sábado, 16 de janeiro de 2016

ARTE MARAJOARA CONVERSA COM O MUNDO.





Segundo Dalcídio Jurandir, o caboco marajoara é cidadão do mundo. Todavia, o cidadão em questão já se queixou ao bispo, pediu socorro ao presidente da república e só falta agora levar os seus protestos junto ao Papa e à ONU na última esperança da Agenda 2030, pra valer! O 'índio sutil' Dalcídio e o marajoara que veio de Turim fazer no Marajó o museu mais improvável do mundo, padre insubmisso ao bispo mandão, Giovanni Gallo, já morreram. Porém, toda vez que o dilúvio cai em cachoeira sobre os campos do Marajó a vida renasce em todo o maior arquipélago de rio e mar do planeta: mas, infelizmente, não recobra a memória ancestral desta pobre gente sem eira nem beira, espoliada secularmente pelo orgulhoso império da cristandade.

Pena que no Golfão Marajoara dispartido em ilhas e terra firme entre o grande rio Amazonas e o Atlântico equatorial, mais de meio milhão de brasileiros não sabem nada desta antiga conversa escrita em cerâmica, há coisa de mil anos aproximadamente, quando Colombo e todos mais supostos ou verdadeiros descobridores das Américas ainda não haviam eles saído dos cueiros. Não são apenas cem anos de solidão, mas cinco milênios que o Homem tapuia aprendeu a lição do barro e cerca do ano 400 até 1400 mandou recado ao mundo inteiro. Por necessidade e acaso, o encontro da fome com a vontade de comer inventou na ilha grande do Marajó a primeira cultura complexa da Amazônia e, sem sombra de dúvida, a arte primeva do Brasil.

Como dar agora esta notícia desprezada desde a Viagem Filosófica (1783-1798), do sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, na curiosa separata Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó (1783)? A Notícia Histórica devia estar atualizada e comentada por educadores da própria região, disponível pelo menos nas bibliotecas dos dezesseis municípios no território estadual maior que Portugal. Trata-se do vestibular do naturalista de Coimbra ao alto curso da Amazônia... E se, agora, Boaventura de Souza Santos, armado cavaleiro andante com o projeto da Universidade de Coimbra "Conversas dos Mundo", sonhasse viajar na Viagem Filosófica?

A Notícia Histórica nos informa muitas coisas: a teoria do índio arariuara sobre a abertura e dragagem do rio Arari por muitas cobras grandes e pequenas que viviam no lago; a primeira notícia do Rio dos Anajás e sua estupenda biodiversidade; a perigosa travessia das correntadas da baía do Marajó; o tucumã como substituto de azeite de dendê ("comida da pobreza"), isto é: a canhapira marajoara casando cultura alimentar do índio com a do preto a caminho do apogeu gastronômico guianense chamado bouillon d'Awara (que se poderia traduzir, mais ou menos, como "cozido de tucumã"). 

A Notícia Histórica dá uma dica para descobrir o autor anônimo da anterior "Notícia da Ilha Grande de Joanes" (provavelmente, o fundador da freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari (1747), Florentino da Silveira Frade, que disse ter achado o teso do Pacoval (primeiro sítio arqueológico de Cultura Marajoara que se teve notícia) no dia 20 de Novembro de 1756. Por acaso, dia nacional da consciência negra. Forte coincidência, quando se sabe que Vicente Pinzón em janeiro de 1500 atacou e levou da ilha do Marajó os primeiros 36 "negros da terra" (escravos indígenas) da América do Sul...

Falar em tucumã (Astrocarium vulgare) é como pegar uma chave que abre a porta do passado na mitologia da Primeira Noite do Mundo e do futuro com a pesquisa da canhapira e do "óleo de bicho", por exemplo. Sem esquecer o famoso "caroço de tucumã" da literatura do maior romancista da Amazônia. Assim como o ciclo das águas com a piracema atraiu nômades de diversos horizontes da região a levantar do chão encharcado o teso para, ao longo do tempo, edificar aldeias suspensas. Estes mesmos sítios exóticos atraíram naturalistas e arqueólogos para adivinhar a charada do homem amazônico "primitivo"... Começa aí a destruição formidável da antiga Cultura Marajoara, fruto da ignorância e da arrogância. Não que, cerca de 1300, a barbaridade Aruã não tivesse aparentemente feito o tempo recuar pelas bandas do Norte com a invasão das Ilhas de Fora (Bailique, Viçosa, Caviana, Mexiana) até deslocar e destroçar as mais velhas etnias para a Costa-Fronteira do Pará, onde elas vieram se refugiar tal qual a nação Iona ou Sacaca (Joanes, na corruptela em língua portuguesa). Alexandre Ferreira lastimou a sorte destes índios escravizados na pesca no Pesqueiro Real que, pelo relato do sargento-mor de milícias da vila de Monforte (aldeia velha de Joanes), índio sacaca Severino dos Santos; poderiam ser descendentes dos famosos artistas ceramistas "marajoaras". Quem sabe? Quando o padre Vieira caiu em desgraça diante da Inquisição os mais prejudicados foram os seus protegidos índios "nheengaíbas" (marajoaras) que tiveram as suas terras tomadas pelo monarca português para doação a seu secretário de estado e criação da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665) - vésperas do apocalipse de 1666, vaticinado por Vieira para volta de Cristo à terra - o mundo não acabou. Porém, de fato, muita coisa mudou por aqui, inclusive a babel das línguas amazônicas no entrechoque do Iluminismo aux bàs fonds da amazonidade com o Diretório dos Índios (1757-1798) operando o milagre brasileiro da hegemonia da língua portuguesa falada do Oiapoque ao Chuí, extinção dos "índios" por decreto elevados em súditos do rei de Portugal juntos a suas rústicas aldeias que passaram a ser vilas e lugares lusitanos migrados a Amazônia colonial. Tais quais Chaves, Curralinho, Melgaço, Portel, Oeiras. Salvaterra, Soure...

Dentre as diversas histórias dos Marajós, a história dos "Joanes" é caso exemplar da destruição dos índios do maior arquipélago fluviomarinho do mundo no contexto geral da destruição das Índias |Ocidentais. Pois é disto que se trata, quando o Marajó quer conversar com o mundo. A "ilha" do Marajó está no mundo desde quando o padre grande Antônio Vieira com a sua utopia evangelizadora escreveu a famosa carta a el-rei dom Afonso VI, em 1659, publicada em folheto em 1660; na pessoa de sua mãe e regente de Portugal, a espanhola dona Luísa de Gusmão... Me lembro que a Viagem a Portugal de Saramago inspirou minha estúrdia Novíssima Viagem Filosófica a bordo da Revista Iberiana (1999). Seguiu-se a Amazônia latina e a terra sem mal (2002) onde abracei a utopia selvagem dos Tupinambá como efetiva conquista do rio Babel (tiro chapéu ao mestre José Ribamar Bessa Freire), e tenho inédita a Breve História da Amazônia Marajoara... Trabalho agora num texto apimentado chamado 1835 - As classes miseráveis na beira da História onde procuro parentescos da revolução paraense nas sete guerras da Regência (1835-1840) e na luta universal contra o trabalho escravo desde os quilombos originais, na África, dos Jagas e Bijagós em luta contra caçadores de escravos.

Hoje somos meia dúzia de quixotes fazendo das tripas coração a fim de dar voz a tantos outros que não sabem ler nem escrever, com que por certo saberiam o que o autor de Chove nos campos de Cachoeira por sua Criaturada grande dedicou toda sua vida em dar testemunho do homem aí largado em plena maré. Quem saberá a história do Pesqueiro Real com os índios Joanes escravizados para pescar e defumar peixe que era o dinheiro com que se pagava o soldo dos militares, os vencimentos dos servidores e a côngrua dos padres? Eis os banco social das comunidades àquele tempo com a tainha ovada em lugar de moeda corrente até quase fins do século XVIII.

Atualmente o Pesqueiro é uma unidade federal de conservação ambiental (Resex Marinha de Soure), a primeira reserva extrativista marinha da Amazônia. E deve-se saber que as Resex são invenção histórica de Chico Mendes: de Xapuri, no Acre, até Soure, no Pará; passando por Santa Catarina a luta popular venceu muitos obstáculos e estirões.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

LEVANTANDO BANDEIRA MARAJOARA PARA CRIAR O FUTURO ESTADO DO MARAJÓ.


motivo emblemático para criação da bandeira do Marajó com as cores originais da ancestral Cultura Marajoara. Em tela, como modelo, a bandeira da Paraíba a dar lugar da palavra "NEGO" a desenho estilizado de uma urna marajoara e talvez as duas seções separadas em diagonal.




Faltando só dois dias a mais um aniversário da Cabanagem de 7 de Janeiro de 1835 e sete para os 400 anos de Belém, creio eu ser este um bom momento para refletir sobre a importância geoestratégica e cultural do berço da arte primeva do Brasil e primeira cultura complexa da Amazônia: a Cultura Marajoara, nascida há mil anos na ilha do Marajó. Hora de repensar a divisão territorial da Amazônia brasileira, como senha de uma nova república federativa onde a amazonidade faça valer o fato de o Brasil ser de direito o maior país amazônico do mundo. Tudo a ver com a agenda do milênio, tendo nosso país oportunidade de exercer liderança nunca dantes a impulsionar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2015-2030) como paradigma planetário.

Mais que nunca, neste século, o maior país amazônico do mundo se vê desafiado a desenvolver a Amazônia na perspectiva do Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), tendo em Brasília a sede multilateral da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), ultimamente convertido em patinho feio da diplomacia sul-americana. No imaginário brasileiro dominado pelo eixo hegemônico Sul-Sudeste, Marajó é uma "ilha" como outra qualquer no estado da "Amazônia" cuja capital se chama Manaus... 

Se a gente falar em Amazonas o primeiro pensamento que vem à mente é o vasto Estado do Amazonas com a ilha da SUFRAMA cercada de floresta por todos os lados, raramente vão lembrar do Teatro Amazonas e que o maior estado brasileiro em tamanho tem a maior população indígena do país. Donde o "exótico" município de São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, apresenta a particularidade de ter quatro línguas oficiais (a língua-geral amazônica ou Nheengatu; baniwa, tukano e naturalmente o português de expressão nacional e internacional).

Nosso ufanismo verde amarelo odeia reconhecer o fato de que, salvo uns poucos especialistas; os brasileiros imaginam uma Amazônia de cinema e TV: isto mesmo em plena Belém e Manaus, onde a elite ilustrada conhece melhor o exterior do que os subúrbios da cidade. Como vivem quase trinta milhões de brasileiros da Amazônia a maior parte da sociedade nacional não faz ideia. A maior bacia fluvial do Planeta donde a Floresta Amazônica pontifica reunindo oito países (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador. Guiana, Peru, Suriname e Venezuela) e um departamento ultramarino francês (Guiana francesa, última colônia europeia na América), vem em segundo plano para grande parte da população brasileira. 

No entanto, o que hoje chamamos de Amazônia brasileira (portuguesa até 1823) vem de completar só quatro séculos desde a conquista do Maranhão (1615) e fundação de Belém do Grão-Pará (1616): toda esta gigantesca construção territorial não poderia ser realizada exclusivamente por uns poucos denodados e mal apetrechados conquistadores e colonizadores portugueses. Sem a aliança de arcos e remos da nação Tupinambá não teria existido jamais uma chamada Feliz Lusitânia e sem adesão tapuia - apesar da horrível destruição das nações indígenas amazônicas e do monstruoso cativeiro do Maranhão e Grão-Pará -, não teria o luso-brasileiro Alexandre de Gusmão alcançado êxito com a tese de uti possidettis do Tratado de 1750 em Madri, que revogou o de 1494 em Tordesilhas. E o Brasil ficaria caranguejando pela costa do Nordeste...

Então, o pós-400 anos de Belém deve provocar uma revisão de mentalidade com respeito a Amazônia brasileira e Marajó mais uma vez terá que ser descoberto para reconquista do rio Babel... Desta feita pelos próprios brasileiros: há uma dívida histórica a ser cobrada pelas populações tradicionais amazônicas. Sabemos que a hegemonia do Sul-Sudeste mantém status neocolonial nas relações federativas em desvantagem do Norte-Nordeste, apenas na última década o povo nordestino vem recebendo melhor atenção dos poderes da República.

O antigo estado do Grão-Pará e Maranhão pouco a pouco foi sendo subdividido, primeiro pela separação do Pará e do Maranhão, depois a emancipação do Amazonas e Mato-Grosso, Acre, Rondônia, Amapá, Roraima e Tocantins. Cedo ou tarde será a vez do Tapajós e de Carajás. A especificidade do Marajó clama e o Pará tem que se preparar a exercer a sua expressão geográfica voltada mais para a relações externas na fronteira marítima ao fim da antiga função colonial de boca de sertão.

Viva o grande Brasil amazônico do século XXI!




domingo, 3 de janeiro de 2016

LULA FOI A BREVES SALDAR UM DÍVIDA HISTÓRICA DE 350 ANOS


Projeto de Bancos Comunitários no Marajó. Articulações em andamento nos municípios de Muaná e Curralinho (Rio Canaticu), em breve os dois primeiros Bancos Comunitários marajoaras a fazer parte do Banco Nacional das Comunidades.





Não dá para tapar o sol com peneira. O Brasil parece um grande navio cargueiro em alto mal em meio à tempestade. Mas os brasileiros não inventaram a crise, muito pelo contrário, estamos enfrentando-a e adiando o seu maior impacto desde o tsunami de 2008, na bolsa norte-americana. É claro que o Brasil é grande e a crise vai passar, todavia durante a travessia os passageiros de terceira classe vão passar maus pedaços dizem profetas do caos. Principalmente, os mais pobres e os trabalhadores assalariados que vão ficar desempregados.  Lá do alto, na cabine de comando, não há muita coisa a fazer a curto prazo até retomar a rota a porto seguro.

Desde 2003, com a eleição do primeiro sindicalista na história do Brasil para a presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva; a esperança venceu o medo e nós de tanto insistir com apoio dos Bispos católicos do Marajó - com base no documento eclesial assinado por dom Angelo Rivatto S.J., bispo da Diocese de Ponta de Pedras e dom frei José Luís Hermoso Azcona OSA, bispo da prelazia do Marajó (Soure), denunciando o estado de extrema pobreza do povo marajoara -; no ano de 2006 foi estabelecido na Casa Civil da Presidência da República o "Grupo Executivo de acompanhamento de ações institucionais no arquipélago do Marajó - GEI-Marajó". 

Sabemos como a gente sofre de um tipo de mal de Alzheimer coletivo sobre estas coisas. Por isto, de vez em quando carece refrescar a memória a fim de que pescadores de águas turvas não virem com suas costumeiras cantilenas pra boi dormir. O povinho, por sua parte, adora se fazer de coitadinho e agradece mais depressa a seus exploradores de que a outros menos interessados em traficar influência no mercados de compra e venda de consciências. Os quais marreteiros, naturalmente, apostam no quanto pior melhor para ganhar no apurado da miséria. Viajando sempre de primeira classe os barões assinalados nem percebem as turbulências do mar revolto... Mas, como Deus é brasileiro e a Amazônia marajoara também é Brasil, viu-se certo dia o parto do "Plano de Desenvolvimento Territorial Sustentável do Arquipélago do Marajó", que por economia a gente prefere chamar vulgarmente de PLANO MARAJÓ. A ele se agregou, em 2008 - ano em que a bolha imobiliária estourou, nos Estados Unidos -, o programa "Territórios da Cidadania" - Marajó, conduzido na mesorregião marajoara pelo "Colegiado de Desenvolvimento Territorial do Marajó - CODETER".

Fato histórico sem precedentes, inclusive porque nunca dantes um presidente da República havia visitado Marajó para anunciar um plano de desenvolvimento socioambiental desta justa ambição. [ver http://gentemarajoara.blogspot.com.br/2012/02/rio-mapua-um-case-fora-de-serie-no.html]. Dirão os menos esquecidos, o general-presidente Geisel veio antes a Soure. Sim é verdade, mas vejam lá as diferenças de tempo e lugar. O ditador veio a convite de fazendeiros assistir a feira da pecuária; já Lula foi a Breves em viagem oficial de trabalho com a governadora Ana Júlia, em 2007, lançar o PLANO MARAJÓ e fazer entrega dos primeiros títulos de regularização fundiária do Projeto NOSSA VÁRZEA, que até hoje é a parte mais saliente do referido Plano, beneficiando a mais de 20 mil famílias ribeirinhas (cerca de 100 mil pessoas). Neuton Miranda, o saudoso coordenador do Projeto no Pará (prêmio ENAP de inovação em políticas públicas) foi o primeiro a reconhecer que o Título de Autorização de Uso (TAU) de terras da União é documento provisório, o primeiro passo numa estrada de mil léguas para o pleno desenvolvimento socioambiental sustentável das comunidades ribeirinhas na Amazônia.  Fato que não podemos esquecer face à Agenda 2030 da ONU sobre os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O segundo passo na inclusão socioambiental dos cabocos seria o reconhecimento pleno dos cidadãos como passaporte para benefício dos programas municipais, estaduais ou federais de promoção social, incluindo aí planos de manejo agroextrativista acompanhado de orientação técnica. 

O terceiro passo vai ao encontro da sustentabilidade econômica da Criaturada, cantada em prosa e verso. É disto que quero falar, um pouco animado pelos primeiros sucessos do BANCO COMUNITÁRIO TUPINAMBÁ, na Baía do Sol (ilha do Mosqueiro, município de Belém). Copio antes trechos de entrevista de Paul Singer, pai da economia solidária em nosso país, em 2006, mesmo ano que, na Casa Civil, o GEI tateava para saber se Marajó é ilha, arquipélago ou uma mesorregião maior que Portugal: no maior arquipélago fluviomarinho do planeta, onde, por exemplo, podia caber dois estados como Alagoas ou Sergipe; com sua mal assistida população de 500 mil habitantes em 16 municípios repartidos em mais de 500 comunidades em cerca de duas mil ilhas:


"Apesar de o nome ter sido criado no Brasil, economia solidária é um movimento que ocorre no mundo todo e diz respeito a produção, consumo e distribuição de riqueza com foco na valorização do ser humano. A sua base são os empreendimentos coletivos (associação, cooperativa, grupo informal e sociedade mercantil).
Hoje, o Brasil conta com mais de 30 mil empreendimentos solidários, em vários setores da economia, com destaque para a agricultura familiar. Eles geram renda para mais de 2 milhões de pessoas e movimentam anualmente cerca de R$ 12 bilhões.
Nesta entrevista, Singer mostra como o movimento surgiu no Brasil, inicialmente para combater a miséria e o desemprego gerados pela crise do petróleo na década de 1970, e se transformou em um modelo de desenvolvimento que promove não só a inclusão social, como pode se tornar uma alternativa ao individualismo competitivo das sociedades capitalistas.
Relembre na RBA: "Lembro exatamente quando aportamos em Santos, dia em que completei 8 anos. Minha família estava tão extasiada por chegar, que o único que se lembrou do meu aniversário fui eu"
Quando e como surgiu a economia solidária no Brasil?
Ainda sem esse nome, a economia solidária surgiu no Brasil no bojo da mais terrível crise pela qual o País passou desde Pedro Álvares Cabral. Foi a crise dos anos 70, que atingiu toda a América Latina, resultado do choque do petróleo. Os países não produtores de petróleo ficaram com dívidas enormes. Tiveram que comprar petróleo a preços cinco vezes maiores dos que pagavam antes da crise. E o Brasil foi um dos que mais se endividaram. Não tinha opção. O País já estava no processo de abertura, mas o regime estava sem nenhuma preparação para enfrentar o desemprego, que atingia milhões de brasileiros. Esse era o quadro.

A economia solidária foi uma alternativa para enfrentar o desemprego, a fome e a miséria que atingiram milhões de brasileiros?
Foi isso mesmo. Quem tentou fazer isso de uma forma correta foi a Igreja, através da Cáritas, que começou a organizar os desempregados para que eles voltassem a viver, a ganhar. Isso acabou sendo o impulso inicial para a economia solidária no Brasil. Portanto, a semente da economia solidária foi plantada nos anos 80 por uma ação extremamente adequada, e no momento certo, da Cáritas. Alguns anos depois, o esforço da Cáritas foi secundado pelos sindicatos e pelas universidades. A essa altura eu já estava envolvido.

Qual foi o papel dos sindicatos, nesse início da economia solidária no Brasil?
Os sindicatos viram que os trabalhadores de empresas que iam falir – e muitas faliram nessa época – poderiam arrendar a massa falida, preservar a empresa e, portanto, seus próprios empregos. Os primeiros casos causaram muita sensação: fábricas sem patrões. Logo mais, isso se tornou um modelo. Surgiu a Anteag (Associação de Empresas Recuperadas), que se especializou nisso, a partir do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos). Então, foi o início da economia solidária no Brasil. Os sindicatos apoiaram seus trabalhadores na formação de cooperativas de trabalho.

Os trabalhadores assumiram a direção dessas empresas falidas e as recuperaram?
Sim, assumiram a direção das empresas. Eles passaram a ser trabalhadores sem patrão, ou trabalhadores autoempregados coletivos ou sociais. Sempre associados.

E qual foi o resultado disso?
Centenas de empresas recuperadas no Brasil pelos seus próprios trabalhadores, mais de mil. A maior da América Latina administrada por trabalhadores é a Uniforja (Cooperativa Central de Produção Industrial de Trabalhadores em Metalurgia), que fica em Diadema.

Isso mostrou, na prática, a capacidade de gestão do trabalhador, de administrar com sucesso uma fábrica, coletivamente e sem patrões?
É preciso lembrar que, do ponto de vista capitalista, o trabalhador é alguém que cumpre tarefas. Ele não tem nenhuma participação na gestão, muito menos conhece os problemas do negócio. Os donos da empresa só divulgam o que lhes parece vantajoso. Portanto, os trabalhadores não têm aparentemente nenhuma capacidade de gerir uma empresa. A realidade mostrou o contrário. As empresas recuperadas pelos trabalhadores levam uma média de 2, 3 meses para voltar à plena atividade. Não mais que isso. É surpreendente.

E quando surgiu o conceito e o nome economia solidária?
A história é mais o menos o seguinte: quem não se lembra do Betinho (Herbert José de Sousa)? Sociólogo e ativista social, militante político que liderou o “Natal sem Fome”, mobilizou milhões e milhões de pessoas no Brasil. Isso também está na história da economia solidária.

De que forma?
Começou-se a perceber que era preciso fazer alguma coisa direta contra o desemprego. Como a campanha do Betinho avançou bem, tomamos a decisão de nos reunirmos nos anos 1990 (92 e 93) para lutar diretamente contra o desemprego, fomentando a economia solidária, que ainda não tinha esse nome. Incentivando a autoiniciativa econômica de trabalhadores associados.
Inclusive a campanha do Betinho foi muito apoiada pela Igreja. Ele mesmo era um católico, um cristão socialista. Militante da AP (Ação Popular, organização da esquerda cristã). Bem, esse foi o passo decisivo para a criação das incubadoras e cooperativas populares. Não surgiram imediatamente, mas não demorou muito. A primeira cooperativa foi criada no Rio de Janeiro, creio que em 1994, e agiu especificamente na Maré (Complexo da Maré). As incubadoras tecnológicas e cooperativas populares foram decisivas para o desenvolvimento da economia solidária no Brasil."


 QUE OS MARAJOARAS ESPERAM DE 2016?

Sinceramente, não esperam muita coisa. Já esperaram até demais. Desde as falsas pazes de Mapuá no século XVII a cabo de 44 anos de guerra desde a tomada de São Luís do Maranhão para fundação de Belém do Grão-Pará que de hoje a nove dias completa 400 anos. Como sucessor de Portugal no bônus e no ônus da Amazônia brasileira, o Brasil é responsável pelos descendentes da brava gente "nheengaíba" (marajoara) roubada em seus direitos humanos e territoriais para dar lugar à capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes [Marajó], de 1665 a 1757.

A República Federativa do Brasil e o Estado do Pará, sem saberem exatamente, começaram a saldar esta dívida histórica com a Carta Magna de 1988 e a Constituição estadual de 1989, respectivamente. Esta última, mais precisamente em seu Art. 13, VI, parágrafo 2º considerando o arquipélago do Marajó área de proteção ambiental condicionando o desenvolvimento econômico das ilhas ao bem-estar da gente marajoara.

Eis, que decorridos dezenove anos da Constituição-Cidadã o Presidente da República foi a Breves - podia-se dizer, quase em Mapuá -, dar o primeiro passo que se dizia linhas acima. Falta muito, mas já andamos um bom estirão. Neste começo de ano muito me apraz compartilhar com a Criaturada grande de Dalcídio esta notícia de que a experiência do Banco Comunitário Tupinambá está prestes a ser replicada em Muaná e na comunidade do rio Canaticu (município de Curralinho). Falar o nome "Tupinambá", quando a capital do Pará faz 400 anos e Marajó demanda reparo histórico é tocar o nervo da História do Pará velho de guerra. Portanto, os nossos votos de que o Povo Marajoara saiba fazer a hora em paz, esperar não é saber. 


REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA: PRIMEIRO PASSO AO DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL SUSTENTÁVEL



 Depois de séculos de violência, expropriação e marginalização das populações tradicionais marajoaras, pela primeira vez o governo da República Federativa do Brasil atendeu aos apelos da comunidade por intermédio da Igreja Católica. A presença da igreja na região, como vimos acima, é um fato histórico negar isto ou as suas contradições como pretendeu o Diretório Pombalino e seus imitadores é uma tolice. Quem fala não é de nenhuma igreja. Muito mais é negar o dever do Estado-Nação, justamente demandado pela comunidade.

O Marajó já tem um rumo e não está mais à matroca como um barco à deriva: porém é preciso dar mais velocidade ao processo de desenvolvimento e integração com a participação da "Criaturada grande de Dalcídio" [populações tradicionais] e controle social sem preconceitos.

(em baixo foto da visita de Lula em Breves)
 em 06/12/2007

Fotos
Fonte:

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Porto Santo



O Porto Santo é um município de Portugal na ilha do Porto Santo, região da Madeira, com sede na Vila Baleira. Tem 42,48 km² de área. É referida como ilha Dourada pelos madeirenses. A ilha do Porto Santo foi descoberta em 1418 por João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, um ano antes da ilha da Madeira. A Madeira foi a primeira capitania hereditária do sistema colonial português que depois se estendeu ao Brasil, incluindo a capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes ou Marajó (1665-1757), doada ao secretário de estado dr. Antônio de Sousa de Macedo, patriarca dos Barões de Joanes. Donde se originaram as sesmarias da ilha do Marajó, dentre estas a de São Francisco Xavier (1686), dos Jesuítas (depois fazenda Malato) que deu origem ao município de Ponta de Pedras (emancipado de Cachoeira em 30/04/1878) e da ilha de Sant'Ana (1696), das Mercês, a qual introduziu os primeiros escravos africanos na ilha do Marajó.

Segundo a história da ilha do Porto Santo, Cristóvão Colombo (aliás Salvador Fernandes Zarco, de seu nome próprio, português, nascido na vila de Cuba, no Alentejo), morou nesta ilha tendo se casado com uma das filhas do primeiro capitão donatário Bartolomeu Perestrelo. Em virtude de sucessivos ataques de piratas, entre os quais se destacou o de 1619 (mesmo ano do levante de 7 de janeiro dos Tupinambás comandados por Cabelo de Velha ao Forte do Presépio, em Belém do Pará), no qual pereceu ou foi escravizada quase toda população com exceção de apenas 18 homens e 7 mulheres. Durante a União Ibérica (1580-1649) a ilha foi repovoada e fortificada. A capitania do Porto Santo foi extinta em 1770 (a da Ilha Grande de Joanes (Marajó) em 1757) no governo do Marquês de Pombal. O concelho foi criado em 1835 (ano da Cabanagem no Pará).

Porto Santo do rio Arari

Esta breve nota serve de introdução a respeito do lugar Porto Santo sito à margem direita do Baixo Arari, município de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, Estado do Pará. Não sei dizer como e quando este nome português foi dado ao dito lugar. Este sítio do Porto Santo foi uma das principais propriedades do coronel Antero Augusto Lobato, grande dono de terras e influente fazendeiro na ilha do Marajó, político em Ponta de Pedras chegou a exercer o cargo de Intendente (prefeito), partidário do conservador Antônio Lemos participou da virada em favor da eleição do republicano Lauro Sodré. Foi proprietário da fazenda Diamantina, no lago Arari; e do barco-motor "Perge" que hoje ainda existe.

A história do coronel Antero daria um romance de desfecho infeliz. Homem rico e voluntarioso, fazia parte de uma elite de fazendeiros com residência na outrora famosa Estrada de São Jerônimo (avenida Governador José Malcher), um belo casarão próximo ao Palacete Bolonha. Passava largas temporadas no Porto Santo e eventualmente na fazenda Diamantina. Casado com dona Adalgisa da Silveira Lobato o casal quase de meia idade, tardiamente, teve um único filho chamado Raimundo. Raimundinho entre os íntimos, foi criado como príncipe e poderia ser comparado algumas vezes ao personagem Missunga, do romance "Marajó" de Dalcídio Jurandir...

O coronel, já idoso, decidiu ainda em vida passar em cartório todos seus bens ao herdeiro. Os empregados, agregados, amigos e o povo em geral na cultura marajoara tem por tradição folclorizar a vida dos "brancos". Como se sabe, branco é o estamento latifundiário não importa a cor da pele do "patrão"... No trabalho, nas viagens, em reuniões a gente conta o certo e o inventado, de modo que com certo tempo não dá mais para destrinchar a estória da história verdadeira... Foi assim que personagens reais viraram lenda: o malvado senhor de escravos João "Maçaranduba" Calandrini; a avarenta dona Leopoldina; a falência do perdulário Raimundinho... Sem dúvida, criativa literatura oral que no Nordeste alimenta os famosos cordéis.

Conta a lenda que o herdeiro único do rei do gado meteu os pés pelas mãos. Começou com um casamento infeliz com uma linda moça caprichosa, vinda do Sul e que depois de lhe tomar quase tudo o abandonou na rua da amargura. Raimundinho caiu no vício da jogantina e acabou por perder o que ainda lhe restava. Na história marajoara ele não foi o primeiro nem o último... O velho coronel ultimamente passava mais tempo no Porto Santo e sua satisfação era ver o "Perge" encostar, tanto na subida quando na descida, a trazer encomendas e novidades de Belém ou para levar alguma coisa à Cidade. 

Entretanto, certo dia o barco veio do Lago e passou ao largo sem encostar no Porto Santo como de costume... O coronel se alarmou. Aquilo nunca antes aconteceu, era uma falta de respeito para com o branco velho. Ele chamou o fiel criado intimando-o a falar a verdade e dizer tudo que estava acontecendo. Então, o criado lhe contou: o "Perge" não era mais propriedade da família, Raimundinho havia vendido o barco, fazendas, casas na Cidade... O coronel Antero deu-se conta do erro cometido e passou mal com uma vertigem. Não demorou ele veio a falecer. Raimundinho continuou sua sina e acabou de torrar tudo quanto ainda havia para depois sumir no mundo. Dizem que, tempos depois, o encontraram trabalhando de taxista em Fortaleza (Ceará). Muita gente achava aquilo castigo por tantas humilhações e explorações dos pobres praticadas pelo coronel e por seu vaidoso herdeiro.

O Porto Santo parou no tempo até vir a ser adquirido, anos 70; pela hoje extinta "Cooperativa Mista Irmãos Unidos de Ponta de Pedras - COOPIUPE", controlada pela Diocese de Ponta de Pedras ao tempo de dom Angelo Rivatto. O sítio foi transformado em agrovila entre mais de uma dezena de outras como a agrovila de Praia Grande (projeto "Pobreza e Meio Ambiente na Amazônia - POEMA, da UFPA em cooperação internacional), agrovila de Jaguarajó (parceria de Agricultura Familiar Sustentável, com a EMBRAPA): foi uma experiência importante das chamadas cooperativas de Dom Angelo (atacadas pelos adversários como 'cooperativas da Nella', referência à colaboradora do bispo Nella Remella, alvo de críticas e maledicências). A par da COOPIUPE existiu também a "Cooperativa Mista de Produção, Recursos Humanos e Turísticos - COMIFRHUT", dedicada à construção naval, marcenaria, indústria cerâmica e ao turismo que na verdade nunca praticou. Nesta cooperativa foram formados diversos artesãos dentre os quais o notável Ismaelino Ferreira, a cerâmica marajoara foi relançada em Ponta de Pedras antes do sucesso comercial de Icoaraci. Hoje poderiam se interessar professores e alunos por esta experiência para elaboração de trabalho de conclusão de curso, dissertação de mestrado e tese de doutorado de modo a ofertar ao público através de extensão algo importante para projetos de desenvolvimento socioambiental sustentável.

Poucos hoje tem clareza do impacto da Prelazia e depois Diocese de Ponta de Pedras na região. Entre erros e acertos destaca-se a célebre desavença entre o bispo Rivatto e o padre Giovanni Gallo, criador do Museu do Marajó, de que trata o livro autobiográfico deste "O homem que implodiu". Dom Ângelo não era santo e o padre Gallo também não, embora este último deixasse escrito que desejava muito a santidade. Do ponto de vista da Criaturada grande da Dalcídio, que é o que interessa a este caboco que vos fala; misturando a criatividade do padre com a ousadia do bispo eu que não creio peço a Deus por minha gente, a gente humilde. E tento como posso despertar a memória desta gente a encontrar algum apoio para recomeçar todos os dias.

Creio que o Porto Santo é uma referência histórica em diversos sentidos. Principalmente por ter sido asilo aos refugiados do Gurupá e ter se tornado uma florescente agrovila que, afinal, sucumbiu ao próprio fracasso dos assentamentos promovidos pela igreja católica no Marajó com origem remota ainda na Aldeia das Mangabeiras (vila de Mangabeira) em terras de sesmaria da fazenda São Francisco (1686). Sim, seria muito interessante aos pontapedrenses, mas também a todos os cerca de 500 mil habitantes do Marajó uma cultura histórica. A fim de saber quem somos nós, donde viemos e aonde vamos.

Ainda em fins dos anos 90, pessoas idosas de Porto Santo choravam ao relembrar o fatídico dia em que o quilombo do Gurupá foi destruído para desocupar a suposta terra do 'branco" tendo as casas queimadas, pessoas violentamente expulsas de sua posse. Gurupá, na margem esquerda do rio Arari, município de Cachoeira do Arari, tem uma história de resistência e luta da comunidade afrodescendente. A negritude do Arari começou com os escravos dos frades das Mercês em Sant'Ana e se espalhou pelas margens do rio, Tartarugueiro, Gurupá, a vila de Cachoeira e outras localidades. 

Sem memória esta gente estaria totalmente derrotada. Por isto, Porto Santo não deve esquecer da acolhida que foi dada à gente do Gurupá e como as "cooperativas" (que, de fato, eram outra coisa) fizeram uma diferença enorme na história da indiferença social e da pobreza extrema. Quero dizer que, algumas vezes, não deixei de fazer críticas a Dom Ângelo pelo modo como ele queria fazer as coisas, mas na divergência fomos amigos e parceiros, inclusive como se pode ler no documento da Igreja Católica (1999) denunciando a miséria do IDH do povo marajoara; a apresentação que fiz em nome do Grupo em Defesa do Marajó (GDM). Sabia Dom Ângelo e sabe Dom Alessio que não sou praticante de nenhuma religião, todavia defendo que ninguém pode falar de História no "maior arquipélago fluviomarinho do mundo" desconhecendo a missão dos Jesuítas e a capitania da Ilha Grande de Joanes: duas instituições dialeticamente opostas.

Interessante saber, por exemplo, a inspiração kibutziana (modelo de fazenda coletiva de Israel) das ditas "cooperativas" extintas sem que os "cooperados" jamais soubessem do que se tratava. Nem fossem devidamente preparados a realizar a experiência mais significativa que poderia haver. Para isto, havia uma "onça": a Ditadura... E não faltaram inimigos para atacar o bispo assim mesmo com o cooperativismo caboclo meia sola. Antes de dom Ângelo ser substituído ele mesmo já havia jogado a toalha: uma curiosidade estava posta, os católicos exerciam o controle das cooperativas e a suposta esquerda com o PT e o PSB mariscavam as cerca de 14 comunidades de agrovilas; mas os votos dali elegiam vereadores e deputados evangélicos de partidos de direita... Assim, apesar do evidente sucesso socioambiental, no aspecto econômico e político a coisa acabou sendo um fiasco. 

Dom Alessio Saccardo veio de Terezina (Piaui) para a Diocese de Ponta de Pedras com fama de administrador e educador. Achou pela frente um enorme desafio e frieza da comunidade. Mesmo assim, junto ao bispo da Prelazia do Marajó (Soure), dom frei Luís Azcona; foi bater à porta da Presidência da República em busca de parceria: nasceu assim o famoso Plano Marajó, em 2007, com suas esperanças e decepções até agora. Antes dele teria a Diocese desperdiçado recursos que hoje, com os Objetivos do Milênio 2030, talvez Marajó estivesse preparado a assumir uma liderança que está longe de chegar. 

Por ironia da história, a velha "Colônia da Mangabeira" e suas adjacências de cerrado e campos altos "imprestáveis" que, nos anos 30, recebeu migrantes das secas do Nordeste produzindo arroz de sequeiro, malva, feijão, milho, etc. e foi esteio das agrovilas virou uma emergente classe média rural de maioria evangélica e capitalista. A pecuária decadente deixou de ser a principal atividade econômica do município e o meio rural esvazia-se para ocupar o meio urbano com aumento da pauperização e da violência social. O extrativismo de açaí faz contraponto, mas a sustentabilidade deixa dúvidas. 2016 será ano eleitoral, sem muitas esperanças de novidade.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

CARNAVAIS E PATRIOTADAS


"A função do historiador é lembrar a sociedade daquilo que ela quer esquecer".
   Peter Burke



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Li na internete que, na cidade do Recife, durante marcha de opositores ao governo federal um paraense que ali mora, também contrário aos governistas; colocou a bandeira do Pará em sua janela com ideia de manifestar adesão ao protesto e foi miseravelmente insultado pelos revoltados. Os quais gritavam "fora comunista", "fora PT"... 

O parauara ficou pasmo com a ignorância da turma, gritou-lhes "é a bandeira do Pará seus idiotas!". Os babaquaras dispersaram, todavia um deles avisou: "quando a gente tomar o poder vamos rever isto"... Dizia o comentário que o cara ficou encucado disposto a não mais tomar partido nenhum

Cá no meu canto eu me pergunto como ficaria, então, a bandeira paraense caso os contras dessem marcha ré à história do Povo Brasileiro, apagando seus feitos patrióticos mais notáveis? No Pará, notadamente a Cabanagem, cujo sangue derramado tingiu nossa bandeira de vivo encarnado. Por acaso, na antiga corte carioca e em São Paulo, andaram em passeata esses mesmos revoltados de araque a levantar o velho pendão imperial aposentado em 1889 pela República Velha café com leite. 

Sabem lá os paraenses quanto nos custou, na adesão do Pará à Independência, a bandeira escravista anglo-americana do império de Dom Pedro? Essa bandeira manchada pela submissão aos ditames de Londres em repressão aos brasileiros na chamada guerra da independência. Em particular no Grão-Pará pela mortandade de 40 mil cabanos numa população de cem mil almas, primeiramente traiu a revolução liberal do Porto (Portugal) para enfim amortalhar o sonho de liberdade do Brasil. 

Se soubéssemos a história do Povo Paraense, mais seria respeitada a Bandeira do Pará e melhor comemorada a data de adesão à República em 16 de Novembro. Pois a luta de libertação paraense é federativa e republicana desde os princípios no bojo da Confederação do Equador, com o "contágio" das tropas paraenses egressas de Caiena, em 1817, trazendo oculta em suas mentes a notícia da revolução do Haiti, com o fim do colonialismo e da escravidão inerente ao regime de exploração de povos e terras de além mar.

OUTROS CARNAVAIS

Minha netinha de três anos de idade viu o desfile escolar de 5 de setembro e chegou em casa com seus pais dando vivas ao Palá (Pará) dizendo ela que havia participado do carnaval... Por suposto carnaval patriótico. Então eu me lembrei do carnaval devoto de Dalcídio Jurandir, no qual aos olhos do menino de Cachoeira a procissão do Círio, mal comparado, era paresque desfile de carnaval com carros alegóricos. Como então não misturar os carnavais e me lembrar também de meu primeiro desfile escolar na semana da Pátria na terrinha de infância distante em Itaguari (Ponta de Pedras), na ilha do Marajó?

Naquele tempo a Guerra destruía a velha Europa e a gente sabia notícias pela Voz da América; faltavam alimentos na região devido aos afundamento de navios da Costeira por submarinos alemães; o grupo escolar marchava pelas ruas poeirentas de Itaguari enquanto a Voz do Brasil chegava fraca e distante para nós. A Ilha e a Cidade ligadas apenas por canoas à vela de acordo com os ventos e as marés.

Hoje o tempo gira na memória tal qual o catavento multicor que a menina que tem nome de minha avó trás à mão. Não é que meu avô galego camponês, com sua voz de vagamundo, fatigado de minha hiperatividade infantil me chamava Corrupio? Ando devagar agora porque, como diz a canção, já tive pressa de viver e rodei mundo afora. Até descobri, por acaso, conversando com um asilado político chileno trabalhando na Ilha do Diabo (Guiana francesa) que cada um de nós em sua odisseia carece sair de sua aldeia a fim de descobrir o mundo a saber, em meio à guerra que a vida parece ser; que o melhor lugar do mundo é a sua aldeia natal. 

Eu acredito que o mundo só terá paz quando as aldeias unidas do planeta revogarem a ditadura imperialista da aldeia global. Claro, trata-se da utopia da democracia planetária. Como todas mais -- que nem a indígena Terra sem Mal -- um tempo que corre por trás do horizonte conforme a espiral evolutiva do espaço pelo progresso ou decadência de nossos sonhos. Oras parece que tudo se acabou e, de repente, lá vem a virada e a coisa avança como nunca.

Compreendi a revolução antropoética na leitura carbonária do "Caderno de um returno ao pais natal" do pai da Negritude, Aimée Cesaire, o libertador amado da Martinica. O poema nègre me ensinou que, de certo modo, 99% da população da Terra é feita de "negros da terra" na senzala deste mundo, enquanto apenas 1% de "brancos" -- não importa a cor da pele, olhos e cabelos contanto tenha lá muito dinheiro para comprar e vender todo mundo -- adona-se da casa-grande. Onde quer que se instale a grande empresa e a plantation no vasto mundo sobre cláusulas pétreas do pacto colonial. 

O SAPIENS TAPUYA NÃO É BESTA, NÃO!

Então, o Marajó velho de guerra é meu país natal!  

Ilha-aldeia onde eu me achei, numa ponta de pedras do Fim do Mundo, à ilharga da ilinha mágica onde mora a cobragrande Boiúna do rio Marajó-Açu guardião do mito da Primeira Noite do mundo:

todo mundo deve saber que o Marajó de que falo é um país encantado sito no maior arquipélago de rio e mar do planeta, além disto é um mundo: portal da mítica Terra sem Mal). Neste caso, Adler mais que Freud explica a compensação de todos roubos da História pela triunfo sem par da revolução antropoética mundial... E o evolucionismo de Wallace informa que o caboco marajoara é um tremendo despistador, um bicho inteligente (o Homo sapiens Tapuya, da "Viagem Philosophica") frente aos predadores.

A gente quer esquecer a "ilha" quase continente no golfão marajoara, mas ela habita o coração da gente e ocupa a terra firme. Por isto, por bem ou por mal, a grande Belém capital do país que se chama Pará não desiste do fado da memória da criaturada grande no extremo norte, ao lado das ilhas filhas da pororoca até o Cabo Norte seguindo a sina da pesca e contrabando, desde o Salgado pela corrente das Guianas além fronteira. 

Quem já ouviu falar: Oiapoque, aqui o Brasil começa? Do Oiapoque ao Chuí quem sabe? O Oiapoque ancestral é reino imemorial do cacique Anakaiury na Paricuria, esquecida saga da confederação do Cruzeiro do Sul, por seu nome próprio Arapari; debaixo do céu bordado de estrelas buscado desde as ilhas de mar através de Trinidad e Tobago, no Caribe, e o delta do Orenoco. 

Um mapa-múndi invisível que se começou a desenhar pelo sonho dos pajés, pelo menos, cerca dos anos de 1300 e tantos nos trilhos de vento e maré da grande migração Aruã em guerra antropofágica com os Kalina do mar, parindo os inventivos Nuaruaques comedores de farinha de mandioca brava, donos do segredo mortal do curare; invadindo as ilhas Caviana, Mexiana até a ilha grande Analáu Yohynkaku (Marinatambalo, dos Nheengaibas, Aruans, Joanes ou Marajó), fazendo o diabo contra as mais velhas nações insulanas, inclusive o povo Iona notável pela antiga arte cerâmica Marajoara. 

Foram estes bárbaros aruacos, com certeza, que com suas guerrilhas e emboscadas armados de zarabatanas feitas de paxiúba e dardos de talo de patauá envenados criaram fama de malvados marajós, aprendizes de vespas assassinas e afilhados da cobra jararaca; freando assim, nas Ilhas; a avassaladora avançada dos guerreiros canibais Tupinambás conquistadores da antiga terra dos Tapuias, Pará-Uaçu ou Grão-Pará na tradução colonial portuguesa.

Então, sem que reis e filósofos soubessem coisa nenhuma desta história sem escrita cedo ou tarde seria fatal o choque entre as bravas gentes de Norte e Sul. Como entre marajós "malvados" ditos Nheengaíbas (falantes da "língua ruim') e valentes guerreiros de nação Tupinambá que, cerca de 1500, já vinham pelo Caminho do Maranhão e sertões adentro a bom pelejar contra os Tapuya em geral até o Baixo Tocantins, em marcha de guerra a fim de ocupar o Pará na ambição utópica da Yvy Marãey (terra sem mal), paraíso mítico onde não há fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte. 

Utopia selvagem motora da construção territorial de Pindorama, digo da terra Brasílica pré-brasiliana.

Haverá revolução geocultural mais ambiciosa que esta, cujo apogeu ocorreu paresque na Costa-Fronteira do Pará a duas marés de distância até as portas do Paraíso guardado zelosamente pela mãe d'água, Cobragrande? Terra sem males nenhum, que afinal de contas naufragou num rio-mar de suor, sangue e lágrimas nos confins do imaginário rio das Amazonas em seu cruel despertar no mítico país do El Dorado...  

Qual seria o desengano final da demanda da Yvy Marãey no regresso da viagem de Pedro Teixeira a Quito? Esperanças de Portugal em vésperas da restauração da independência do reino de Dom João IV, de 1640. Último suspiro do mito fecundador tupi-guarani nascido livre no Peabiru para vir morrer de fadiga entre escravos indígenas no Alto Amazonas, nos contrafortes dos Andes tomados por conquistadores ignorantes e cruéis?

Sonho do bicho-homem em se tornar abaeté (verdadeiro homem), íntimo dos deuses ao encontro do Paraíso procurado na terra dos Tapuias, caminhos de infinitos males guiados por caraíbas medonhos fiéis do Jurupari e adoradores do Jaguar a custo de carne humana pelas virtudes da guerra através de sendeiros luminosos de Guaraci (mãe dos viventes) -- o Sol -- na faina dura de cada dia.

Todavia, dialeticamente falando, se o Sol fazia guerra a Lua havia de tecer as pazes entre inimigos mortais pela atração dos contrários. Quando o guerreiro tupi inebriado pela visão do paraíso procurado ao por do sol tocava flauta e a tapuia apaixonada tendo lá seu amor distante, rezava a poderosa oração do sol à boca da noite enquanto o dia ia sentando para atar rede no Araquiçaua ("lugar onde o sol adormece") e anoitecia com as criaturas do dia a se agasalhar e os bichos da primeira noite do mundo a se alvoraçar nas férteis imaginações tropicais. Que é isto? Uma ecologia socioambiental do rio Babel com suas sete mil línguas e milhares de "tribos perdidas".

Desta reza forte no extremo norte, paresque saiu o casamento da filha da Cobragrande: foi assim que nasceu o mito da Primeira Noite do mundo e as cantigas amorosas ao sair da Lua (Jaci, "nossa mãe") envolveram guerreiros abaetés, com que a antiga guerra à margem da História foi amansando pouco a pouco até a primeira geração da etnia dos cabocos ("caa bok", saídos do mato). Para quem inventou o Mito, custava engendrar História? 

UM PAIS QUE SE CHAMA PARÁ

Quem hoje sabe, todavia, desta velha história da Babel tapuia na universidade da maré no Ver O Peso, onde outrora o peixe frito em azeite de patauá alimentava as letras paraenses a par do pato no tucupi da elite e mais produções do tipiti e os gados do rio, mata fome de pobres e ricos?

Eu sou de um país que se chama Pará
Que tem no Caribe o seu porto de mar
E sei,  pelos discos do velho Cugat
Que yo, yo non puedo vivir sin bailar

  Paulo André Barata / Ruy Barata



Mambo, merengue, salsa, cumbia, Calypso, rumba... Contrabandos mil, reinvenções sem fim, lambadas e guitarradas cá te espero. O Haiti é aqui desde a passagem lendária do rei mandinga Abu Bakari, duzentos anos antes de Colombo. Nunca ouviu falar? Pudera! Nossos colonizadores além de ignorantes em todas estas coisas cuidaram de demonizar os deuses africanos e a religiosidade natural de nossos antepassados nativos.

Por exemplo, a falsificação premeditada da Adesão do Pará à Independência do Brasil, de fato manifesta na cidade de Belém no dia 14 de Abril de 1823, foi ela proclamada na heroica vila de Muaná em 28 de Maio: querendo ou não, não passa de uma vexatória rendição o ato de 15 de agosto passado no palácio do governo (hoje Palácio Lauro Sodré, sede do Museu Histórico do Estado do Pará) entre o governo colonial português do Grão-Pará e o jovem mercenário inglês John Pascoe Greenfell, de apenas 23 anos de idade;  emissário do corsário inglês graduado almirante  Thomas Cochrane, contratado pelo filo-anglicano José Bonifácio em nome do imperador Pedro I do Brasil e príncipe herdeiro, Pedro II de Portugal. Nosso primeiro desfile carnavalesco no Rio de Janeiro.

Cochrane e Greenfell ficaram bem na foto da historiografia anglo-brasileira na "independência" do Brasil em oposição à independência americana começada pela República federativa dos Estados Unidos, mais a revolução anti-escravista do Haiti e a revolução anti-colonialista bolivariana. 

Mas, na verdade, a história do Povo Brasileiro é mais antiga e mais vasta que tudo isto. Assim nasceu o império brasileiro, protetorado da Inglaterra por conta ainda do comboio inglês à Família Real portuguesa em fuga frente às tropas invasoras de Napoleão (dizem que Dona Maria I, a louca, que mandou esquartejar Tiradentes; era a pessoa mais sensata na real comitiva ao indagar: "se não estamos a fugir, por que vamos com tanta pressa?").

Não fosse pelo martírio de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes; e a decisão secreta dos maçons republicanos, no dia 20 de Agosto de 1822, no Rio de Janeiro; o teatro do Ipiranga não teria efeito ao que parece. Pois o medo geral era de fato a revolução francesa de 1789, por sua vez tendo por estopim a Independência Americana. Para ver como é a dialética entre as duas beiras do Atlântico desde eras muito recuadas até nossos dias.

Nos Estados Unidos, as colônias do Norte foram formadas por colonos protestantes desejosos de fugir a perseguições religiosas na Europa, fundaram a Nova Inglaterra com trabalhadores livres, pequenas propriedades, comércio e produção para consumo interno numa colônia de povoamento. Já as colônias do Sul como a Virgínia, Georgia e Carolina do Norte e do Sul sofreram uma colonização de exploração para exportar à Inglaterra conforme o Pacto Colonial baseado no latifúndio, trabalho escravo e monocultura. 

Entre 1756 e 1763, a Inglaterra e França travaram a Guerra dos Sete anos pela posse da América do Norte da qual os ingleses saíram vencedores. Apesar da vitória, Londres resolveu cobrar dos colonos o custo da guerra pelo aumento de taxas e impostos: começam aí protestos e agitações que levariam à independência americana em 1776, seguindo-se a guerra de 1776 a 1783 vencida pelos Estados Unidos com apoio da França e Espanha: quer dizer as duas margens do Atlântico enlaçadas pelo Pacto Colonial estavam fadadas a construir uma história comum. Pintada com fortes tintas iluministas a Constituição dos Estados Unidos (1787), garantindo a propriedade privada, direitos e garantias individuais do cidadão; embora mantendo a escravidão, inovou com o sistema de república federativa. Pelo qual influenciou a Revolução Francesa de 1789 e a derrocada das colônias americanas. 

Já o Haiti, em 1791 -- do aruaque "Hayti", "terra montanhosa" -- sacudiu fora o jugo do colonialismo francês e assombrou as Américas com a revolução anti-escravista de Toussaint l'Ouverture e seus jacobinos negros. 

Ato seguido, em 1806, com ajuda britânica Francisco de Miranda invade a colônia espanhola da Venezuela onde pela primeira vez a bandeira da independência foi hasteada. Entre os combatentes liderados por Miranda se achava David Burnet, dos Estados Unidos, mais tarde governador do estado do Texas após a separação do México, em 1836.

Desde 1810, a Venezuela iniciou a guerra de libertação sob liderança de Simon Bolívar proclamando a independência em 5 de julho de 1811.
As forças coloniais espanholas contra-atacaram e Miranda, temendo derrota arrasadora, assinou armistício com os espanhóis em julho de 1812 (Tratado de La Victoria). Bolívar e outros revolucionários julgaram a rendição de Miranda traição à causa republicana e o entregaram ao exército espanhol que o levou à prisão na Espanha, onde morreu em 1816. 

O IMPÉRIO ANGLO-AMERICANO MEXE OS PAUZINHOS POR BAIXO DOS PANOS

Apesar do independentismo republicano das Américas, o Reino Unido sempre fez jogo duplo onde houve oportunidade: contanto que causasse prejuízos a seus inimigos na Europa, França e Espanha. Na revolução paraense de 1835, a pretexto de punir responsáveis pelo saque do navio britânico Clio, em Salinas, trazendo contrabando de armas; emissário inglês ofereceu ao presidente cabano Eduardo Angelim apoio para declarar a independência da Amazônia. Proposta repelida entre outros motivos pela lembrança de Greenfell nos episódios de 1823 que legaram à Tragédia do Brigue Palhaço, causa principal da Cabanagem. Além disto, o cônsul britânico em Belém fomentava o comércio entre o Pará e a Inglaterra durante a insurreição e os irmãos Aranha foram agentes comerciais dos Estados Unidos.

Já o Povo Paraense fiel às suas raízes oriundas da antiga Terra dos Tapuias (bote aí algo como cinco mil anos, além de nossa primeira civilização amazônica -- a Cultura Marajoara -- de quase dois mil anos) movia-se pelo sentimento ancestral da confederação do Arapari (o país do Cruzeiro do Sul, Brasil pelo nome português). Enquanto comerciantes portugueses no Pará e Maranhão tinham todos seus interesses ligados a Portugal, com destaque ao Porto antes que Lisboa.

A dialética entre a Europa imperial e a América republicana estava inflamada. Para Joaquim José da Silva Maya (1811-1893), um dos membros da esquadra portuguesa recém-chegada da Bahia no Maranhão, a tensão que tomava conta de São Luís se devia ao crescente apoio à independência por homens “de cor”. No Pará a situação não seria diferente. O percentual de “pretos livres”, “pretos cativos”, “mulatos livres” e “mulatos cativos” era superior a 77% da população maranhense. 

Para os escravos, aliarem-se aos “brasileiros” era esperança de liberdade e as notícias do Norte confirmavam os sucessos abolicionistas no Haiti e na Guiana francesa. No interior do Maranhão muitos fugiram para aderir às tropas da independência e em São Luis participavam de conflitos de rua. O mesmo no Pará entre partidários do cônego Batista Campos e portuguesistas.

A situação pendeu de vez para o lado da independência em 26 de julho, quando aportou em São Luís o navio "Pedro I", cujo nome indicava a astúcia costumeira dos ingleses nas colônias. O navio estava sob comando do almirante britânico lorde Cochrane (1775-1860) e vinha da Bahia, onde a força mercenária inglesa apoiara a independência do Brasil. Então, chegou a vez de conquistar o Maranhão e Pará. No dia 27 de julho, 200 homens desembarcaram em São Luís e no dia seguinte intimaram os maranhenses a proclamar a Independência.

Nem sinal de festa e comoção popular. Foi uma pífia cerimônia com seis tripulantes do navio aos quais se juntaram 91 cidadãos, entre eles membros da Junta de Governo e da Câmara e outras autoridades locais. Sem entusiasmo saudaram a “Adesão ao Império Brasílico, e Governo do Imperador, o Senhor Dom Pedro Primeiro”. Do lado de fora do Palácio poucas pessoas observavam e a independência foi assinalada por simples repicar dos sinos, uma salva de tiros e o reconhecimento da “Bandeira Brasílica”. Muito pouco, comparado à multidão que celebrou a adesão maranhense à Revolução do Porto (1821) e nascimento de membros da família real.

Porém, mesmo sem manifestações públicas os homens “de cor” acreditavam que a independência lhes traria benefícios. O escritor João Dunshee de Abranches Moura, no romance "A Setembrada" (1931), diz que às vésperas da proclamação alguns negros escravos teriam tomado canoas e se dirigido ao navio "Pedro I" a fim de pedir asilo ao almirante Cochrane, na esperança de liberdade, em vão. 


Desde a fundação de Belém do Pará (1616) se sabe que as notícias circulam rápidas através do Caminho do Maranhão. Após a independência, os negros e tapuios participaram de saques às lojas e das surras aplicadas aos "portugueses" contrários à emancipação política. Libertos foram voluntários às tropas de segurança da cidade. No Maranhão, em meio à agitação nos dezoito meses após a adesão à independência, alguns negros foram convocados para participar da política. ( cf. Marcelo Cheche Galves, professor de História da Universidade Estadual do Maranhão e autor da dissertação “Jornais e políticos no município de Avaré” (UNESP, 2000).

No Pará, a proclamação de adesão à Independência do Brasil já fora feita em 28 de Maio. Mas o desprezo de Cochrane aos paraenses chegou a ponto de mandar um jovem tenente, com mentira para fazer crer que uma esquadra estava estacionada na entrada da barra em Salinas. E assim, o brigue "Maranhão" com marinheiros mercenários afeitos a todas violências do ultramar, por ironia do destino cruzou com a charrua "Andorinha do Tejo" conduzindo os patriotas paraenses condenados a prisão perpétua, depois de comutada pena de morte a rogo do bispo do Pará, Dom Romualdo Coelho.


Debaixo de canhões do brigue "Maranhão" renderam-se os portugueses do Pará em ato de 15 de agosto de 1823, denominado de "adesão" à independência. O truculento mercenário longe de se informar a respeito dos verdadeiros partidários da Independência deu posse aos mesmos portugueses contrários à Adesão... E o resto já se sabe, ou deveria saber.



 
A PERIGOSA IDEIA DE DARWIN


Tupã tenondé: revelação da profunda comunhão
entre Homem e Natureza no espírito das coisas.


Como Daniel Dennett escreveu em "A perigosa ideia de Darwin", não sei se deveria rezar a ela. Mas, toda vida é sagrada. Depois de um milhão de anos desde o berço da humanidade, na África, dois primatas da espécie Homo sapiens -- Charles Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913) -- vieram a América do Sul e em suas viagens compreenderam que a vida, por uma longa espiral evolutiva, desde os princípios do cosmo, se expande criando as espécies.

Claro que foi uma bomba com efeito de Nagasaki e Hiroxima sobre o Jardim do Éden: a humanidade desamparada do "pecado original" de Adão e Eva havia que ser responsabilizada por tudo, o bem e o mal da aventura do Homem neste vasto e complexo mundo. Inclusive da mudança climática hoje em dia.

O Homem, dotado naturalmente de cérebro proeminente e polegar opositor, evoluiu de espécies de hominídeos e ocupou todo planeta tornando-se consciente da história natural e responsável pelos acontecimentos gerados por sua própria espécie em relação de uns com outros e com a própria natureza individual e coletiva.

Vindos da Ásia, há cerca de dez mil anos atrás, o homem americano criou neste continente diversas culturas e civilizações ao longo do tempo. Entretanto, em pouco mais de quinhentos anos o homem europeu dedicou-se a matar física e espiritualmente seu irmão americano, passando a destruir tudo quanto ele havia construído escravizando-o para extrair e exportar riquezas alheias ao modo de vida deste ramo da humanidade.

Os primeiros viajantes e naturalistas do Novo Mundo, com seu preconcebido modo de ver os "índios" ocidentais; cunharam a frase equivocada: "índio vê a árvore, mas não vê a floresta". Em realidade, era o europeu em sua cega avidez que via a floresta como um vasto manto sob o qual escondiam-se tesouros imaginários afinal só revelados depois da revolução industrial (borracha, balata, madeira e diversos minérios, inclusive o fatídico ouro das maiores desgraças da humanidade).

O enganoso símbolo da riqueza foi a causa imediata da destruição das Índias Ocidentais conforme o dantesco relato do padre dominicano Bartolomeu de Las Casas. A história do cacique taino Hatuey -- o primeiro rebelde das Américas, cujo martírio foi memorizado em Cuba em monumento -- revela que os "bárbaros", logo do "descobrimento" da América em 1492; cedo perceberam que a religião dos conquistadores era o ouro é nada além. Para quem não enxergava a floresta onde a árvore existia foi demais... Curiosamente, com a morte do líder Hatuey surge na história de resistência americana indígena o nome do cacique Guamá que continua a luta anti-colonial. 

O mesmo nome gestáltico Guamá -- sabendo-se ademais, que além da perspectiva individual terapêutica segundo a teoria da Gestalt, o verdadeiro nome de um índio é um segredo íntimo do indivíduo e daqueles parentes assistidos do pajé que lhe deram o nome indizível pelo qual: portanto, um nome indígena ostentado externamente é como uma segunda persona de função coletiva -- seria registrado nas lutas indígenas contra os espanhóis no México ou Belize e arredores.  

No Pará, por acaso, o nome do cacique dos Aruãs e Mexianas, Guamã; ficou memorizado no rio que banha a cidade de Belém. Donde, de tempo em tempo até cerca de 1723, os valentes marajoaras enganados e traídos no acordo de paz de Mapuá (1659) pela expulsão do payaçu dos índios, Padre Antônio Vieira e seus confrades (1661) para criação dativa da Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665); vingavam-se de seus antigos inimigos hereditários Tupinambás e de seus aliados portugueses, assaltando aldeias de índios "mansos" (negros da terra) às ilhargas da capital paraense.

No longínquo Rio Negro, estado do Amazonas hoje; Ajuricaba, cacique dos Manaus; levantou-se contra as "tropas de resgate" (caçadores de escravos): é dizer, do Amazonas ao Pará nos inícios do Século das Luzes a tapuiada aruaca estava revoltada contra a escravidão na Amazônia colonial portuguesa. Embora decadente era a nação Tupinambá com seus arcos e remos imprescindíveis comandados por mamelucos (filhos de índias e portugueses) façanhudos que, para os cronistas da época, adotava nome de "portugueses" embora já essencialmente fossem eles brasileiros em formação. 

Até aí a língua geral amazônica ou Nheengatu era o instrumento colonizador, na Redução missionária onde se forjava, sobre as ruínas pagãs tapuias; a civilização cristã-nova brasílica. Este projeto messiânico casando o útil ao agradável entre colonizadores e colonizados, todavia, teve sua história cortada rez ao chão pelo império de Dom José I mediante a expulsão dos Jesuítas (1760), cem anos depois de Vieira dar por concluída a missão de paz aos Nheengaíbas a deixar o Pará tranquilo e seguro, após 44 anos de guerra de conquista do rio das Amazonas, desde a tomada de São Luís do Maranhão (1615). 

Desde então, o Iluminismo lançou as suas sombrias consequências ultramarinas na Amazônia. E o Diretório dos Índios (1757-1798) decretou a extinção geral dos indígenas para invenção original dos cabocos: ao contrário dos Yankees para os quais "índio bom é índio morto"; nossos avós portugueses incapazes de caçar, pescar e fazer roças para seu próprio sustento no trópico úmido, cuidaram de transformar "negro da terra" em súdito e importar "negro da Guiné" para as mais tarefas de escravo.

Foram estes portugueses abrasileirados de outrora que provocaram a guerra civil chamada Cabanagem (1835-1849) e plantaram o pendão do Império do Brazil sobre o chão ensanguentado da extinta terra Tapuia. 

domingo, 23 de agosto de 2015

REMANDO PELA MARGEM ESQUERDA DA MEMÓRIA




CUTUCANDO O ESPINGARITO DA MEMÓRIA PARA ACORDAR IDEIAS ADORMECIDAS NA ESPICHADA SESTA DA CASA GRANDE: 
Pra que servem "cacos de índio" achados ao acaso na paisagem cultural?


Já se sabe a história dos cacos de índio achados pelo caboco Vadiquinho e que, através do olhar e das mãos criativas de Giovanni Gallo, se transformaram em O Nosso Museu do Marajó e também na obra provocadora aos artesões paraenses, Motivos Ornamentais da Cerâmica Marajoara.

Pelo mesmo princípio do barro dos começos do mundo, um certo índio sutil chamado Dalcídio Jurandir recolheu junto à sua criaturada grande um sem número de palavras e expressões idiomáticas que compõem um mundo original na obra monumental do Extremo Norte. O romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira" contém em germe todos os mais romances do ciclo, com exceção de Marajó, primeiro romance sociológico brasileiro nascido Marinatambalo.

Esta palavra é um mistério sem fim. Diante de Marinatambalo ou Marinatambal quedam-se inúmeras indagações, todas elas sem resposta conclusiva. E o silêncio que brota do princípio das coisas, abraça a breve notícia da suposta ilha Marinatambalo no nevoento relato da viagem de Pinzón, piloto de Colombo; querendo ser a primeira viagem de um navegador europeu às partes marítimas do Brasil apenas alguns meses antes da frota do tal descobrimento de Pedro Álvares Cabral.

Então, como já se deve saber, segundo Pinzón os 36 índios que ele escravizou na dita ilha a conheciam por Marinatambalo, como hoje nós a conhecemos por Marajó. Mas, afinal quem eram os "marinatambalos" que se supõe foram desembarcados na ilha Hispaniola (Haiti outrora e República Dominicana agora) como escravos dos espanhóis? Podiam ser nativos de uma aldeia qualquer na figurada "Punta de los Esclavos" na cartografia amazônica do século XVI, organizada por Isa Adonias? O golfão Marajoara (Aziz Ab'Saber), com as suas duas mil e tantas ilhas grandes e pequenas, fluviais e marítimas; está povoado de vestígios toponímicos por todas partes.

Rastros toponímicos, talvez, de até cinco mil anos deixados por grupos paleo-índios nômades se apagaram no tempo, mas certas palavras do Homo sapiens Tapuya, na classificação "errada" do sábio de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira; soltas ao vento como aves encantadas passaram de geração a geração, forjando etnias, línguas e culturas diferentes da babel linguística amazônica. Antes que chegassem cá os jesuítas, no século XVII, com sua boa língua catequista, o Nheengatu; e o Diretório de Pombal com o português civilizado obrigatório, no século XVIII.

Euclides da Cunha foi preciso ao cunhar a obra "À margem da História": desta marginalização colonizadora foi parido o "espaço vazio" que engoliu uma multidão de seis milhões de índios e milhares de línguas amazônicas nativas. E tudo isto em nosso século seria apenas uma curiosidade de almanaque, se não nos interrogasse o futuro: aonde vai o povo marajoara, por exemplo, com os seus 2.000 anos de Cultura Marajoara. Que povo foi aquele da Cerâmica Marajoara dos começos da civilização amazônica pré-colonial? Donde veio? O que a fez desaparecer ou ser assimilada por outras? Que deixou de fazer ou ainda talvez podia fazer? O que permanece de antigas etnias na gente marajoara de nossos dias?

Antes de mais nada, quem quer que se meta a responder há que estar prevenido da colonialidade de suas próprias ideias a respeito do espaço e do tempo em que vive. Aprender a separar a ciência dos acontecimentos (história) e o registro temporário do curso desse mesmo rio (historiografia). Semelhante à descida do Amazonas e do Rio Negro desde o encontro das águas elas não se misturam. Se as fontes historiográficas estão mais ou menos organizadas; a literatura oral, mitologia, cultura tradicional formam o "rio Babel" propriamente dito (ver a obra de José Ribamar Bessa Freire deste nome) num verdadeiro caos.

A obra de Armando Levy Cardoso, "Toponímia Brasílica", geógrafo que trabalhou no serviço de demarcação de fronteiras da Amazônia está prenhe duma enormidade de palavras bárbaras como "cacos de índio". Fragmentos descosidos, todavia, que provocam mais a imaginação do que trazem a certeza. Está mais para a arqueologia do verbo brasílico pré-colombiano e combate a 'tupimania' para adentrar às camadas mais profundas da massagada aruaca: alma mater da amazonidade perene.

A formação humana do Brasil acha nos nomes indígenas de lugares muito antigos as verdadeiras raízes de nossa gente. E neste particular ainda Marajó desafia nossa curiosidade para empreender arqueologia das ideias e psicanálise da história. Nisto, com certeza, o romance dalcidiano ajuda a decifrar o enigma da amazonidade.

O índio "malvado" (marãyu / marajó), falante da língua ruim (nheengaíba), está assinalado negativamente como todos mais Tapuya (tamoio, tamu, avôs) na voz do conquistador tupi-guarani. O qual - na busca guerreira da utopia selvagem, Terra sem mal, chamada -, foi escravo e depois peão dos colonizadores na dura faina cheia de males sem fim: esta barreira humana falante da "língua ruim" (na verdade muitas línguas e culturas Nu-Aruak) na luta de resistência à invasão se confundiu com o território das ilhas (dos Nheengaíbas, Joanes, Marajó)... Marinatambalo, Analau Yohynkaku para os endiabrados Aruãs (talvez, o verdadeiro marajó da história).



DIALÉTICA DA CULTURA MARAJOARA: 
SEMPRE SE DEUS QUISER, MAS TAMBÉM HÁ QUE BOTAR O DIABO A DAR AJUDA À GENTE.

No dia 24 de agosto o Diabo costuma andar solto em Paris e também na história do Brasil já fez diabruras mil. Neste outro lado do mundo chamado Marajó, o considerado dia do Berto não é dia santo nem feriado não. Porém, mais guardado que o feriado do dia da Pátria... Reza a lenda que o Berto (nome local do Capeta, derivado da célebre Noite de São Bartolomeu, em Paris, quando furiosos católicos, diz-que tomados pelo Cão, massacraram milhares de protestantes) vaga pelas varjas e matas sombrias.  O grande medo pânico, herdade da humanidade, reina na ilha do Marajó neste dia. Casos de acidentes fatais ocorridos neste dia reforçam a lenda na memória da ilha.
No dia do Berto caboco não trabalha nem pra tecer paneiro dentro de casa. Ou, pelo menos, nos tempos antigos não se levantava da rede nem pra cuspir... Hoje tudo está modificado: sem memória, então, que que as coisas ficam como o Diabo gosta. Quem, então, poderia ter dado a notícia da Noite de São Bartolomeu aos índios do Maranhão e Grão-Pará? Em São Luís do Maranhão os pajés tupinambás consultavam o espírito Jurupari (manifestado em sonhos, pesadelos e na dança pela voz do maracá) para as suas guerras e aventuras.

Isto encheu de pavor aos padres capuchos da França Equinocial, que sem maior explicação diabolizaram Jurupari declarando-o o próprio Satã em pessoa vindo ao Maranhão atrapalhar a obra de Cristo. Deixa estar que os índios interpretaram a história como melhor lhes convinha. Já que o velho espírito indígena passava a ser visto pelos cristãos como o coisa que não presta; urgia os pajés achar serviço que preste para ele.

Foi assim que o Berto, em seu dia, vai pelas varjas mijar nos pés de açaizeiro a fim de fazer a safra toda pretejar (amadurecer). Por isto, dizem os velhos cabocos, que para ser veneno o "vinho" de açaí falta só "um grau". Portanto, não se deve misturar açaí com nada mais, exceto farinha e peixe assado na hora da boia.




O que é toponímia? https://pt.wikipedia.org/wiki/Topon%C3%ADmia