sábado, 10 de janeiro de 2015

tio Dal





Querido tio Dalcídio,

se você estivesse morto hoje farias 106 anos de idade: mas, na verdade, ninguém faz aniversário no tempo encantado, sobretudo, sob a pele de Alfredo e seu caroço de tucumã mágico vivendo ao lado de Andreza transfigurada em Princesa encantada no lago Arari tal qual teu alterego sonhava em cumplicidade com a sonsa entre rusgas e cismas das três casas e um rio da vida ou, como Guimarães Rosa ponha fé, transformado na estrela misteriosa que os antigos pajés Sacacas viram cair certa noite em pleno lago Guajará como anúncio, talvez, que teu verdadeiro nome de índio sutil seria Jurandir ("o que foi trazido pela luz do céu", "o que fala doces palavras").

estás agora cada vez mais vivo na cabeça e no coração da tua Criaturada grande, conforme reza à mais antiga das mais antigas filosofias dos povos originais da mãe Terra; neste memorável dia 10 chegaste do ignoto mundo dos caruanas carregado nas asas do pássaro guará tinto de sangue dos cabanos ressuscitados pelo dom daquele caranguejinho dos campos alagados, crairu chamado; que morre no peso do verão e revive com as primeiras chuvas do ano para habitar a terra dos mortais e vinhas tu do encantado país do sonho como todos os viventes e, por acaso,  no dia 16 de junho de 1979 retornaste às mesmas paragens eternas após setenta janeiros ao fim de dias e noites na passagem dos inocentes desta ilha-mundo.

por acaso deu-se tua natividade numa pobre barraca coberta de palhas tiradas pelas mãos do avô Bibiano, da mata próxima e o chão de barro batido por muitas gerações, porém muito bem tratada e rodeada de pés de cajueiro num terreninho baldio de areia fina varrido todo dia com vassoura de açaí; no Campinho, vila de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó, ano de 1909, lugar onde teu tio Manuel Ramos costumava fazer presépio e apresentar lindas Pastorinhas.

o rio Paricatuba foi a parte que te coube neste latifúndio para reforma agrária da antiga sesmaria da imaginária fazenda Marinatambalo, pela herança dos barões hereditários da ficção do romance "Marajó" e os campos de Cachoeira te levaram longe pelos caminhos do mundo afora.

agora ainda mais longe o chalé imaginário de Petrópolis por ironia da baixada cachoeirense, a chuva que faz renascer o verde das queimadas nos invisíveis campos de Cachoeira estão te levando alto à posteridade, enquanto a triste realidade mata o sonho com a "plantation" aluada de arrozais que nem o bicho folharal assusta a Criaturada e faz desaparecer peixes e aves envenenadas: nem parece que tu vieste verdinho a este mundão de águas do Dilúvio como peixinho da lenda da cobragrande a te enxugar ao sol sobre as pedras da ponta do rio Marajó-Açu a fim de virar gente desencantada: estavas muito cansado, como qualquer cria que acaba de nascer.

que nem tua fatigada mãe a descansar de nove meses a bom ver o peso do filho dela crescer na barriga esperando o que seria o fruto concebido daqueles dias de euforia em segredo e medo do falatório das boas famílias e a língua grande da vizinhança na vila carente de futuro e lazer.

nos tais dias e noites de amor a preta pobre desletrada e o retórico capitão branco remediado e viúvo cobiçado das solteironas de família tradicional romperam certos padrões e preconceitos de um mundinho desafortunado e mesquinho: então ela deu a luz com ajuda de parteira caseira e tu foste para os teus um menino deus mulatinho e pagão destinado ao batismo católico na igreja de nossa senhora da Conceição, onde o tio Manuel Ramos era sacristão e zelador na falta de vigário quase sempre.

os reis magos nunca chegaram a Ponta de Pedras, exceto no presépio do Campinho com nuvens de algodão e estrela de papelão apontando para a rua Belém a caminho da praia da Mangabeira onde a antiga aldeia indígena nasceu; mas teu pai que era versado na arte pirotécnica mandou soltar dois rojões para avisar à redondeza de que lhe havia nascido mais um macho na família (se fosse fêmea, seria caso apenas de um foguete só estrondar naquele dia nas bandas do Campinho, conforme o costume); tio Manuel Ramos na hora da ladainha do Divino bateu o sino da igreja com a maior alegria e foi aí que tua mãe te deu nome José, do carpinteiro pai de Jesus de Nazaré e de teu outro tio irmão mais velho dela; tal qual minha devota mãe quis que eu também me chamasse assim acrescido de Jesus e Maria, que frei Inácio graças a deus barateou em José Maria apenas; foste Dalcídio por vontade de teu pai e meu avô Alfredo Nascimento Pereira, professor e rábula aficionado por nomes exóticos para dar aos muitos filhos que ele teve com três mulheres dentro de casa e não sei quantas por fora...

no cartório do senhor Raimundo Malato, da comarca, livro do ano de 1909, ficou registrado nascimento de uma criança do sexo masculino, filho de Margarida Ramos, solteira, nascida em casa do declarante Manuel Eustáquio Ramos, irmão da mãe da dita criatura recém parida, situada à denominada rua Samuel MacDowell nome de doutor para uma simples viela que serpenteava, desde o Fim do Mundo passando pela frente do Cemitério e por trás da Intendência (prefeitura), para entrar pela boca do Campinho entre açaizais risonhos e parrudos pés de palmeira miriti.

entre a criativa vontade do pai e a expedita pronúncia do tio, no falar marajoara, face ao cartorário restou um tal "Darcidio José Ramos" com que, certamente, o retórico capitão Alfredo não gostou e teve ele mesmo em pessoa que retificar, suponho, já como Dalcídio José Ramos Pereira na vila de Cachoeira; onde a cabo da viuvez advinda da morte de minha avó índia da aldeia da Mangabeira, Antônia Silva (1904), o capitão Alfredo contraiu matrimônio com dona Margarida e fez reconhecimento oficial de paternidade dos filhos do casal até então (Flaviano, Dalcídio e Ritacínio), festejada por filhos de ambos casamentos na fazenda Mãe Maria, segundo me contava meu pai caboco Rodolpho Antônio Pereira (Ponta de Pedras, 1904 - Belém, 1992) que lá esteve presente assim também seu irmão mais velho de pai e mãe, Otaviano Celso, poeta parnasiano obscuro que foi protótipo talvez de Eutanazio no romance seminal "Chove nos campos de Cachoeira".

Meu mestre amado e camarada,

muito poderia te dizer numa carta póstuma nesta ocasião, mas se no tempo do sonho não há calendário nem relógio semelhantemente à idade do mito da primeira noite do mundo com aquele primitivo sol sempre a pino; aqui na terra dos homens nem bem o dia amanhece e quando se vê já é noite...

assim, nada direi no momento de nosso primeiro encontro ocorrido em casa de tia Alfredina, em Belém, quando eu repórter fui entrevistar o já famoso escritor Dalcídio Jurandir e acabou que não perguntei coisa nenhuma só a te responder sobre como iam todos da banda de lá na ilha grande, Cachoeira, Ponta de Pedras e vizinhanças;

nem falarei a respeito da carta que me mandaste em resposta por mãos do tio Ritacínio sobre minha pretensão em publicar o romance "Tipacoema", rebento duma infinita escritura danada que até parece o fado do Padre Antonio Vieira; que me escreveste para não desistir em dar testemunho do homem aqui largado em plena maré, tua criaturada como dizias secundado por Eneida de Moraes.

então, para encerrar estas mal alinhavadas linhas, estava eu ainda com cerca de sete anos de idade, em casa de meus pais em Ponta de Pedras a um quarteirão de distância da casa de meu avô Alfredo e sua terceira mulher, dona Isabel Trindade; e minha mãe, Othilia Varella Pereira; falava dos idos da mocidade dela morando no sítio Serrame, à margem do Rio Canal pouco acima do Curral Panema de que escrevi ultimamente: papai também era pródigo em contar muitos casos dos velhos tempos da família: minha rica imaginação infantil foi irrigada de imagens do lago Arari na era das vacas gordas, pássaros, bichos, campos gerais cheios de gado, fazendas Diamantina, Porto Santo, Fé em Deus, Por Enquanto, Araquiçaua, Laranjeiras... entre Ponta de Pedras e Cachoeira o rio era um só como todo conjunto de tuas obras no ciclo extremo-norte.

não havia um só dia em que a literatura oral onde tu fostes beber na fonte, não estivesse posta à mesa em minha velha casa de infância na rua Lauro Sodré, antiga Samuel MacDowell; mamãe relembrava passagens do sogro dela com a esposa dona Margarida e filhos do casal, no Serrame, ora a subir o rio para Ponta de Pedras e outras vezes a descer rumo a Cachoeira: foi numa ocasião dessas que ela conheceu Rodolpho, que veio a ser meu pai e de minhas duas irmãs.

tu eras ensimesmado, dizia ela, que te apelidou "Bico da Cachoeira" pelo hábito de contrair e apontar os beiços quando parecias sisudo. Já o tio Rita (Ritacínio Ramos Pereira) era rei da simpatia e dotado de fértil imaginação que cativava a todos. Meus dois avós eram amigos de muitas datas e consta que entre o capitão Alfredo e minha avó Maroca havia parentesco pelo lado da família Pereira.

até aí tu eras para mim um tio ausente morando no Rio de Janeiro, chamado Dalcídio simplesmente, que como outros eu não conhecia a não ser por ouvir falar em casa ou na casa de avó Sofia (Sophia Tautonila Pereira, na verdade minha tia, sendo tua irmã mais velha e mãe adotiva de meu pai, teu irmão por parte de pai).

então minha querida tia Armentina quase mãe de criação, irmã de minha mãe, chegou em Ponta de Pedras procedente de Belém: trazia ela de presente para mim dentre outras lembranças um catecismo católico cheirando a tinta, editado sob ordens do arcebispo de Belém dom Mario de Miranda Vilas Boas; onde logo na contracapa havia advertência sobre obras impróprias à leitura dos bons católicos.

e lá estava um certo "Dalcídio Jurandir" que a tia explicou era o mesmo filho do capitão Alfredo, devoto de Santa Rita de Cássia a ponto de inventar o nome de seu terceiro filho com dona Margarida, Ritacínio, em homenagem à santa: foi aí que vim a saber a história de meu bisavô Raymundo Pereira, recrutado como "Voluntário da Pátria" para a Guerra do Paraguai donde voltou com uma pequena imagem da mesma, salvo de morrer em combate mas não da tísica que o vitimou; por este fato meu avô como arrimo de família deixou estudo de direito na capital para ir lecionar em Muaná donde foi transferido a Ponta de Pedras, levando com ele aquela imagem paraguaia que, por sua morte, passou a meu pai e por morte deste último passou aos meus cuidados até agora.

o estrondo anticlerical que o romance "Marajó" fez agravou antecedentes de tua carreira pela esquerda do Ver O Peso com a academia do peixe frito, Tó Teixeira, Bruno de Menezes, Rodrigues Pinajé e outros bichos papões que te levou à prisão na horrorosa Cadeia de São José;

meu avô deveras chocado com a infausta notícia que chegou a bordo do "Boateiro" de um marinheiro só chamado João Catumbi, mandou meu pai urgente a Belém a fim de saber ao certo o que tinha acontecido até aquele ponto: Sidraque Pereira, irmão adotivo, era sargento da PM e por acaso foi teu carcereiro no São José; foi ele quem levou notícia a tua casa com a mensagem secreta: "queimem meus livros"...

fico olhando agora a imagem da santa achada na guerra do Paraguai que hoje comigo está na estante junto a meus livros e guardados mais caros e penso: que poderia eu sentir se a polícia varejando motivos para manter-me em prisão por motivos políticos me obrigasse a pedir a alguém para queimar meus livros? 

por que tudo aquilo se passou contigo e Guiomarina entre o ano que eu nasci, 37 e 1939, quando no fim do tempo do cárcere foste à vila de Salvaterra com tua brava esposa salvar tuas memórias para desforra futura daquele tempo de infâmia? filhos do retiro na vila de pescadores nasceram o "Chove" e o "Marinatambalo", publicado este com o conhecido título de "Marajó": foi este último fora da série de Alfredo que, por acaso, me levou a te encontrar...

minha mãe queria que eu fosse ser padre e meu pai preferia fazer de mim um garboso militar do exército, a moça que ajudava em casa, Lucíola; preferia que eu quando crescesse fosse servir à marinha de guerra porque ela achava muito bonita a farda branca... quando me disseram que padre não se casa, eu não quis mais ouvir conversa de ir para o seminário na Cidade, pois em frente a casa de minha avó morava uma menina muito bonitinha, capaz de me tirar da molecagem e sentir certa emoção peculiar à pré-adolescência.

por esse tempo, pela primeira vez, ouvi a perigosa palavra "comunismo"; por sua causa fiquei sabendo que o tio Dalcídio foi bater na prisão; meu avô Alfredo ficou deveras acabrunhado e sem jeito com sua devoção à Santa Rita de Cássia um tanto quando abalada; o tio Sidraque, coitado, correu risco de ser apanhado pelo comando da PM levando recado para a casa a fim de queimar provas que incriminassem o irmão preso no famigerado São José da praça Amazonas; e até a solteirice de tia Lodica tivera por motivo o noivo dela, um certo Tobias; sumir no Rio de Janeiro por causa do tal comunismo.

que diabo era aquele? mamãe não perdeu sono, pois sabia que o cunhado dela Dalcídio era incapaz de "matar uma mosca"; entretanto ela era daquelas católicas fanáticas e ultimamente vinha se comportando de maneira exagerada sobre tudo que dizia respeito a sua sacrossanta igreja apostólica romana, como ela dizia e repetia; aí nasceu minha segunda irmã no ano de 1946 e terá sido talvez um distúrbio nervoso pós-parto, logo na virada para 47, que altas horas subitamente a modesta casa com quintalzão que nem uma floresta na qual meus pais com os seus filhos moravam pobremente, foi invadida de repente por uma legião invisível de anjos e demônios em furiosa guerra entre suas falanges: minha pobre mãe enlouqueceu e eu nunca tinha visto nada parecido nem papai chorar em desespero como um criança abandonada...

a vila de Itaguari era um paraíso que de repente passou a inferno para mim, como num filme terrível vi homens a carregar minha mãe como uma fera para a embarcar à força numa canoa a vela com destino à cidade grande e ao hospício, ela a cantar ensandecida o hino de guerra jesuítica, "Levantai-vos, soldados de Cristo!" e toda vila de Itaguari de pé naquela manhã cedo para ver o que se passava... palavras que eu desconhecia para explicar uma situação que eu não imaginara nem nos meus piores pesadelos.

dias depois da tempestade, dona Isabel, esposa de meu avô Alfredo nos acompanhou em viagem a Belém, a mim e minhas duas irmãs, a menor com apenas seis meses de nascida; para ser entregues aos cuidados da boa tia Armentina, na avenida 16 de Novembro, 369: quando voltei a ver minha mãe ela estava enjaulada no Juliano Moreira como um bicho perigoso, não me reconheceu nem eu a ela.

longos dias de agonia e tormento para toda família; com o tempo e o amor invencível de tia Armentina à sua transtornada irmã a recuperação se fez aos poucos, muito lentamente, a cabo de drogas pesadas e eletrochoque: falaste a palavra Tortura? Imagina... Freud, Freud por onde estavas tu? o psiquiatra doutor Aloísio da Fonseca foi compreensivo para permitir tratamento domiciliar alternativo compartilhado com o médium kardecista Rafael Ferreira Gomes a fazer o milagre necessário, dois grandes homens dialogando entre a crença e a ciência;

minha tia me levava como acompanhante para não sei quantas sessões espíritas em diferentes lugares, o amável senhor Rafael deu-me de presente na União Espírita Paraense um exemplar do "Livro dos Espíritos" e eu li em busca de qualquer explicação para a expulsão do meu jardim do Éden, que havia sido até então o quintal de minha casa na vila de Itaguari...

ah, como eu odiei aqueles "espíritos" covardes! seres das sombras que do mundo invisível atormentavam a pobres sofredores da terra; eu queria por que queria sair na porrada para enfrentá-los e lutar contra os malvados... nunca os vi nem em sonho ou pesadelo; mas sofri demais os seus efeitos com toda minha vida e minha família destroçadas por nada;

se na verdade nunca tive muita fé em coisas ditas sobrenaturais, desde então nada mais restou; meu pai começou então, vendo minha descrença geral, a me chamar de herege e o tio Xandico, marido da Armentina, depois de uma animada discussão na qual eu lhe dizia que, logicamente, milagres não podem existir, simplemente, pelo fato de que se algo acontece uma vez pode acontecer de novo, portanto raro, porém factível; então ele concluiu por conta própria, com horror, que eu poderia ser ateu... Coisa demais a um bom português crente da Virgem de Nazaré.

felizmente o vendaval foi passando e a coisa, dia sim e dia não, fosse lá o que fosse arrefeceu, retornamos a uma vida quase normal: eu voltei a casa de avó Sofia, em Ponta de Pedras, como filho pródigo e alguém que achou asilo, foi ai que na hora religiosa da sesta ela me apareceu com o romance "proibido" no catecismo do arcebispo, "Marajó"; dizendo-me ela assim: "lê, foi teu tio Dalcídio quem escreveu".

li tudo, de fio a pavio, num fôlego só; aquela leitura do "Marajó" foi comparável a um prodígio para mim, clareou-me as ideias e até hoje sou muito honrado em ser teu simples e eterno aprendiz de esperança na humanidade e luta contra as injustiças deste mundo.

não tendo mais tempo na passagem de teu natalício, te mando um abraço aqui da terra e digo até por lá, no tempo do sonho, onde estás com grande parte desta família que se orgulha de ti.

do teu sobrinho José Maria

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