domingo, 25 de maio de 2014

MINHA AVÓ ANTÔNIA


imagem do tema: a índia morta e sua 
cria caboca  predestinada a resistir à
destruição do patrimônio ancestral.


"A gente não morre. Fica encantada" (Guimarães Rosa).

Noite estrelada - Van Gogh


Eis que aprendi em certa noite estrelada a lição inesquecível de um índio maquiritare, à margem do rio Uraricoera no distante ano de 1977. Havia eu 40 anos de idade e este meu mestre de fortuna tinha, aparentemente, pouco mais da metade de minha idade. O que torna o caso mais interessante. Conforme velho costume, ele fora contratado entre uma dezena de índios da fronteira para ajudar a mateiros "suraras" (trabalhadores cabocos, do nheengatu 'soldado') para guiar na floresta demarcadores de limites do Brasil e Venezuela a achar no terreno o divisor de águas das bacias do Amazonas e do Orenoco. 

Os índios das regiões amazônicas sabem perfeitamente o que é um divisor de águas... Enquanto alguns bons "civilizados" acreditavam que demarcadores de limites subiam montanhas carregando latas d'água para ver em que direção corre a "fronteira" nos termos dos tratados de demarcação. Mesmo nos diversos cursos de geografia e história no país são raros mestres que sabem e ensinam o papel fundamental dos índios da Amazônia nas demarcações de fronteira. Muito especialmente a histórica contribuição -- sine qua non --, da nação Tupinambá na conquista da Amazônia e construção territorial do Brasil. Quando, finalmente, a antropologia ameríndia entrar no primeiro capítulo da História do Brasil o povo brasileiro há de descobrir que nossa historiografia oficial é potoca.

Meu ocasional mestre em apreço, sobrinho do então cacique de Auaris, Frenaro cuja família adota o nome do famoso "explorador" (naturalista) espanhol na Venezuela Apolinário Días, convertido ao idioma maquiritare ou maigong, nem sonhava ser eu um relaxado neto de índia marajoara. Mesmo assim, gentilmente, me cercou de atenções deliberando por conta própria ensinar-me num curso intensivo que durou de janeiro a maio algumas noções da língua e cultura de seu povo. O aluno continua sendo tacanho, malgrado o empenho do professor. O melhor de tudo para mim - pelo que serei grato até o fim da vida - foi sobre a imortalidade dos pajés e dos caciques. 

Veja, dizia-me ele, aquela estrela. É fulano de tal... Foi ele um grande líder na terra e agora mora no céu. E ali mais em cima está beltrano, foi um pajé extraordinário. E contava os tantos prodígios daquelas vidas transformadas em heróis no infinito. Eu acho que entendi a lição de patrimônio cultural imaterial duma maneira verdadeira que talvez nem na Convenção da UNESCO sobre diversidade cultural se encontraria explicação mais feliz. 

A memória viva da tradição oral é, então, maior garantia de sobrevivência que nenhum museu ou outro meio morto de comunicação poderá substituir. Lá junto às estrelas a astúcia evolutiva da cultura não poderá jamais ser corrompida pela destruição inexorável das coisas terrenas, onde tudo se dissolve no ar. Todavia é preciso religar os conhecimentos. Ativar a rede neuronal da memória entre pais e filhos, fundamentalmente o insubstituível papel das mães em cada comunidade local. Índio morto não é apenas uma tragédia local, mas sobretudo uma pesada perda para a humanidade inteira. Não podemos ser ingênuos nessa história de 500 anos de civilização "universal": por outra parte, a soberania nacional sem autodeterminação do povo é miragem. Uma nacionalidade postiça sobre meia dúzia de capitanias hereditárias, fazendo tabula rasa dos povos originais do país, é comparável a um castelo de areia e porta aberta a todas conquistas. De toda forma, a cidadania planetária é para todos no concerto das nações -- sem apartheid entre classes, "raças", gêneros e países --, ou então cale-se o empolgante discurso da Civilização.

No mundo mágico, Preto velho e índio Pena Verde habitam o reino da Encantaria, na terra sem males da esperança do tempo sem fim - onde não existe fome, trabalho escravo, doenças, velhice e morte -, junto aos deuses ancestrais. Todavia, ainda faz escuro e os poetas da negritude do país natal de todos os negros da Terra precisam cantar com os galos da madrugada: que é para o dia nascer feliz no parto da utopia da fraternidade. Nada é mais urgente na crise civilizacional da Modernidade...

Hoje ainda, em realidade, é mais fácil a população se movimentar indignada contra suposto superfaturamento da FIFA na Copa do mundo ou o real descaso das autoridades quanto à má conservação dum monumento colonial qualquer, do que o povo unido reclamar do esquecimento induzido da memória da ancestralidade original do povo brasileiro a respeito da idade do barro na Arte primeva brasileira: naturalmente, a cerâmica marajoara de 1500 anos descoberta por acaso no Dia da Consciência Negra (de 20 de Novembro de 1756, conforme a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes ou Marajó" (1783), do naturalista de Coimbra Alexandre Rodrigues Ferreira, longamente adormecida entre coleções de obras raras a par de sua congênere de 1754, atribuída a autor anônimo e guardada entre preciosidades da Real Biblioteca da cidade do Porto, em Portugal, hoje felizmente ao alcance da internet) que - com efeito! - 99% do povo marajoara não sabe quem foi, extraída na casa da mãe Joana e repartida no mundo, sem lenço nem documento, pelos donos do poder. 

O mundo inteiro clama contra a devastação das florestas tropicais e mais particularmente no que diz respeito à perda de biodiversidade da Amazônia, mas se revela negligente na hora de comprar madeira não certificada e não está nem aí diante da extinção das línguas e culturas indígenas. Quando não se orgulha em concordar e repetir, cinicamente, o velho ditado colonial "índio bom é índio morto", alimentando a colonialidade da indiferença. Achando cheio de si que a destruição das Índias foi o maior triunfo da Civilização e não o fato que deveras foi: o maior genocídio da Terra.


A PARTE QUE ME TOCA DESTE LATIFÚNDIO

Agora que o "índio sutil" Dalcídio Jurandir já morreu, como disse o falecido poeta Carlos Drummond de Andrade. E Guimarães Rosa também já morreu. Jorge Amado. O pai da negritude, o amado Cesaire da Martinica. Bruno da Academia do Peixe Frito e todos acadêmicos do Ver-O-Peso do tempo de São Benedito da Praia... Giovanni Gallo do Museu do Marajó já morreu como o seu irmão desafeto bispo de Ponta de Pedras, dom Angelo... Gabriel Garcia Marques foi embora para o Macondo celestial, porém o realismo mágico não há de morrer jamais, por que ele precedeu a humanidade filha da animalidade. 

Meus pais também já passaram desta para melhor e é bom que eu também vá me preparando a atravessar a fronteira entre a vida e a morte. Entre o real e o virtual. Começar a compreender o absurdo da pintura esquizofrênica de Von Gogh, por exemplo, com o absurdo preço de seus quadros atribuídos por seus colecionadores que não se comovem com a loucura abandonada entre mendigos e drogados pelas ruas das grandes cidades. É bom que eu comece a entender o elogio da loucura de Erasmo e comece também a escolher uma distante estrela numa noite estrelada qualquer para a única e definitiva morada desta nossa vida absurda, onde a abundância e a indiferença caçoam da fome e abandono de tanta gente. 

Minha avó Antônia morreu ao fim de um parto laborioso de gêmeos filhos do capitão Alfredo meu avô paterno. Do casal nasceram Sophia, Raymundo, Laudelina, Otaviano, Ambrosina, Lindinha e no sétimo parto da índia os gêmeos da tragédia. Era o dia 22 de agosto de 1904, o penúltimo filho da índia minha avó nasceu morto: mesmo assim, parece que ele foi parido para ser meu tio anjinho no além... Este natimorto do paraíso perdido recebeu nome de Emanuel e desceu à terra fria feito anjo enterrado ao lado de sua falecida mãe. 

O capitão meu avô, então viúvo, se casou depois com dona Margarida Ramos e numa segunda viuvez casou-se ainda com dona Isabel Trindade que faleceu depois do branco velho. Ambas mulheres eram negras, que com a índia tapuia deram ao descendente de portugueses dezesseis filhos ao todo, acrescidos de outros que ele teria arranjado fora dos tais casamentos ao tempo da solteirice em terra farta de "icamiabas" (mulheres sem marido), rica de filhos de boto na mina de cunhados e afilhados bons pra toda obra. Com que o resistente matriarcado amazônico vai ganhando tempo face ao outrora avassalador e agora decadente patriarcado ultramarino. 

O outro gêmeo, supostamente natimorto como o primeiro, foi deixado de lado pela parteira ao fundo duma rede que, cada passante, na ânsia de salvar a mãe passava como pé de vento e balançava a rede como galho de árvore na ventania... Foram debalde as tentativas para estancar a hemorragia da mulher, então o choro e o desespero tomaram conta do chalé familiar na vila de Ponta de Pedras, onde a vizinhança acorria à porta... Só então alguém se lembrou de ver o recém nascido e escutou um vagido vindo no fundo da rede: enfim, restava uma vidinha em lugar daquela que se despedia da terra para ir morar no céu das recordações de seus parentes.

Logo, Sophia, a filha mais velha aos dezoito anos de vida, ajudada pela irmã Lodica (Laudelina) de dezesseis anos, assumia a criação do irmãozinho órfão e responsabilidade dos irmãos mais novos. Ambrosina ficara cega... E as duas irmãs mais velhas iriam ficar solteiras para cumprir a missão deixada pela mãe. A criança cresceu fraquinha, mas revelava fortaleza de espírito a par de humildade e dignidade incorruptíveis. 

O filho da índia Antônia sobreviveu, ele chamava de mãe a sua irmã Sophia. Foi meu pai e mestre por toda vida, guiando-me constantemente até quase seus 90 anos de idade, com ele aprendi a enfrentar e suportar o inferno verde e ainda hoje seu exemplo de vida me orienta e inspira. Meu pai caboco recebeu nome de Rodopho Antonio, escolhido por meu avô, para lembrar o padrinho imigrante alemão e honrar a memória da índia morta. 

O caboco sobrevivente da tragédia ameríndia se casou com a galega de olhos azuis, Othilia, católica apostólica romana de velha cepa, filha de camponeses da Espanha tropicalizados por necessidade e acaso na ilha do Marajó em meio a uma peculiar negritude da diáspora africana no rio das Amazonas, orgulhosa gente branca de rígida opinião que "quebrava, mas não vergava"... Esta linda mulher, amável e indomável ao mesmo tempo, foi minha mãe. E o casal autor da minha vida me deixou por herança esta singular metáfora de fé na vida, ainda que nas piores circunstâncias. 

Pena que mamãe, em sua simplicidade tenha sido vítima dum catolicismo fanático e de crônico distúrbio nervoso bipolar, insistindo para eu "não puxar" a meu pai no seu modo de vida de "livre pensador". Na verdade, só isto me interessa. A heresia de um caboco gentil, mas que não se enganava com cantos de sereia e se orgulhava de suas raízes tendo "sangue cabano" correndo nas suas veias.

Rodolpho e Othilia se casaram, presumo, em 1936. Ele havia 32 anos de idade e ela 28 anos. Foram morar numa casa modesta próximo ao Curro Municipal onde ele, servidor da prefeitura, era administrador cumulativo com o cargo do Mercado Público, bairrozinho na beira do rio chamado o Fim do Mundo. A gravidez sobreveio logo no início no ano entre chuvas de inverno e cantos dos sapos alegres... Provavelmente, a idade da mãe e o medo do pai lembrado de sua tragédia pessoal, ademais aconselhado por suas duas irmãs também receosas do que pudesse acontecer em mãos de parteiras locais, tivesse sido bom motivo para ir à cidade grande buscar assistência médico-obstetrícia que faltava no lugar, durante o primeiro parto da branca para parir o caboquinho que vos fala. 

Ainda hoje muitas mulheres da ilha do Marajó, em dificuldade ou prevenção na hora do parto, pedem socorro a Belém. Tradicionalmente, índias, quilombolas e cabocas tinham seus filhos sozinhas ou com ajudas de parteiras. As brancas também tinham por costume pedir ajuda às parteiras do lugar. Mas, em 1937, fosse por que fosse acompanhada de meu pai minha mãe embarcou em igarité veleira na vila do Itaguari (Ponta de Pedras), desceu o rio Marajó-Açu, atravessou a baía sob vento ponteiro certamente e desembarcou na doca do Ver o Peso, na cidade grande de Belém do Pará, onde o casal pegou bonde da linha Circular ou automóvel de aluguel com chauffeur (naquele tempo Paris n'América, os bons burgueses ainda não diziam táxi, como depois da americanização pós-guerra). Saltaram depois de alguns quarteirões pela avenida 16 de Novembro, na esquina com Veiga Cabral indo bater a porta de minha tia e segunda mãe, casada com português de Póvoa de Varzim, moradores da casa número 369, antiga numeração.

A 16, antiga estrada de São José, era uma rua reta como um fuso, os trilhos do bonde cravados entre paralelepípedos de granito - nunca esquecerei como é difícil a um caboco recém saído do mato pronunciar 'pa-ra-le-le-pí-pe-do - , calçada de pedras de lioz de ponta a ponta, margeada de altas palmeiras reais... Claro que eu só vi estas coisas seis ou sete anos depois, naquela hora eu estava bem arranjado dentro da barriga de minha mãe...  

Nasci dias depois na maternidade da Santa Casa de Misericórdia do Pará, de parto natural. Como era de esperar, minha mãe não deu azo ao Diabo e mandou me batizar imediatamente na igreja da Santíssima Trindade (agora sei que o terreno desta igreja era uma rocinha dos irmãos Abranches, imigrantes das ilhas do Açores, e que ali vinha dar o Igarapé do Piry e começava o caminho do Maranhão), foram meus padrinhos a tia Hermengarda e o primo de minha mãe Herculano Sidney, chamado Sidinho. Feito isto, meus pais zarparam de volta à ilha natal com sua cria devidamente cristianizada.

Tudo isto são recordações dos outros, das quais me apropriei ao longo do tempo, depois que abri meus olhos e ensaiei os primeiros passos no Fim do Mundo. Era como despertar de um longo sono e ao acordar compreender, pouco a pouco, quem eu sou... donde vim. E agora aonde irei depois do fim. Se houver um fim. Achei na internet a figura de uma índia amamentando. Já que toda minha vida prestes, a cravar 77 anos, se transforma também ela em história que nem um rio que nasce em fontes desconhecidas e promete continuar a jornada para além da própria vida, me dou conta de que minha avó Antônia é um símbolo de outras vidas que se escondem pelas margens da história. Para conseguir este fragmento de memória coletiva, careci importunar durante muito tempo minha avó postiça Sophia e tia Lodica a fim de tirar água da pedra da desmemória.  


METÁFORA DA AVÓ ÍNDIA

Muitos de nós enterramos nossas avós índias e pretas no recanto mais escuro das lembranças. E queremos restaurar o patrimônio colonial. Congelar a felicidade dos bons tempos e apagar da memória as ruínas da barbaridade. Parece justo operar esta seleção mas os sábios da alma dizem que é impossível deletar o passado e os tratados médicos costumam dizer que esta tentativa desesperada, muitas vezes, é sintoma de uma conhecida doença. Próximos dos 400 anos de Belém, convém desde já cuidar para que cada peça do patrimônio material recuperado seja também uma senha que abre portas do patrimônio imaterial deslembrado. E que esta ampla revitalização liberte também a Feliz Lusitânia de seus fantasmas.

Um comentário:

  1. Achei muito interessante a narrativa, lembrando história dos antepassados, isso é um privilégio de poucos, sei que tem iniciar muito cedo com os mais antigos, essas informações , parabéns.
    Por outro lado, me interessou sua passagem quando pequenino, no fim do mundo, hoje nos pertence , gostaria de conhecer o passado desse local.
    Ernesto Ribeiro Baia, filho também de PP.
    erbaia@ig.com.br

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