes pelos caminhos de Orellana – bela sugestão para turismo amazônico sustentável, que o mercado pan-amazônico deverá enxergar com lucidez – fará, estou absolutamente certo, com que futuros cientistas sul-americanos voltem seu olhar para a Amazônia com sentimento profundo de amazonidade. Que é o avesso do “espaço vazio” geopolítico e da Ocupação colonizadora, cujo ápice é o extrativismo de escala e gestação do deserto. Anúncio fúnebre da extinção da Biodiversidade entendido como “desenvolvimento” custe o que custar... 

Há que se amazonizar os países amazônicos para conservar esta região natural da Biosfera sob condomínio das nações signatárias do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), que o embaixador brasileiro Rubens Ricupero hoje a serviço da ONU na Unctad, enxergou longe, em 1978; abrindo caminho ao desenvolvimento sustentável, justo e pacífico das sociedades amazônicas locais... A monumenta natural e cultural amazônica inteira, tal como a Torre Eiffel, a estátua da Liberdade, a Cidade Proibida, a Muralha da China, a Capela Sixtina, o Coliseu e tantos outros bens da humanidade estão na posse e responsabilidade de seus respectivos países.

Os caminhos de Orellana (com a descoberta das “amazonas”) e de Pedro Teixeira (com seus 1200 bons selvagens Tupinambás, buscadores da mítica Terra sem Mal) interligando a remos as alturas de Quito às terras baixas do estuário Amapá-Pará, junto a Amazônia azul (marítima); podem suscitar diversas lições. Uma delas foi a fome, violência e morte causada pela imprevidência de ávidos expedicionários de Gonzalo Pizarro, movidos pela febre do ouro, ao país da Canela e do El-Dorado em plena selva, onde os nativos sobreviveram há milhares de anos. O descobridor do “rio das amazonas” em 1542 escaparia com vida ao processo com pena de morte, acusado de desertor perante à corte de Valladolid (Espanha), mas ele perderia a vida no retorno ao país das Amazonas, em 1544, extraviado nos caminhos das águas grandes do Grão-Pará... 

 Isto é mais do que uma advertência à ingenuidade de certos conquistadores mal informados do Trópico Úmido, cujos ritos da antropofagia estão presentes em diferentes ocasiões. Enfim, entre o Paraíso selvagem e o Inferno Verde não existe mais do que uma tênue fronteira que os pajés conhecem por instinto e o naturalista Alfred Wallace, precursoramente, anunciou ao mundo deslumbrado com os achados de Darwin nas ilhas Galapagos. 

Mas, disto não houve tempo e nem lugar na nossa querida Fita, infelizmente, para abordar no seminário aliás interessante em todos aspectos, sobretudo quando o Presidente da Embratur mostrou com dados estatísticos as curvas discrepantes entre custo e benefício da atividade. Ou seja, ainda há muita gente no fluxo internacional com baixo rendimento nacional característico de turismo em massa, quantitativo; mesmo que o negócio do turismo se arrisque a vender, às vezes, pastel de vento... Felizmente, a análise correta para sintonia fina aponta às correções necessárias, futuramente.  

Como também o tempo escasso não deu azo aos visitantes de ouvir falar de um certo escritor da ilha do Marajó, “matéria-prima” a exemplo de William Faulkner nos Estados Unidos que atrai para pequena cidade sulista cerca de 20 mil turistas a cada ano, graças ao marquetingue turístico e cultural. Assim, também em torno da obra de Pablo Neruda, no Chile; Alejo Carpentier, em Cuba; sem falar de Jorge Amado, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Mário de Andrade e outros entre nós. Por isto, tomei a peito escrever esta retardatária notícia que pode compensar nossa falha involuntária, indo ainda ao encontro de nossos gentis visitantes via internet (www.unilivre.org).

O marajoara patrono da Universidade Livre Marajó-Amazônia (Unilivre-MAM), razão de fundação do Instituto Dalcídio Jurandir, do Rio de Janeiro; que no dia 16 de junho último completou 27 anos de morte e fará 100 anos de nascimento no dia 10 de janeiro de 2009. Único amazônida ganhador, até hoje, do Prêmio “Machado de Assis”, da Academia Brasileira de Letras. Fonte incontornável para formatação de produtos turísticos de qualidade antropológica e cultural no polo turístico Marajó. Onde o IDH faz vergonha à brasilidade e somente tardiamente se está pensando em inventariar sítios arqueológicos da primeira cultura amazônica, cujos “cacos” amealhados por vaqueiros e pescadores do lago Arari deram motivo ao padre Giovanni Gallo de inventar um museu no fim do mundo (www.museudomarajo.com.br), como possível preparação à candidadura ao patrimônio da Unesco reclamada pela comunidade marajoara em documento dirigido ao Presidente da República Federativa do Brasil. Locus da arte primeira da Amazônia, em torno do ano 500 da era cristã, conforme informa a arqueóloga Denise Shaan (www.marajoara.com e www.museu-goeldi.br). 


 Pena que não haja tempo a turistas apressados para visitar a verdadeira e profunda Amazônia que, por exemplo, o exército Brancaleone chamado Grupo em Defesa do Marajó (GDM) está cansado de falar desde 1994, pelo menos... Para algumas mentalidades locais – do mesmo modo que o operoso e simpático Clube do Feijão Amigo, que homenageou o Governador do Pará em jantar de confraternização oferecido nos salões do Hilton Hotel Belém pela realização da III Fita –,  o GDM não existe; nem tem importância, porque não possui estatutos, sede fixa e diretoria formal, apenas coordenado esporadicamente por um caboclo sem diploma, descendente do líder marajoara de 28 de Maio de 1823 que comandou, em Muaná, e pagou caro pela ousadia, a Adesão do Pará à Independência do Brasil.

Finalmente acordada, na “data magna” de 15 de agosto, entre coloniais lusos e um irrefletido agente inglês até consumação da tragédia do brigue “Palhaço” com assassinato dos patriotas paraense em marcha batida para guerra-civil de 1835, por apelido a Cabanagem. Mas, se o caso é dourar a pílula no case paraense; já no turismo histórico da Farropilha contemporânea à insurreição popular amazônica, pelo contrário; não se vende gato por lebre em respeito ao viajante curioso da paisagem cultural do extremo-sul brasileiro.


 Se, como dizem alguns 'experts', o turismo é um negócio como outro qualquer, então o mercado turístico está submetido a regras do jogo global com todos prós e contras (inclusive, condicionamentos provenientes de convenções internacionais sobre Direitos Humanos e Meio Ambiente). É ingênuo, por exemplo, acreditar que o discurso politicamente correto do livre comércio irá acabar de bom grado com os subsídios agrícolas nos Estados Unidos e Europa.

 Como também é ingenuidade ou esperteza de algum segmento econômico difundir a crença de que a quebra unilateral do príncípio de reciprocidade no regime de vistos faria o boom do turismo receptivo no Brasil. Como velho servidor “inativo” do Serviço Exterior Brasileiro causou-me estupor ouvir acusações infundadas ao Itamaraty em manifesta contrainformação, que a obrigação funcional no órgão de turismo oficial do estado me obrigou a ouvir calado, para não criar polêmica e constrangimento aos demais visitantes. Embora eu não tenha procuração da Casa de Rui Barbosa e também não concorde com a discriminação que sofrem brasileiros do Pará e Amapá com relação a seus vizinhos da Guiana Francesa isentos de vistos, supostamente para colaborar no combate à imigração clandestina. Pelo que se sabe, desempregados que atravessam a fronteira como “refugiados econômicos” não perdem tempo com pedidos de visto. 

 Eles chegam lá e sempre acham quem os empreguem. Mas, os lobistas brasileiros que lutam por derrubar a reciprocidade em relação a turistas dos EUA talvez devessem se inspirar na linha do Oiapoque. Para ver se os seus argumentos correspondem à realidade dessa abundância prometida de turistas incentivados pela quebra de reciprocidade. Certamente, não é esta a solução. Mas, seria melhor que os franceses se convencessem que autoridades, homens de negócio e turistas de verdade podem, pelo contrário, criar clima favorável à geração de empregos e renda aquém Oiapoque que, logicamente, desestimularia a maior parte de travessias clandestinas.

Por outra parte, seria politicamente correto unirem-se brasileiros e norte-americanos interessados, como dizem, em vir aos montes para o Brasil; passando a sensibilizar os políticos para o fato de que os nacionais brasileiros, tais como os europeus desejam ir aos States com a mesma alegria que os grigos querem vir aqui. Ou seja, tudo ficaria como antes, reciprocamente, sem necessidade de visto de turista para nenhum lado. Ora, brasileiros discriminados e com menor poder aquisitivo não desistem de realizar a viagem de seus sonhos aos EUA, com visto ou sem visto, não será por falta de isenção de visto que nossos simpáticos vizinhos do hemisfério Norte deixam de vir em maior quantidade.


 O terrorismo odioso e vingativo vê alvo fácil onde turistas distraídos se concentram como rebanhos ao alcance de lobos, a lista de atentados é longa e cruel; o sangue de inocentes jorra em cascata... O ódio alimenta o ódio e o caminho da violência conduz à violência sem fim. Mas, se a guerra é filha da lei da selva; a Paz é invento da cultura e parteira do Futuro. É espantoso que um pagão como o hindu Gandhi tenha dado o maior exemplo que políticos cristãos não têm sido capazes de assimilar e colocar em prática, vergados pelo arcaico costume da pena de Talião; enquanto se vangloriam em paladinos de alta Modernidade. Nem a lição de Nelson Mandela chama mais atenção, com rara exceção da arguta análise e pregação humanista de Jack Lang, que recentemente visitou a Amazônia e retornou a Paris com clara boa-vontade em ser embaixador honorário do Pará diante de quase indiferença ou incorrigível ignorância de nobres representantes do povo local... 

 Que fazer para provar lealdade aos ideais de Georges Washington e seus companheiros da Independência Americana? A Doutrina de Monroe lançada com festa no Rio de Janeiro foi remetida às calendas gregas e pisada com força na guerra das Malvinas e outras coisas assim. Atualmente ninguém parece mais antiamericano do que os norte-americanos, noves fora os ticanos do México... Que os latino-americanos podem fazer em nome da velha amizade entre primos ricos e pobres da cristandade no Novo Mundo? Continuar pagando, religiosamente, sem descontos ou compensação a famigerada Dívida Externa herdada da Guerra-Fria, por menos disto a Nova Inglaterra cortou laços com a mãe-pátria. Esta nova dependência financeira preventiva de surtos revolucionários nos quintais de Tio Sam, o grande irmão paga mesada aos manos de bom comportamento na escola de Chicago e mostra o Big Stike aos turbulentos da esquina global. Com espanto do mea culpa que auditores do FMI estão a fazer no caso do colapso da Argentina, pelo menos. Bons tempos eram aqueles de La Fayette e Alexis de Tocqueville, encantados com a Democracia Americana, que a sinceridade da República agitava em ambas margens do Atlântico sepultando o ancién régime... 

 Dizem, há algum tempo, especialistas independentes, entre estes a norte-americana Hazel Henderson, de 85 anos de idade, considerada em Wall Street a mulher mais perigosa do mundo, que alguns contratos leoninos ditados pelo FMI fariam corar a agiotas... Por exemplo, quando os juros vão sustentar a indústria mais poderosa e poluidora da Terra, capaz de mandar às favas o protocolo de Kyoto; e ainda azeitar a máquina de guerra, da mesma forma que petrodólares abastecem o radicalismo islâmico e empurram para um beco sem saída o Estado de Israel mergulhado em sangue e fogo junto a seus inimigos palestinos, todos imersos no mesmo inferno. Claro, um bom turista não merece isto! Quer sombra e água fresca disposto a pagar pela paz em qualquer lugar longe de confusão... Mesmo assim, muitos se arriscam a visitar lugares santos ainda que a risco da própria vida. E o Pará que tem o Círio de Nazaré poderia festejar a Paz melhor do que ninguém

 Mas, nesta meiga Amazônia da chuva e verdes mangueiras povoadas de periquitos, por meter o bedelho onde não fora chamado, o Santo Ofício silenciou  a potente voz do padre Antônio Vieira e queimou vivo na fogueira da Inquisição o vidente carismático jesuíta Gabriel Malagrida, antigos moradores do convento de Santo Alexandre mandados presos à metrópole no curso de um século um do outro. O convento de Vieira, Bettendorf e Malagrida foi transformado no belíssimo museu de Arte Sacra do Pará. Mas, que diabo vai falar disso a turistas apressados que passam pilotados por guias pouco informados sobre as velhas pedras de Feliz Lusitânia? Pesa um silêncio antigo no Forte do Castelo cercado de canhões mudos... Como diria Saramago na Viagem a Portugal viajar é mais do que se vê, é também o que se adivinha na dormência da paisagem. 

 Não admira, portanto, que seja difícil encontrar nas livrarias romances do ciclo Extremo-Norte, como é missão ingrata restaurar o Chalé de Três casas e um rio  ou introduzir o autor “maldito” de Chove nos campos de Cachoeira, nos estreitos círculos de turismo cultural na Amazônia, particularmente em sua terra natal, a ilha do Marajó. Ele que foi lançado outrora no índex de leituras perniciosas à boa consciência dos católicos paraenses; ao tempo do reverendo arcebispo dom Mário de Miranda Vilas Boas. Sabe disto quem leu o catecismo arquidiocesano dos anos 40 a 50, e tem memória do anticomunismo furioso herdado do ódio de classe aos cabanos. Cuja extinção foi paga à vista a soldados recrutados nas prisões do Nordeste, mediante apresentação de rosário de orelhas cortadas e secas como carne de sol enfiadas em cipó. 

 Quando se sentenciava, correntemente: manda quem pode e obedece quem tem juízo... O desamado “índio sutil” do Pará, no límpido dizer de seu camarada Jorge Amado da Bahia, encarcerado no presídio São José entre ladrões e assassinos não viu o pavoroso cárcere se transformar, pela alquimia do turismo, no moderno pólo joalheiro São José Liberto. Bruno de Menezes, nosso máximo poeta da negritude amazônica ficaria feliz  se soubesse que sua amada Belém do Pará se tornou cidade-irmã de Fort-de-France, capital da Martinica; onde reina soberana a poesia imortal do pai da Négritude, Aimé Cesaire, na glória de seus 95 anos de idade. O ítalo-marajoara Giovanni Gallo, o Homem que Implodiu denunciando a Ditadura da água e dando sua vida para sobrevivência do inusitado Museu do Marajó e outros “desajuizados” incorrigíveis sobrevivem agora com a tribo de quixotes da Academia do Peixe-Frito, dando vivas no Ver-O-Peso a São Benedito da Praia. Tudo isto, talvez, para salvar a rica cultura paraense de se converter na fulgurante imitação do Boi de Parintins, belo espetáculo como show p'ra inglês ver; mas, infelizmente, falso  do genuíno folclore amazônico como uma moeda de dois dólares.

 Nesse negócio, é preciso botar as barbas de molho e andar depressa, sem recuos nem descontinuidade no processo de integração. Quem possui a Amazônia tem desafio proporcional ao tamanho e importância desta região do Trópico Úmido. O verdadeiro problema não é este ou aquele governo (seja municipal, estadual ou federal) é, sim, a fragilidade da sociedade. Historicamente formada no bojo do estado-colônia e, depois de 390 anos, ainda em vias de democratização tardia. É a baixa educação política da sociedade brasileira, de modo geral; notável por ter as “melhores leis do mundo”, universidades de alto gabarito acadêmico e de resto ensino fundamental e secundário fracassantes diante da tragédia social com ameaça, em futuro próximo, de 55 milhões de favelados face ao contínuo êxodo rural e concentração de renda que nos coloca no topo do ranking do apartheid sócio-econômico à ilharga de Serra Leoa. Mas, certos analistas econômicos ansiosos do turismo-milagre, confundem defesa nacional com “antiamericanismo” e desenvolvimento econômico com exportação de matéria-prima custe o que custar... Ora, o turismo “importa” consumidores para mercados locais e mobiliza municípios para o desenvolvimento sustentável, mas também ele, se for burro, mata a galinha dos ovos de ouro. Viajar é preciso, todavia também é preciso descolonizar as mentalidades


 Portanto, uma festa supimpa como foi a Fita, precisa de reflexão acurada para dar passo seguro adiante. Sem repetir erros que, por azar, possam ter sido cometidos: só não erra quem não tenta acertar... Em suma, virar página do amadorismo para, finalmente, ingressar em fase profissional mais consistente. Haja vista o novo e necessário investimento de dinheiro público para construção do centro de eventos, prestes a terminar; que, como os equipamentos estaduais precedentes, requer gestão profissional de mercado para manutenção e remuneração do capital público empregado. Sem o que a malfadada e mal falada “muleta” governamental, em vez de estimular e dar músculos ao empresariado competente que o povo sem empregos precisa achar; daria asas a quem já nasceu descansado em berço esplêndido e não sabe ou não quer voar...

 A crítica sem autocrítica competente não tem valor, mas quanto ela por completo se faz na busca de aperfeiçoamento é instrumento indispensável de progresso. Em geral, nossos acadêmicos e técnicos de turismo têm dado ao mesmo enfoque de estudo geográfico e sociológico, porém é necessário além disto dar aos produtos embalagem de cultura e história autênticas com fundamento econômico indispensável: a cultura como indústria de “primeiro mundo” (quer dizer, ecológica e socialmente correta), o turismo como fator de efetiva distribuição de renda estatisticamente mensurada (se não, quem há de querer ser figurante pegando “ponta” de cinema, para receber e aturar a chatice de uns tantos quantos turistas “otários”, a fim de os tais experts e o chamado trade mais manjado do que urubu do Ver-O-Peso ganhar a parte do leão? Os parisienses que o digam, por exemplo...). 

 O índio de opereta que tem que pousar para fotos de arco e flecha, o “quilombola” de siá Tereza esquecido dos tempos das candeias e fugas para o mocambo, a ter que inventar conversas p'ra boi dormir; o caboclo ribeirinho prejudicado da sua sagrada hora de sesta, em risco de perder a maré... Coitadinhos, tão bonzinhos! Se não houver resultado sócio-econômico satisfatório, lá vão eles atrás de outros caminhos. Onde encontrar os “patrões” de costume, nem sempre os mais legais. Portanto, basta de “inventar moda” e rodar saia a mostrar calcinha preta a turistas que não têm nada de besta; boto cor-de-rosa, essas sandices de “carimbó de cafuso confuso”, versão regional do famoso samba do crioulo doido, como Sergio Porto dizia e fustigava burocratas regulamentadores do carnaval do Rio de Janeiro. Era dizer, vão estudar, seus malandros e deixem de enganar a gente!... O turismo é uma arma de dois gumes, como tudo na vida. É preciso fazer a coisa certa, com a cara da Amazônia de verdade.

 Esta utopia factível para o século XXI. Não adianta alguém vir me dizer que tem lá um enorme curriculum de 30 ou 20 anos de experiência na Califórnia ou na Oceania, eu quero saber quem inventará o Futuro deste mundo original em risco de se perder pela ignorância global. É chato falar disto assim, mas é absolutamente necessário nesta hora alguém bancar advogado do Diabo em homenagem a dez anos de sacrifícios, mal recompensados, laborados por todas e todos quantos, no governo ou fora dele, se esforçaram para chegar ao estuário que foi o evento da III Fita... 

 Eu não falo propriamente do turismo em si mesmo, mas sim do que essa atividade econômica (como a criação de gado, extração madereira ou o cultivo da soja) poderia fazer de bom ou ruim nesta região planetária, da qual eu não posso abdicar de minha condição humana de caboclo, genuinamente, parido e “saído do mato”, no significado da palavra caboclo. O turismo brasileiro pode ser satisfatório para atender à certa demanda, não vou discordar e nem estou discutindo isto na seara dos entendidos do métier. Entretanto, quando se trata duma região peculiar como a Amazônia (na verdade, são várias Amazônias além mesmo da geografia nacional de cada país amazônico) não se pode pegar “prato feito” comercial. A rigor, só se conhece um certo clichê feito pelo imaginário estranho à realidade amazônica. 

 Alguém pode dizer que não se deve inventar a roda, pode ser, até mesmo porque neste caso os caminhos são de água e ainda não se inventou, convenientemente, o moderno transporte fluvial amazônico e a energia maré-motriz dos engenhos dos missionários nos séculos XVII e XVIII foram abandonados com a falência da indústria canavieira, que a água demais deixava açúcar de menos, a cachaça que sobrou a concorrência da caninha paulista acabou logo na inauguração da rodovia Belém-Brasília e o rodoviarismo até o extremo-sul. Hoje não se dá passo se não for movido a petróleo. O biodiesel já vem despontando com as visões macro-econômicas de sempre, que não atendem às peculiaridades nacionais. Só nas regiões amazônicas poderíamos ter várias fontes de vegetal combustível para diferentes locais, porém não existe mentalidade  para  mercados ecológico-econômicos locais. 

Portanto, o turismo poderia dar exemplo ecológico-econômico.  Mas, nossos economistas, também eles, foram “produzidos” em série ... O petróleo que aqui não se achou no fundo da terra produziu muitos de nossos geólogos que foram cantar noutras províncias do saber tecnológico, mas não entendemos “nadinha” de energia maré-motriz, eólica, solar, etc. Quando alguém da plateia perguntou à mesa do seminário da Fita sobre uso de hidroavião a turma parecia estar diante do assunto do E.T. de Varginha (MG)... Falta, evidentemente, mais informações e a elaboração de conceito para um turismo com cara amazônica. Que não pode ser nunca o turismo de massa, mas a mais valia com espírito das antigas viagens filosóficas. Exigência, como diria o sociólogo pós-industrial Domenico De Masi, da especialização de gerentes-intelectuais.  

 Deste modo, não será surpresa se cientistas americanos inventarem bebida afrodisíaca sintética com propriedade química de açaí, guaraná e marapuama; os Emiratos Árabes Unidos ricos de petrodólares façam lá no deserto a sua “Amazônia” dos sonhos, europeus nórdicos com alta tecnologia podem se quiser inventar, lá na Islândia, uma “Amazônia” de fantasia. A Disneylândia pode gravar o canto do uirapuru e construir robôs com jeito de anaconda e curupira para lazer de seus clientes, inclusive brasileiros endinheirados. Só não podem ter aquilo que nos é próprio: a gente amazônida. Que deve ser, naturalmente, dona do negócio que mais ela entende, o ser deste mundo do sol e da chuva. E, portanto, não deve ficar esperando nenhum Godot com saco de benefícios do “desenvolvimento” padrão. Descolonizar é preciso, globalizar não é preciso.

 Desfigurar a cara amazônica é o que eu chamo matar a galinha dos ovos de ouro. Disse uma vez um filósofo, “vi um rei que estava nu, o espetáculo não foi grande coisa”, do mesmo modo posso dizer que vi um caboclo vestido como lorde a servir à exigência da clientela de hotel de luxo (com seus colegas levava para casa ao fim do serviço sobras de peixe que o pai pescador vendia ao marreteiro a preço de banana), deu-me pena... Marcos Terena, o grande líder indígena brasileiro com atuação na ONU, inclusive; disse recentemente em público no Museu Goeldi que já teve vergonha de ser índio e que, perguntado algumas vezes sobre sua etnia, fazia-se passar por “japonês”... 

 Que me desculpem os felizes donatários do país do pau-brasil, os experts do imaginário alheio e grandes teóricos do mercado turístico diplomados e pós-graduados mundo afora, mas transparência e autenticidade é fundamental no negócio do futuro. Não vale vender gato por lebre, com custos socioambientais escamoteados das contas-correntes. Todo mundo sabe, na ilha do Marajó, que a criação de búfalos em regime extensivo de latifúndio é antissocial e anti-ecológica, por demais. Pelo contrário, a produção familiar associada a grandes fazendas autorizadas por selo de qualidade de responsabilidade socioambiental – com credibilidade oficial nacional e internacional comprovada de turismo rural –  seria uma saída ao problema e uma enorme revolução econômica, de acordo com a filosofia do ZEE estadual elogiada por todos conhecedores. A Polícia Militar demonstra a extraordinária capacidade de adaptação desse dócil , laborioso e inteligente animal; ou tremendo predador selvagem respondendo às condições com que for tratado no rústico ambiente da foz do Amazonas.

 Na Fita, por exemplo, búfalos amestrados e soldados bem qualificados (inclusive, alguns deles com escolaridade superior, treinamento e vocação para a missão) deram show à parte em demonstração de adestramento e exotismo da polícia montada, que encantou a visitantes estrangeiros e nacionais, como também ao público local em geral. Foi uma graça ver a criançada feliz brincando e se divertindo tão bem com os “perigosos” animais, desmistificando aquela imagem ruim que foi formada pelo manejo errado. Era preciso a mídia informar que o uso de búfalos como montaria policial foi uma feliz ideia do coordenador do GDM, o marajoara Theo Azevedo; que outrora com base em sua própria experiência a sugeriu à PM para policiamento ambiental no Marajó. Hoje, o coronel Dorado (homem certo no lugar certo) valoriza o uso de búfalos no policiamento, com carinho e mantém com desvelo essa imagem como inteligente marquetingue da corporação. 

 Mas, infelizmente, ainda não se achou interesse de tour operation com criatividade bastante para transformar essa atração marajoara, tão popular como o carimbó, em produto turístico. Agregado à franquia, talvez, de exportação de carne em agropecuária familiar capaz de contribuir à melhoria do IDH marajoara, como o ex-deputado Adenauer Góes propôs outrora em pronunciamento na tribuna e escreveu artigo de imprensa. Inventar turismo na Amazônia não deve ser brincadeira nem negócio como outro qualquer. Também não é bicho de sete cabeças, o obstinado médico ortopedista Adenauer Góes, fanático torcedor do Paysandu Sport Club e tucano que não fica em cima do muro; todavia leal companheiro e conciliador de gregos e troianos; mais que provou a assertiva com sua equipe na PARATUR. Na Amazônia, naturalmente, turismo não é atividade-fim; mas meio para o desenvolvimento sustentável, que requer conservação do habitat das águas e de floresta sem falsificações nem fantasias de santuarização. Com a indispensável aliança solidária das populações tradicionais, estas sim – perante o Brasil e o mundo – a última finalidade da civilização do Trópico Úmido, desde a arte primeira da Amazônia (inventada na ilha do Marajó) de 1500 anos de idade (conforme a ciência atesta através da antropologia cultural). Sem a estrita observância dos fundamentos humanos pré-colombianos, todo turismo nesta região será equivocado: donde a responsabilidade da Universidade amazônica que a UNAMAZ, em parceria estratégica com a OTCA, representa em toda linha

 O turismo amazônico reclama profundo respeito pelo ritmo da Evolução, sem o que não será possível inaugurar a nova economia nestas bandas do planeta... Eu falo do espírito das viagens. Algo que faz com que um viajante (mais que simples usuário de pacotes turísticos) saia do conforto de seu apartamento em Nova Iorque, Tóquio ou Paris para se aventurar a uma ilha deserta na distante imensidão do Pacífico a fim de passar uma única noite no lugar onde surgiu a história de Robinson Crusoe, por exemplo. Por isto, esse viajante solitário está disposto a pagar cerca de US$ 2,000.00  por essa oportunidade única em uma vida inteira. Quanta gente pagaria para experimentar o Marajó profundo de que escreveram, João Viana, Giovanni Gallo, Dalcídio Jurandir com gênio de escritor universal? Quem não gostaria de conhecer um contador de estórias da importância de mestre Juvêncio, que no próximo mês de novembro completa 100 anos, inteiro (ou quase); quanto vale uma demonstração de chula pelo seringueiro Agostinho Batista, companheiro marajoara de Chico Mendes? Um Marajó que se esquiva de propaganda, como pajés sacacas (autênticos) avessos à fama e proibidos de receber dinheiro em pagamento do dom dos caruanas). De que modo se há de pagar os préstimos de um verdadeiro pajè? Amando a sua terra, protegendo suas crianças, respeitando a velhice e a mãe-natureza. É só. Por que isto custa tanto praticar? Por que falta uma verdadeira Educação para a convivência com a alteridade.

 Um turismo inteligente será, sobretudo, educativo na prática como a velha maiêutica socrática, na escola das viagens professada por Rousseau.  No qual a relação custo-benefício é duplamente vantajosa para quem viaja e para quem recebe o viajante, por uma mais valia que está além do valor monetário combinado. Sem  horrível massificação em busca de dólares a qualquer custo, às vezes vendendo gato por lebre e lendas do arco da velha, carimbó de segunda categoria. Quando não a própria alma ao diabo do turismo sexual e o tráfico de pessoas, cujas conexões atravessam fronteiras e enfrentam barras mais pesadas. Neste jogo de cobras e lagartos, como diria Nelson Rodrigues, toda inocência será castigada.

José Varella, da ong Universidade Livre Marajó-Amazônia (Unilivre-MAM), www.unilivre.org

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Uma hipótese provável para explicação do nome "Marajó".



A popular Paxiuba (nome científico Socratea exorrhiza), com a qual índios de etnias Aruak nas ilhas do estuário amazônico -- chamados pejorativamente Nheengaíbas, falantes da "língua ruim" por oposição à boa língua Nheengatu -- fabricavam zarabatanas, antigamente, para atirar dardos envenenados e se defender de inimigos canibais na guerra ou na paz caçar na floresta. Estaria neste fato capital, ocorrido muitas vezes em pelejas mortais dentro do mato, a fama de "homem mau" (Marajó) atribuída aos bárbaros guerrilheiros ilhéus em luta contra o "bom selvagem" na conquista do rio da Amazonas?



Esta é uma curiosa palmeira amazônica que "anda" quando há necessidade de sobreviver na lei da selva. Ela está representada na coleção botânica do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emilio Goeldi, em Belém, porém lá mesmo existe uma outra espécie de palmeira que também "anda"... Esta última é a vedete do reino vegetal no parque (a Caiuê, chamada Dendê do Pará, nome ciêntífico Elaeis oleifera) a qual mereceu observação entusiástica do escritor Stefan Zweig, na obra "Brasil, País do Futuro", quando ele esteve em Belém e visitou o museu. 

No que concerne à elegante Paxiuba, segundo pesquisadores, com a adaptação de suas raízes ao ecossistema ela tem possibilidade de mudar-se de áreas alagadas ou sair da sombra de outras árvores emitindo novas raízes em direção mais favorável de iluminação e solo enquanto suas raízes mais velhas apodrecem e se dissolvem ao chão adubando o terreno à semelhança da espetacular Caiuê movida por energia solar (sic), pra frente e para o alto. Ambas espécies são atrativos do turismo científico amazônico na rota de viajantes e naturalistas dos séculos passados. Louvados sejam Darwin e, mais vivamente, Wallace que palmilhou a Amazônia e passou um par de tempo na ilha Mexiana e na contracosta do Marajó.

Da estipe da Paxiúba populações ribeirinhas extraiam largas tábuas, como mantas semelhantes à madeira compensada industrial de hoje, com que forravam assoalhos de juçara em barracas cobertas de palhas de ubussu sobre palafitas. Nesta rústica arquitetura os cabocos costumavam fazer a "mucura" (nome comum de um marsupial amazônico e festa ligeira improvisada na comunidade), contam os antigos que devido ao longo do tempo o assoalho de paxiuba ficava polido, sobretudo com o frequente arrasta pé dos dançantes. Pode ser.

Segundo fontes jesuíticas do século XVII citadas pelo historiador Serafim Leite, em "História da Companhia de Jesus no Brasil", eram feitas de paxiuba as zarabatanas que os Nheengaíbas usavam para lançar dardos envenenados sobres seus inimigos. O uso de técnicas de guerrilha com emboscada e zarabatana com dardos envenenados de curare é uma característica de povos originais do circum Caribe, incluindo Marajó, podendo ser encontrados até o Acre e o Pantanal mato-grossense.  

Estes usos e costumes belicosos fizeram estas diversas etnias aruaques temidas por seus inimigos num enorme espaço territorial, que vai do Rio Negro às Antilhas e volta sobre terra firme, através da ilha da Trinidad e Tobago, para ocupar as Guianas sempre em luta com o inimigo hereditário Kalina ou Galibi passando pelo Marajó ao Salgado, Alto Amazonas e Pantanal. No Marajó, a fama de "mau" selvagem coube mais prontamente aos Aruãs e seus parentes próximos Anajás, cujo preconceito passou a seus descendentes caboquizados durante o famigerado Diretório dos Índios (entre 1757 e 1798), ao termino do qual todos indígenas das ilhas foram declarados "extintos" e considerados "civilizados" para todos efeitos. 

Mesmo a arqueologia ainda é desfavorável aos bárbaros da fase Aruã, vistos na literatura especializada como uma das prováveis causas de ruína da magnífica fase Marajoara (afinal de contas sem que se saiba quem de fato foram estes criadores da Arte primeva brasileira)... Na verdade, os pesquisadores ainda parecem engatinhar na matéria e o povo desconhece quase tudo, malgrado tentativas como a do notável padre Giovanni Gallo, contra vento e maré contando apenas com "cacos de índio", para democratizar o conhecimento do longo passado dos marajoaras (ver Giovanni Gallo, "Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara", prefácio da arqueóloga Denise Shann, edição do Museu do Marajó). 

Em fragmentos da extinta língua aruã coletados pelo fundador do Museu Paraense Emilio Goeldi, Domingos Soares Ferreira Penna, tivemos a notícia remota de que estes marajoaras "malvados", eles mesmos, chamavam a sua ilha de Analáu Yohynkáku. Segundo o navegador espanhol Pinzón, que esteve em Marajó antes de Cabral na Bahia, os nativos da ilha donde ele arrancou 36 "negros da terra" (escravos indígenas, provavelmente Aruãs) a chamavam "Marinatambalo" (com este nome Dalcídio Jurandir, na vila de pescadores de Salvaterra, em 1939, escreveu o romance "Marajó", que se chamou provisoriamente também "Missunga").


Já as armas preferenciais dos Tupi-Guarani eram arco e flecha e o tacape. O sagrado tacape da antropofagia ritual chamava-se porantim, usado somente em solenidades para sacrifício do guerreiro inimigo capturado em luta entre iguais, o vencedor do combate oferecia a carne e o sangue do herói morto a seus convidados a testemunhar o glorioso feito. Já sabemos que a religião dos tupinambás vedava comer carne de covardes que eram imediatamente soltos e enxotados para longe das aldeias para não as contaminar de fraqueza. 

O vencedor não comia nada durante o banquete antropofágico reservando tão só para si, entretanto, o nome do inimigo invejado: desta maneira mágica as virtudes do guerreiro morto se somavam às do sobrevivente. Havia muitos tupinambás que ostentavam muitos nomes conquistados em luta no terreiro da aldeia. 

Na historiografia amazônica, embora a presença da grande nação Tupinambá aliada aos portugueses seja incontornável, na margem oposta a resistência armada dos invencíveis Marajós à conquista do rio Babel (cf. José Ribamar Bessa Freire) ou das Amazonas permanece quase apagada ou comparece de maneira negativa, exclusivamente como amigos de estrangeiros concorrentes dos colonizadores ibéricos. No caso emblemático de Ajuricaba, acusado de colaborar com os holandeses da Guiana, Joaquim Nabuco lhe fez justiça defendendo a sua memória. Todavia, no caso do cacique aruã Guamá tendo ele comportamento semelhante ao de seu parente manauara; ainda seu nome permanece na sombra dos arquivos coloniais como reles bandoleiro acamaradado a traficantes franceses. No mínimo, a gente deveria saber que para prender o cacique Guamá, vivo ou morto, seguiu a tropa guarda-costa debaixo de comando do sargento-mor Francisco de Mello Palheta até a Guiana francesa voltando sem o índio, mas com o café furtado de Caiena. Prenúnio de que a fronteira do Oiapoque havia mais coisas em comum do que contrabando.

Na verdade, a "gentilidade aruaca", como escreveu o historiador e amazonólogo Arthur Cezar Ferreira Reis; constitui a massagada avoenga chamada Tapuia, duma antiguidade dos primeiros tempos desta região. Donde, segundo a arqueologia marajoara, provém de grupos nômades de há mais de 5 mil anos de perambulação pelas margens dos rios e beira-mar até invenção da Cultura Marajoara, cerca do ano 400 da era cristã, na ilha do "homem malvado" chamado Marajó: primeira civilização da Amazônia pelos próprios amazônidas.

guerreiro aruaque lançando dardos com zarabatana: imitação da natureza mortal de cobras e vespas venenosas
(o nome do cacique dos Manaus, o célebre Ajuricaba, por exemplo, significava "mutirão de cabas", vespas).

A paxiubeira pode crescer até 25 metros de altura e, sem dúvida, ela é uma bela palmeira da hileia amazônica na paisagem cultural marajoara. Podia ser declarada em nosso patrimônio como árvore símbolo da resistência da brava gente marajoara contra a invasão do território ancestral dos Nheengaíbas, finalmente doado graciosamente pelo rei de Portugal Afonso VI a seu ministro de estado, Antônio de Sousa de Macedo, como capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665-1757), mãe de todas sesmarias do Marajó. 

 o nome Marajó em questão
 
Em meu primeiro ensaio "Novíssima Viagem Filosófica" (ver Revista Iberiana: Secult, Belém, 1999) comentei a conhecida tradução do tupi Mbarayo para "Marajó" colocando em dúvida se este topônimo significasse, verdadeiramente, "barreira do mar". Já sabemos que a desinência "" passando a "" em português, provém do tupi antigo "yu", na acepção de gente, família e povo. Então, onde entra a tal "barreira" se "marã" se refere àquilo que é ou causa mal? Todos estudiosos da cultura Tupinambá (não há dúvida de que foram tupinambás que deram o nome histórico da maior ilha fluviomarinha do planeta) são praticamente unânimes em reconhecer o apurado conhecimento geográfico dos tupinambás sobre a extensa área que eles percorreram, de sul a norte, em busca da utopia selvagem conhecida por "Yby Marãey" (terra sem mal, "marã", mal; e "ey" negativo da coisa dita). 

Logo, num arquipélago tão vasto, do tamanho de Portugal, a "barreira" em causa estaria bem longe da Contracosta para o mar aberto: ela, evidentemente, era uma barreira à marcha guerreira dos Tupinambás e não à entrada das marés oceânicas... E o "mar" dos tupinambás era o rio Pará ("pará-Uaçu", "grande mar" traduzido corretamente à língua portuguesa como "Grão-Pará" e que hoje resta na língua popular paraense sendo o rio Parauaú (rio de Breves, ou Furus de Breves, o mesmo que rio Pará-Açu, grande). A avançada conquistadora dos tupinambás na terra Tapuia ("Tapuya tetama"), chamada Maranhão e Grão-Pará pelos portugueses; deu-se em pinça: pela costa do Salgado e sertão adentro varando as barrancas do Tocantins abaixo.

Se da ponta da Tijioca pelo Pará acima, o porto do sol (Araquiçau / arakixawa, lugar onde o sol ata rede para dormir) atiçava a imaginação dos pajés-açu ou caraíbas ("senhor ruim", capaz de causar a morte com um simples mau olhado) lhes prometendo o achado da ambicionada "terra sem mal" seguindo o poente para o Cabo Norte (Amapá). Pelo lado do Baixo Tocantins, o Abaeté ("homem verdadeiro", ou seja o Tupinambá) via o sol sentar para as bandas do Amazonas além Xingu. Mas, aí por dentro das ilhas, o conquistador topava pela frente o índio matador, de língua e costumes estranhos; guerrilheiro nato que atacava de emboscada e dava morte súbita com mais precisão e terror que a temida Jararaca escondida entre árvores. Eis, sim, a verdadeira "barreira", o "malvado" armado de zarabatana de paxiuba e  dardos de talo de patauá embedido de curare.

Este terror antigo retardou a conquista do Amazonas até a chegada dos portugueses, visto que a amizade entre franceses e tupinambás no Maranhão durou pouco.  As respeitadas fontes jesuíticas, ademais, informam: o rio "MarajoGuassu" [Marajó-Açu] deram nome a toda ilha. Nascendo nos campos da grande ilha do estuário, o rio Marajó banha o município de Ponta de Pedras e vem desaguar na baía do mesmo nome. Não se trata nem de mar nem de barreira. Se, como me parece, "marãyu" é o malvado que barrava a entrada do "bom selvagem" àquele rio por onde saiam os guerreiros Aruãs, vindos de muito longe, para atacar aldeias dos tupinambás na margem oposta, os velhos marajoaras tem muito a contar sobre os usos da Paxiuba e o Patauás na história desta ilha filha da Cobragrande.

sábado, 18 de janeiro de 2014

Que seria dos ricos se não existissem pobres?




Era uma destas tardes enormes de Tapiré onde, paresque, a quentura da terra faz a distância dos caminhos tremer e se espichar debaixo do sol de meio dia em diante. Depois da sesta adubada pelo vinho de açaí no almoço, seu Joaquim Goiaba saiu de casa na hora de costume com seu chapelão de carnaúba de aba larga abanando o calorão e foi abrir o comércio. O relógio da igreja bateu três horas em ponto... O homem era de uma pontualidade impressionante. Aquela rotina de anos a fio indo e vindo pela travessa principal da vila entre o comércio na rua da frente e sua moradia com a família à esquina da terceira rua. Ele caminhava com solenidade como se fosse cumprir horário inadiável embora nada tivesse pressa pra coisa nenhuma em Tapiré. A cada passo as abas do sombreiro do rico comerciante balançavam curiosamente inventando uma brisa para espantar o calor. O sol deveras estava muito quente naquela tarde de verão e a maré cheia convidava a um mergulho no rio antes de começar a atender à freguesia. De modo que o homem apenas abriu uma banda da porta para entrar e pegar o velho calção de banho saindo para o banheiro na beira do rio, que existia na cabeça do trapiche.

Seu Joaquim encostou a porta da taberna e reparou que o comerciante vizinho e amigo seu Jiló Pontes já havia aberto o comércio ao lado deixando o caxeiro e sobrinho dele, Roberto, a tomar conta do estabelecimento enquanto o dono ia, um instante, mergulhar na água morna do rio como de costume. Os dois compadres ficavam de molho, que nem dois búfalos na manha para se defender do mormaço; deixando o tempo escoar e a quentura passar jogando conversa fora. Lá pelas horas tantas os fregueses que vinham dos sítios próximos começavam a chegar e os dois voltavam pela ponte, toalha ao ombro, corpo pingando água pela pança balofa, calçando tamancos... Foi aí já perto que o rapaz na ponta no balcão sentado sobre um tamborete na sombra pra se esconder do sol que entrava pelas portas escutou o tio patrão, lá dele; chegar dizendo ao colega: "Que seria de nós se não existissem pobres?"...

Aos ouvidos de Roberto a frase soou como uma revelação. Puta merda!... O rapaz pensou lá com seus botões. Ali estava o segredo da prosperidade: a pobreza de muitos é a mãe da riqueza de poucos escolhidos... Sobrinho da mulher de seu Pontes o rapaz era, de fato, muito esforçado para aprender de um tudo a fim de melhorar de vida. Órfão de pai canoeiro, que não conheceu, desde cedo teve ele que se virar pra ajudar a mãe a criar seus irmãos menores. Há várias gerações, de maneira nenhuma a pobreza fora estranha à família de Roberto da Silva. 

O casamento da tia Mindota com o rico comerciante de Tapiré foi a salvação da família inteira... Ainda mais que o casal não havia filhos e assim o sobrinho ficou sendo afilhado. Mas, na verdade, o rapaz sentia-se como um criado explorado e mal pago. Como tal, invejava o tio patrão e dele queria aprender a arte da fortuna. Ali estava, sem mais nem menos, a primeira grande lição que Roberto teve na vida. Qualquer outro pobre no lugar dele ouvindo uma coisa explosiva dessas iria querer ser inimigo mortal dos ricos. Não o caixeiro da casa comercial de Jerônimo Pontes, moço caprichoso que decidira a entrar para o lado da riqueza. Uma coisa, porém, é saber o que se quer e outra diferente é fazer o que é preciso. Roberto pensava, tem gente que sabe até demais da conta. E outras que fazem sem saber, de qualquer maneira. Ele queria ambas coisas pelo visto.

 Desde aquela tarde Roberto começou a se interessar pela história de cada rico ou arremediado de Tapiré. Compreendeu, por exemplo, que os maiorais do lugar eram herdeiros de fazendeiros, donos de engenho, serrarias e olarias... Com rara exceção, tais propriedades estavam decadentes desde a abolição da escravatura ou a queda da borracha e a pobreza avassalava de tal maneira que quem se dizia rico, na verdade, não passava de remediado. Quem não foi herdeiro de nenhum proprietário começou a vida como marreteiro e se houve sorte foi subindo... O rapaz achou um caso particular, raríssimo ali, de um filho do lugar que ganhou na loteria e com o prêmio comprou boteco e uma canoa freteira com que escapou da desalentada pobreza de Tapiré. Então, Roberto concluiu: quem não receber herança, ganhar na loteca ou roubar coisa que preste jamais será rico nesta vida.

Roberto era esperto. Sabia ele que não tinha herança nenhuma a receber, não acreditava na sorte grande e também não queria correr risco de ir parar na cadeia por roubo. Só uma coisa ele decidiu, que não restaria pobre para sempre. Que fazer, então? Devoto da santa padroeira de Tapiré, acreditava que Deus disse faz tua parte que eu te ajudarei... Assim só pedia a Deus vida e saúde. Sempre com a frase do tio patrão na cabeça, cogitou sobre como chegar a ser rico. Pouco a pouco a arte de furtar, legalmente, foi se desenhando em sua mente. Agora sim! Nosso aprendiz estava bem decido! Mas, se enojava com a vulgar ideia de começar por baixo como reles marreteiro, conforme consta, fora começo da riqueza de seu Joaquim Goiaba, um antigo morador da vila que foi honrado marreteiro durante a mocidade e fez capital depois de velho. Procurou saber mais, através de sua mãe e da tia Mindota, a história do padrinho Jiloca eleito desde cedo como seu modelo de vida.

Ora, Jerônimo Pontes, por apelido Jiloca, apareceu um dia em Tapiré como caixeiro viajante. Procurou a quem vender as mercadorias que trazia como preposto duma certa casa aviadora. Não achando comerciante estabelecido, conversou com o prefeito Everdoza e com o vigário padre Eurico, que o incentivaram a se estabelecer no lugar. O vigário piscou um olho e disse ademais, temos aqui algumas moças solteiras. O caixeiro viajante não disse, nem lhe foi perguntado, se era casado ou não. Com pouco tempo engatou namoro com Domingas da Silva, mais conhecida na paróquia como Mindota. Logo estava com casa de comércio na praça e atendia os íntimos pelo gentil apelido de Jiló. E foi com o padrinho Jiló que Roberto da Silva se pegou a fim de realizar seu plano de fugir da pobreza...

Primeiro carecia cativar, a palavra certa é essa; seu quinhão de pobres pra ficar seus fregueses. Ora, nenhum comerciante começa com os fregueses, mas os fregueses a ser cativados é que tem que começar a dar lucro ao comércio. O pulo do gato é o tal capital inicial. E aí foi que Roberto da Silva teve que provar a si mesmo que seria capaz de conseguir sócio capitalizado para começar o negócio. Quem melhor que o tio patrão? Claro que Jiló não fazia adeus pra não abrir a mão... Mas, tendo tia Mindota como advogada a coisa era meio caminho andado. Sim, Jiló Pontes não perderia ocasião de fazer sermão ao neófito... Olha lá rapaz no que tu vais te meter... Olha essa gente não é brincadeira! Só eu sei quanto fiado já perdi... Eu sei, padrinho; dizia Roberto humildemente (com vontade de dar uma banana ao velho por suas patifarias)... Eu sei, mas veja bem. Eu aqui já lhe ajudo. E se o senhor me ajudar a abrir uma baiuca lá pra trás, o pessoal que mora longe pode ir lá comprar no meio do caminho como se fosse uma filial...

Roberto sabia que por trás do tio havia uma casa aviadora na cidade com quem ele repartia o apurado como qualquer outro marreteiro montado no cangote dos fregueses. Jiló não escondia uma ponta de vaidade por ter ensinado o pulo do gato ao afilhado. Mas, só por fingimento dizia a mulher, só por tua causa Mindota, só por tua causa... Assim, na própria casa de sua mãe Roberto da Silva fez uma puxada onde abriu a "Quitandinha de Tapiré". No começo ele roeu um osso... Não podia se arriscar e por isso colocou aviso na prateleira FIADO SÓ AMANHÃ... Sem vender fiado àqueles pobres da rua detrás a coisa ficava difícil. Mas, o caminho da riqueza paresque requeria muita paciência e constância. Bom de conversa, o Roberto botava cadeira à porta para o pessoal dar uma descansada na caminhada. Um copo d'água e cafezinho de graça, uma piada sem compromisso. Logo a rapaziada desempregada ia bater papo na porta da "Quitandinha", divagar, meteu o pau na política, fofocas mil, planos para o futuro... Tudo fiado na amizade do quitandeiro. E aí um maço de cigarros, uma lata de sardinha pra quem não pescou nada e ganhou um trocadinho de carreto; um quilo de farinha, aspirina, biotônico Fontoura; carretel de linha... Aquela gentinha foi passando os cobres devagar. Rápido o Roberto aprendeu a força do escambo. O seguinte, camarada vem da estrada com paneiro de farinha pra vender... Pede tanto, o comerciante pede desconto. Aí o lavrador compra o café, sal, açúcar... Encontram-se as contas DEVE e HAVER... Aí o saldo fica pendente para a eternidade. Fechar a conta é o mesmo que declarar a guerra. E portanto Roberto ficou rico e é tido pela gente como amigão do peito.




terça-feira, 31 de dezembro de 2013

CARTA À PRESIDENTA

pintura moderna sobre arquétipo da grande mãe:
teoria Gaia, a mãe Terra, Pachamama.



BREVE INICIAÇÃO AO CONHECIMENTO DO ETERNO FEMININO:
O ESSENCIAL DA CULTURA MARAJOARA.


"Mulheres curadoras" por Mani Alvarez. " Erveiras, raizeiras, benzedeiras, mulheres sábias que por muito tempo andaram sumidas, ou até mesmo escondidas. Hoje retornam com um diploma de pós-graduação nas mãos e um sorriso maroto nos lábios. Seu saber mudou de nome. Chamam de terapia alternativa, medicina vibracional, fitoterapia, práticas complementares…são reconhecidas e respeitadas, tem seus consultórios e fazem palestras. As mulheres curadoras fazem parte de um antigo arquétipo da humanidade. Em todas as lendas e mitos, quando há alguém doente ou com dores, sempre aparece uma mulher idosa para oferecer um chazinho, fazer uma compressa, dar um conselho sábio. Na verdade, a mulher idosa é um arquétipo da ‘curadora’, também chamada nos mitos de Grande Mãe. Não tem nada a ver com a idade cronológica, porque esse é um arquétipo comum a todas as mulheres que sentem o chamado para a criatividade, que se interessam por novos conhecimentos e estão sempre a procura de mais crescimento interno. Sua sabedoria é saber que somos “obras em andamento’, apesar do cansaço, dos tombos, das perdas que sofremos… a alma dessas mulheres é mais velha que o tempo, e seu espírito é eternamente jovem. Talvez seja por isso que, como disse Clarissa Pinkola, toda mulher parece com uma árvore. Nas camadas mais profundas de sua alma ela abriga raízes vitais que puxam a energia das profundezas para cima, para nutrir suas folhas, flores e frutos. Ninguém compreende de onde uma mulher retira tanta força, tanta esperança, tanta vida. Mesmo quando são cortadas, tolhidas, retalhadas, de suas raízes ainda nascem brotos que vão trazer tudo de volta à vida outra vez. Por isso entendem as mulheres de plantas que curam, dos ciclos da lua, das estações que vão e vem ao longo da roda do sol pelo céu. Elas tem um pacto com essa fonte sábia e misteriosa que é a natureza,. Prova disso é que sempre se encontra mulheres nos bancos das salas de aula, prontas para aprender, para recomeçar, para ampliar sua visão interior. Elas não param de voltar a crescer… Nunca escrevem tratados sobre o que sabem, mas como sabem coisas! Hoje os cientistas descobrem o que nossas avós já diziam: as plantas têm consciência! Elas são capazes de entender e corresponder ao ambiente à sua volta. Converse com o “dente-de-leão” para ver… comunique-se com as plantas de seu jardim, com seus vasos, com suas ervas e raízes, o segredo é sempre o amor. Minha mãe dizia que as árvores são passagens para os mundos místicos, e que suas raízes são como antenas que dão acesso aos mundos subterrâneos. Por isso ela mantinha em nossa casa algumas árvores que tinham tratamento especial. Uma delas era chamada de “árvore protetora da família”, e era vista como fonte de cura, de força e energia. Qualquer problema, corríamos para abraçá-la e pedir proteção. O arquétipo de ‘curadora’ faz parte da essência do feminino, mesmo que seja vivenciado por um homem. Isso está aquém dos rótulos e definições de gênero. Faz parte de conhecimentos ancestrais que foram conservados em nosso inconsciente coletivo. Perdemos a capacidade de olhar o mundo com encantamento, mas podemos reaprender isso prestando atenção nas lendas e nos mitos que ainda falam de realidades invisíveis que nos rodeiam. Um exemplo? Procure saber mais sobre os seres elementais que povoam os nossos jardins e as fontes de águas… fadas, gnomos, elfos, sílfides, ondinas, salamandras… As “curadoras’ afirmam que podemos atrair seres encantados para nossos jardins! Como? Plantando flores e plantas que atraiam abelhas e borboletas, gaiolas abertas para passarinhos e bebedouros para beija-flores. Algumas plantas ‘convidam’ lindas borboletas para seu jardim, como milefólio, lavanda, hortelã silvestre, alecrim, tomilho, verbena, petúnia e outras. Deixe em seu jardim uma área levemente selvagem, sem grama, os seres elementais gostam disso. Convide fadas e elfos para viverem lá. Este artigo foi publicado pelo Jornal 100% Vida de maio/2012 por Mani Alvarez * Coordenadora do curso de pós-graduação em Práticas Complementares em Saúde — com Gailesh Bruna e outras 4 pessoas.

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POST SCRIPTUM

Excelentíssima Senhora Dilma Vana Rousseff,
Presidenta da República Federativa do Brasil.
 
Com a liberdade oferecida pela rede mundial de computadores e garantia da Constituição-Cidadã a todos brasileiros e brasileiras, dirijo-me à Presidenta da Nação por este meio, revolucionário segundo diz o filósofo Pierre Levy em sua teoria da consciência coletiva.
 
Significa dizer que eu não falo por mim enquanto indivíduo. Nada tenho a dizer nem esperaria que uma mensagem estúrdia como esta, a exemplo de tantas outras tais como garrafa de náufrago nunca chegaram a boa praia e tiveram resposta. Todavia, desta vez, talvez a mensagem da ilha dos marajós tenha 0,01% de chance de aportar no Palácio do Planalto e sensibilizar alguém do terceiro ou quatro escalão burocrático. Alguém, por acaso, que a curiosidade acenda uma luz de consciência e conecte alguns de seus neurônios a milhões e milhões de outros neurônios da Noosfera (*), particularmente a Criaturada grande de Dalcídio Jurandir (populações tradicionais amazônicas)
 
Pessoalmente, dou graças à vida que me tem dado tanto. Entretanto, sinto o angustioso dever de interpretar os sentimentos de tantos parentes ilhados na maior "ilha" fluviomarinha do planeta. Esta gente devia estar agradecida aos senhores e senhoras da república federativa. Sobretudo pela regularização fundiária de terrenos de marinha pela qual servos da gleba, descendentes das tribos extintas do Diretório dos Índios, tiveram expectativa do reconhecimento de seus direitos derivados da espoliação dos antigos Nheengaíbas pelo estado colonial do Maranhão e Grão-Pará. 
 
Mas, o diabo é que esta gente à margem da História espancada pela Pobreza pelas beiras de rios e igarapés vive insegura e cheia de medo que tudo isto seja um sonho e vá acordar um dia pra morrer na praia. Ou acabar desterrada, por ordem dos "donos", a uma invasão de subúrbio em Belém ou Macapá. O cruel problema desta gente que o mundo esqueceu é o fato de que Brasília é longe das regiões amazônicas e Belém do Pará não quer saber da outra margem do rio...
 
A gente agradece ao Lula por ter vindo nos ver em Breves, brevemente, e lançar o "Plano Marajó" em 2007 e tudo mais que se seguiu. A esperança venceu o medo. Porém não é segredo que o Plano não zarpou como era esperado e até hoje está parado no que diz respeito a mais de 500 comunidades locais ilhadas. E a gente acreditava que com a Dilma por madrinha do Marajó os 120 Territórios da Cidadania entrariam na ordem do dia do desenvolvimento socioambiental brasileiro, sendo o Território da Cidadania - Marajó uma vitrine do programa nacional. A gente imagina que segundo relatórios oficiais na Esplanada dos Ministérios tudo vai nos conformes... Só que na beira dos igarapés a história é outra e o réveillon ainda é a poronga à espera da maré onde canta a saracura. Banda larga é espingarda de dois canos em busca das últimas caças no mato, o Mais Médicos está certo. Mas não se pode dispensar o pajé e o Bolsa Família é a tábua de salvação, todavia só a EDUCAÇÃO será a solução se a dita cuja ensinar caboco, além de pescar, a "plantar" o peixe nosso com açaí de cada dia.
 
É claro que onde a lenda faz morada, não custa nada crer que a Dilma fosse ser nossa madrinha. Pois, não foi o tal "Plano Marajó" concebido e nascido na Casa Civil da Presidência, filho do GEI-MARAJÓ, tendo Dilma Roussef como parteira desta antiga esperança da gente marajoara?
 
Na verdade, a brava gente marajoara já disse tudo que tinha a dizer desde 1500 anos passados. Pensem bem! O "descobrimento" do Brasil nem havia acontecido... Rios de tinta e montanhas de papel foram gastos por muitos para dar o recado da amazonidade ribeirinha. Só falta o Gigante acordar e escutar nosso grito aflito. 
 
E aí, Presidenta, vai tocar pra valer o "Plano Marajó" pra frente tal qual rebocador possante do desenvolvimento humano sustentável da Criaturada grande de Dalcídio?
 
(*) A Noosfera pode ser vista como a "esfera do pensamento humano", sendo uma definição derivada da palavra grega νους (nous, "mente") em um sentido semelhante à atmosfera e biosfera.
Na teoria original de Vernadsky, a noosfera seria a terceira etapa no desenvolvimento da Terra, depois da geosfera (matéria inanimada) e da biosfera (vida biológica). Assim como o surgimento da vida transformou significativamente a geosfera, o surgimento da conhecimento humano, e os conseqüentes efeitos das ciências aplicadas sobre a natureza, alterou igualmente a biosfera.
No Conceito da Noosfera do filósofo francês Teilhard de Chardin, assim como há a atmosfera, existe também o mundo das idéias, formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. Seguindo esse pensamento, alimentamos a Noosfera quando pensamos e nos comunicamos. A partir de então, o conceito de Noosfera foi revisto e consequentemente sendo previsto como o próximo degrau evolutivo de nosso mundo, após sua passagem pelas posteriores transformações de "Geosfera", "Biosfera", "Tecnosfera" (temporária e em andamento) e então Noosfera. A transição da biosfera de uma ordem inconsciente de instinto para a ordem superconsciente de telepatia é uma função da Lei do Tempo e é denominada transição biosfera–noosfera. A transição biosfera-noosfera é o resultado direto do aumento exponencial de complexidade biogeoquímica e a conseqüente liberação de “energia livre” devido à aceleração da transformação termo-químico-nuclear dos elementos.