segunda-feira, 25 de julho de 2016

Ressignificando o suposto encontro do Padre Antônio Vieira e os Sete Caciques marajoaras em Ponta de Pedras, antigo lugar de memória dos Guaianá


Dom Angelo Maria Rivatto S.J. (1924-2011), primeiro bispo da Diocese de Ponta de Pedras (ilha do Marajó - Pará) e fundador da Prelazia precedente instalada em 1967.


Já tive oportunidade de agradecer a dom Angelo Rivatto pela preciosa informação sobre a paz de 27 de Agosto de 1659, entre portugueses do Pará e índios do Marajó. Há cinco anos, neste blogue caboco (23/08/2011) fiz breve registro do falecimento de dom Ângelo, ocorrido na Itália três dias antes, aos 87 anos de idade, dos quais mais de vinte vividos numa Amazônia neocolonial dilacerada entre o anticomunismo da guerra fria na Ditadura militar e o aggiornamento da igreja católica romana, sob ventos do concílio Vaticano-II, insuflando o movimento eclesial de base e a teologia da libertação. Eis trecho principal do texto supracitado:

"Nesta oportunidade, quero apenas lembrar que no dia 25 de julho de 1995, assisti missa campal celebrada pelo bispo Angelo Rivatto S.J. na agrovila "Antônio Vieira", município de Ponta de Pedras. Na homilia ele afirmou ter sido naquele lugar que, nos idos do século XVII, o Padre Antônio Vieira tinha realizado a célebre pacificação da ilha do Marajó em acordo com sete caciques. Eu, confesso, apesar do vício da leitura nunca houvera lido ou ouvido falar nada a respeito do assunto...

A curiosidade me assaltou e mal esperei acabar a missa para perguntar a fonte e ele, sempre escapando, respondeu de repente, "está no livro do padre Serafim Leite". Bastou... É a "História da Companhia de Jesus no Brasil", 4 tomos maçudos pejados de notas. 

Logo vi, Dom Angelo não era homem de perder tempo com leituras complicadas, parecia mais um ativista templário: ele estava redondamente enganado, nunca o Padre Antônio Vieira havia posto os pés na praia da Mangabeira ou no sítio Pau Grande, que o bispo emérito de Ponta de Pedras teve cuidado de trocar para, justamente, "Antônio Vieira". Entretanto, por capricho da história aquele povoado fora antes o Lugar de Vilar (segundo o naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira), que na reforma toponímica do estado do Grão-Pará e Maranhão determinada pelo Marquês de Pombal em função da expulsão dos jesuítas, substituiu a antiga aldeia de índios "Guaianazes" [Guaianá, deve grafar conforme a convenção moderna].

Aí está a graça da coisa: que os Guaianá foram um dos sete povos citados pelo Padre Antônio Vieira, em longa carta enviada à regente de Portugal, Dona Luísa de Gusmão; dando conta da missão do Pará até fins do ano de 1659; que na confederação dos Nheengaíbas [etnias nuaruaques do Marajó] celebraram as pazes com os portugueses do Pará, num encontro incrível - desdenhado pelos historiadores, mas pelo menos poetas e romancistas ficam a dever - que deu termo à guerra suja (1623-1647) para expulsão dos Hereges (protestantes) holandeses e ingleses do estuário amazônico.

 O verdadeiro lugar que Dom Angelo buscava e não encontrou por que não leu todo palimpsesto do historiador da Companhia de Jesus no Brasil, ou leu mas não quis dizer; fica no município de Breves, mais precisamente no "rio dos Mapuaises" [Mapuá], que hoje é, por acaso, a Reserva Extrativista Florestal Mapuá (Resex Mapuá).


Numa conversa compartilhada com Ercílio Marinho, disse-nos o bispo de Ponta de Pedras que havia tão-só por líderes Jesus Cristo e Dom Helder Câmara... Ele ficou conhecido na diocese por seu temperamento autoritário e a companhia constante de sua colaboradora pessoal Nella Remella: ambos tentaram realizar uma singular obra de feição kibutziana. As famosas "cooperativas da Nella" como o povo local dizia. Para mim, um caso de sucesso social em "reforma agrária" feita pela Igreja Católica e um fiasco econômico; jamais considerado como deveria ser pela pesquisa acadêmica."





A utopia do Padre refeita pelo Bispo

Quem vem pelo mar não entrará no Amazonas ou Pará, nem há de subir o maior rio do mundo sem passar pelo golfão Marajoara e contornar o maior arquipélago fluviomarinho da Terra, com as suas duas mil e tantas ilhas grandes e pequenas, de dentro (fluviais) e de fora (marítimas). Por acaso, o delta-estuário Pará-Amazonas - sem consulta popular e aviso prévio -, para evitar uma grande guerra entre os dois reinos cristãos da Península Ibérica por causa do descobrimento das Índias Ocidentais, por Colombo em 12 de outubro de 1492; foi dividido por uma linha imaginária a 370 léguas de distância oeste de Cabo Verde, conforme o tratado de Tordesilhas de 1494.

Até então, os povos "nheengaíbas" existiam há pelo menos 5000 anos nas terras baixas da América do Sul. E lá pela altura do ano 400, cem anos após o Imperador romano Constantino declarar-se convertido ao cristianismo e convocar o primeiro concílio de Niceia; nos centros da ilha do Marajó surgiu o que viria ser a Civilização Marajoara cuja arte cerâmica alcançou seu apogeu cerca de 1300; quando a Arqueologia identifica os mais antigos vestígios da chegada dos famosos Aruã, derradeiros "nheengaíbas" extintos em fins do século XIX. 

Achar que "índios bárbaros" e "primitivos" não são capazes de inventar engenharia de aldeias suspensas sobre terras alagadas e de criar arte cerâmica sofisticada, a ponto de despertar a curiosidade dos civilizados e ser colecionada com avidez pelos maiores museus do mundo, revela complexo de inferioridade tremendo e conformismo à ditadura da Colonialidade onipresente.

O papa Alexandre VI (o escandaloso Rodrigo Bórgia) sancionou o acordo de limites ultramarinos entre os monarcas de Espanha e Portugal. Sob protestos do rei da França, Francisco I; que invejoso do arranjo colonial ibérico e a Santa Sé reclamou seu quinhão no que ele chamou de "Testamento de Adão". Ato contínuo, começaram a frequentar ilhas do Caribe e costas da Terra Firme corsários franceses, holandeses e britânicos sob a proteção dos seus respectivos reis, até se tornarem piratas sem lei. Mas aí, o ouro e a prata roubada dos índios americanos já estava nas arcas reais da civilizada Europa (era tempo de aliança eterna entre o Altar e o Trono).

Segundo Tordesilhas 1494, revogado pelo Tratado de Madri (1750) e, finalmente, o de Santo Ildefonso (1777), a fronteira colonial luso-castelhana dividia a baía do Marajó, no Rio Pará: deixava a Portugal a margem direita do grande mar de água doce em direção ao Salgado e o nascente até as Índias Orientais. Para Espanha caberia toda porção a oeste da Índias Ocidentais, inclusive a grande ilha do Marajó, por isto a beira da ilha para o lado da baía do Marajó foi chamada, na crônica colonial até fins do século XVIII, Costa-Fronteira do Pará.

Jovem ainda, pelos anos de 1960, eu vi chegar em Ponta de Pedras o jesuíta Guido Fossatti que foi mandado soerguer a velha paróquia de Nossa Senhora da Conceição. Aquilo foi um ar novo no marasmo reinante. Uma obra comunitária teve começo na construção do Centro Paroquial movimentando a mocidade. Então, a gente murmurava especulando que a paróquia removada iria dar espaço a uma prelazia e talvez padre Guido fosse ser sagrado bispo. 

Quando, em 1967, de fato viu-se instalar a Prelazia de Ponta de Pedras tendo o recém-chegado padre Angelo Rivatto por bispo, houve uma certa decepção e o bispo novo já começou a granjear antipatia dos paroquianos mais conservadores, sobretudo quando ele mandou padre Guido para a paróquia de São Sebastião da Boa Vista e a praticar mudanças na igreja que impactaram o catolicismo popular, com a supressão de santos de oratório doméstico e tradicionais festividades profano-religiosas como as folias de santo, por exemplo.

Dom Ângelo ficou famoso pelas polêmicas, notadamente o caso do padre Giovanni Gallo (ver Giovanni Gallo, "O homem que implodiu"), teve inimigos ostensivos e dissimulados, assim como colaboradores tais como Rolando Montanier e a onipresente "tia Nella" (Nella Remella), como escreveu um jornalista francês que visitou Ponta de Pedras pelos anos 80.

Fossem quais fossem os motivos íntimos daquela bela italiana do Piemonte para sacrificar sua juventude numa prelazia remota na ilha do Marajó (falavam à boca pequena que Nella curtia paixão pelo padre Ângelo, elevado a bispo); a verdade é que ela mais do que tia, foi uma mãe para muitos pequenos e pequenas marajoaras desamparados acolhidos na Casa da Fraternidade, conhecida popularmente como a "casa da Nella"... (principalmente os seus trigêmeos órfãos adotados de uma família pobre). Dizem que Nella e Ângelo praticaram algo como uma operação Robin Wood para realizar as obras sociais da igreja pontapedrense. Criou-se uma narrativa dizendo que ricos católicos da Holanda, Suíça e Itália eram doadores da prelazia e depois diocese de Dom Ângelo (o padre Gallo contestou a informação circulante em Belém, dizendo ele que na verdade o dinheiro em questão era coletado entre imigrantes católicos naquelas paróquias também elas pobres solidários com outros pobres. Antes fosse, mas pena por que a gente não sabia que devia ser mais agradecido).

O escritor Dalcídio Jurandir era agnóstico e vivia distante no Rio de Janeiro desde a década de 1940, mas ao saber da obra extraordinária do padre Gallo na paróquia de Santa Cruz do Arari e das cooperativas do bispo Dom Angelo, de Ponta de Pedras sua vila natal; manifestou aplausos entusiásticos. O povo falava "cooperativa da Nella"...
De fato, Nella era uma 'pasionária'... Amou aquela criaturada sem eira nem beira, naturalizou-se brasileira quando lhe atiraram em cara ser "uma estrangeira" e puxava briga para defender os cabocos... Sem ela talvez Dom Ângelo não se tivesse feito tantas coisas naquele antigo feudo de que conta o romance "Marajó" (escrito na vila de pescadores de Salvaterra (1939) por um caboco acabado de sair da cadeia de São José preso por perseguição política). É verdade que aquilo tudo foi um enorme desperdício de dinheiro e mesmo perda de oportunidade para fazer diferente...

Mas precisava conhecer o antes e o depois da Prelazia para assistir a uma animada conversa sobre a política municipal e entender a "revolução", onde o "senadinho" sentado sob o ócio de uma frondosa mangueira plantada pelo patriarca dos donos da municipalidade discutiam. E, passando pelo ajuntamento de brancos da terra, com suas ferramentas de trabalho um tal de 'Caboquinho' [nome fictício para proteger a identidade da pessoa] meteu bedelho onde não foi chamado, dizendo ele livremente o que pensava da situação. E se foi embora arengando por despedida "vocês tão co'a vida ganha, mas eu inda tenho que me virá"... Ante o silêncio da surpresa daquela intervenção do preto que já desconhecia seu lugar, algum dos brancos perguntou: "O que é isto?". No que outro apenas disse: "Dom Ângelo". Para bom entendedor meia palavra basta.

É claro que com a minha precária instrução, como a maior parte de nossa sociedade provinciana, o nome do padre Antônio Vieira não me era estranho até aquelas horas. Porém, se por acaso me perguntassem se eu o conhecia, teria que responder que nem nossos sumanos cabocos, "enxergo"... Querendo dizer com isto não ter conhecimento bastante sobre a dita pessoa. 

Entretanto, aquele inesperado encontro há 21 anos passados, no sermão do bispo de Ponta de Pedras aos produtores rurais da agricultura familiar, à beira da baía do Marajó na agrovila de Antônio Vieira; foi o eureca no meu longo curso em busca de saber quem inventou o mundo... Sim, é verdade! Vieira é o cara do século XVII no mundo que o português inventou. Verdade que o afrodescendente, neto de uma criada preta em Portugal; que defende a liberdade dos índios no Brasil e a escravidão dos negros; não passa sem contradição. Seria inverossímil o relato que o superior das Missões do Maranhão e Grão-Pará fez ao rei de Portugal acerca do antigo conflito entre portugueses e índios das ilhas do arquipélago do Marajó? Não, tampouco o requerimento que fez a Câmara de Belém do Pará para o governador André Vidal de Negreiros (1656-1666) dar a "guerra justa" (extinção e cativeiro) aos chamados Nheengaíbas (diversas etnias nuaruaques) e os esforços dos padres para concertar a paz com os ditos índios insubmissos. Prova de que a paz de Mapuá foi um fato está que a guerra requerida pelos vogais da Câmara de Belém não aconteceu. Além disso, a fundação das aldeias missionaria de Aricará (Melgaço) e Arucará (Portel), com índios nheengaíbas, geralmente escapa à observação dos críticos do padre grande.

É exagerado considerar genial a fantasia e imaginação do autor da carta secreta "As esperanças de Portugal" (na qual declara ser o poeta Bandarra verdadeiro profeta sobre a ressurreição de Dom Sebastião e, por conseguinte, pelo mesmo viés sebastianista proclamar que el-rei Dom João IV, restaurador do reino português, falecido em 1656; seria re-suscitado)?  

Talvez, mas é preciso considerar os fatos. E estes nos dizem que o cenário se acha na transição da alta Idade Média para início da Idade Moderna onde o maravilhoso em Portugal àquela altura, estava preso ao complexo bipolar da depressão pela morte de Dom Sebastião e a euforia da restauração da independência do Reino até 1823. Como pensar Portugal no século XVII, debaixo da soberania de Espanha (1580-1640) e depois, malmente independente, sem o Maranhão e Grão-Pará, segunda colônia portuguesa no Novo Mundo ao lado do estado-colônia do Brasil? Imagina no século XXI a Amazônia brasileira (60% do território nacional) sem ter existido aqueles acontecimentos passados... Certamente eu e outros "amazônidas" não estaríamos aqui para contar história. 

Já deveríamos saber que, diferente da historiografia que retrata passo a passo o andar das gerações; a História é uma ciência evolutiva sempre presente e inacabada, que se destina a estudar os fatos sem engrandecer ou desmerecer os mortos. Um conhecimento progressivo para ajudar os vivos a saber a obra dos mortos também eles interessados em compreender donde viemos, onde estamos e aonde vamos afinal de contas. 

Embora a pletora da historiografia brasileira continue a conservar e avantajar o papel dos colonizadores e a retratar "índios" e "negros" como rebanho que obedece cegamente a seu dono ou bandos selvagens perigosos para a Ordem e o Progresso, a história do Brasil virou o final do século XX sob uma nova perspectiva, que muito tem a ver com o advento dos direitos humanos universais e o progresso das ciências do Homem. 

É certo que o padre grande não inventou o Maranhão (Amazônia) de seu tempo, mas durante a missão, de 1653 a 1661, inculcou a região ainda em odor selvagem e foi inculcado pela bruta humanidade dela. Rasgos antropológicos inusitados na obra do missionário dão ressonância ao conceito, divergente do cânone taxionômico, cometido pelo naturalista de Coimbra, Alexandre Rodrigues Ferreira, ao classificar o nativo amazônico como Homo sapiens, variedade Tapuya. Uma variedade humana "primitiva"...

Sem querer, o bispo jesuíta de Ponta de Pedras, ardoroso militante das mudanças do Concílio Vaticano-II, apaixonado pela figura ímpar do "padre grande" dos índios, vinha por acaso de me dar uma chave que abre a porta da invenção da Amazônia. Não importa se, na verdade, o Padre Vieira nunca esteve na praia da Mangabeira, onde só depois da sua expulsão do Pará (1661) chegaram os primeiros jesuítas a fim de fundar a fazenda São Francisco (Malato) e a aldeia das Mangabeiras (lugar de Ponta de Pedras), em 1686. 

O relato pelo padre Vieira de tratativas de paz com índios piratas, chamados pejorativamente "nheengaíbas" (falantes da língua ruim, barbaresca) será considerada inverossímil até bem mais tempo que o período de processo, julgamento e condenação do mesmo pelo tribunal da Inquisição sob acusação de heresia judaizante.

A História não é feita exclusivamente de verdades absolutas, fosse assim a Grécia bafejada pelos deuses do Olimpo e Roma criada miticamente pelos filhos da Loba não teriam desafiado os séculos e inventado o mundo antigo.

Se é verdade que em 1637/39 o capitão Pedro Teixeira e seus mamelucos e índios Tupinambá romperam a "linha" de Tordesilhas (1494) para levar a fronteira da Amazônia colonial portuguesa ao Alto Amazonas; por outra parte a conquista lusa no rio Amazonas não ficaria de pé sem adesão (por bem ou mal) da massagada tapuia do rio Babel (ver José Ribamar Bessa Freire, "Rio Babel, a história das línguas na Amazônia", Rio de Janeiro: ed. UERJ, 2004).

Para muitos, a iniciativa de paz com os caciques do Marajó, auto atribuída por Vieira segundo a longa carta de 29/11/1659 (publicada em Lisboa em 11/02/1660) a el-rei Alfonso VI (sucessor de dom João IV, amigo e protetor de Vieira) seria uma "lambança" a mais, daquelas que fizeram o monarca português da Restauração a adverti-lo com a célebre frase: "ponha tudo isso no papel, mas não me venha com muita lábia"... A famosa lábia de Vieira corresponde a tão elogiada lábia de Maquiavel. A diferença é que, enquanto o florentino procurava fazer a cabeça do Príncipe (o todo poderoso Lourenço de Médicis sobre a arte de governar a republica); o "imperador da língua portuguesa" pretendia materializar o reino de Jesus Cristo na terra, sob o trono de Portugal... Um reino de paz onde judeus, cristãos e muçulmanos se reconhecessem como irmãos: a sua utopia evangelizadora. Antonio Vieira precursor da Teologia da Libertação e também do pontificado do Papa Francisco?

Assim, pude eu me arvorar em defensor da Paz de Mapuá de 27 de Agosto de 1659, negligenciada pela intelligentsia luso-brasileira. Baseado na "História da Companhia de Jesus no Brasil", de Serafim Leite; escrevi o capítulo Uma Política sem lábia para o Príncipe [páginas 202 a 235], do meu primeiro ensaio "Novíssima Viagem Filosófica -- da arte iberiana das viagens e aliança pós-colonial afro-ibero-americana", Belém: Secult, 1999.


Um certo Cacique Piié: ressignificando a guerra e a paz entre tupinambás, nheengaíbas e lusos.

O teatro do payaçu esconderia um plano secreto que a Inquisição portuguesa abortou? O Egito Antigo estava fragmentado e sob domínio líbio até que Piye, rei da Nubia (Etiópia e Sudão atual), promoveu a reunificação do Nilo e depois de vencer várias batalhas foi considerado o primeiro faraó negro do Egito, dando início à 25ª dinastia e uma série de Faraós Negros com origem na Núbia. 

Vieira, como se lê na "História do Futuro", pretendeu transplantar o livro de Isaías ao Maranhão (Amazônia) forçando interpretações "ad hoc" para justificar a teoria segundo a qual seriam os índios das Américas descendentes das tribos perdidas do cativeiro da Babilônia. Esta ideia aproximava judeus e cristãos nas colônias. A Antropologia engatinhava: hoje se sabe que o verdadeiro nome étnico de um índio é segredo mortal, logo o cacique dos Mapuá poderia ser real, mas certamente "Piié" é nome que lhe foi atribuído, seja por apelido dado pelos próprios companheiros ou pelo padre grande. Neste caso, seria uma mensagem cifrada entre eruditos na Europa? O faraó negro inspiraria um modelo etíope para o cacicado amazônico judaizante? E a cooperativa kibutziana do bispo de Ponta de Pedras, o que tem a ver com esta viagem no tempo para a última fronteira da Terra?

Viveram os diversos "Nheengaíbas" em bom entendimento com as feitorias que mercadores holandeses começaram a fazer no Amazonas e Xingu (cf. Arthur Cezar Ferreira Reis, "Limites e Demarcações na Amazônia Brasileira": Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1947) desde 1599, aproximadamente. Uns e outros praticavam escambo de miçangas (facas, machados de aço, anzóis, contas de vidro, espelhos, etc.) em troca de "gados do rio" (peixe-boi, tartaruga e pirarucu) e "drogas do sertão" (cacau, resinas aromáticas, urucu, salsaparrilha).

Na verdade, os tais "nheengaíbas" eram diversas etnias de cultura e língua Aruak, que habitaram o circum Caribe indo das Antilhas, ao Acre e Pantanal. Segundo Ciro Flamarion Cardoso, os marajoaras pertenciam à grande área cultural guianense, que se estendeu do arquipélago do Marajó até Trinidad e Tobago (ponte das grandes migrações do Caribe para a Amazônia).

Naturalmente, o regime de ventos e correntes marítimas determinou a geografia humana da nascente Amazônia daquele tempo. Importa bastante saber que os primeiros conquistadores desta enorme região - então chamada Tapuya tetama (terra Tapuia) -, foi a brava nação Tupinambá, enfrentando encarniçada resistência dos ditos Tapuia (palavra guarani, originada de tamu (avô), já na acepção de inimigo). Data de 1538 o primeiro relato de uma grande migração tupinambá que chegou ao Peru, no Alto Amazonas, depois de varar o sertão e navegar o rio até o Solimões... Só para lembrar que depois da passagem de Pinzón (1500) na ilha do Marajó, som em 1542 ocorreu o "descobrimento" do rio de Orellana (Marañon ou Amazonas): a massagada aruaca chamava ao Amazonas apenas Uene (rio), enquanto os tupis o chamaram Paraná-Uaçu (rio grande). O nome dos lugares é a marca territorial de seus ocupantes... Amazônia (nome tirado das imaginárias mulheres guerreiras do Mar Negro) foi obra dos colonizadores portugueses.

Todavia, sem a religião dos Tupinambás movidos pela utopia selvagem em busca da Terra sem mal parece evidente a impossibilidade demográfica do pequeno reino de Portugal abarcar o país gigante da América do Sul sem aliança das armas e barões assinalados com remos e arcos dos caraíbas antropófagos. Então, para quem considera inverossímil o relato do Padre Antônio Vieira sobre as pazes com os belicosos Nheengaíbas, resta incrível acreditar que Pedro Teixeira tenha realizado uma longa e penosa expedição de Belém do Pará a Quito (Equador), durante dois anos (1637/1639), contrariando determinações de Madri e às vésperas da nova independência de Portugal (1640), fim da União Ibérica que havia possibilitado transpor a linha de Tordesilhas, para expulsão dos Hereges (colonos franceses do protestante Daniel de La Touche, no Maranhão (1615), tomada de Gurupá, Nassau e Orange no Xingu (1623), destruição do forte inglês de Cumaú e outros estabelecimentos até 1647); sem o decisivo apoio do Bom Selvagem tupinambá, enfim catequizado e convertido em 'índio cristão'. Mais tarde, indiferentemente, tupis, aruaques ou galibis todos reduzidos a índios cristãos e, finalmente, caboclos, no Diretório dos Índios (1757-1759).

Então, Vieira inventou a figura simbólica do cacique nheengaíba para anunciar a vitória da paz sobre a guerra justa? O suposto Piié, como José do Egito seria na verdade um "negro da terra" escravo dos padres no convento de Santo Alexandre? Um líder indígena que se recusou a prestar vassalagem ao rei de Portugal, e num longo discurso "diz" o que o próprio Vieira dizia? Do que se trata, em verdade? Aquele ano de 1659 na vida e obra do Padre Antônio Vieira teve importância capital. Em 1656 a morte do rei amigo e protetor Dom João IV o deixa fragilizado face a seus inimigos, que não eram poucos nem desprovidos de poder. Também o fracasso da missão pacificadora do padre João de Souto Maior aos ditos Nheengaíbas, seguida do desastre e morte deste jesuíta na viagem do ouro, no rio dos Pacajás, no mesmo ano; deixaram o superior das Missões abalado.

Em seu labirinto amazônico, Vieira vai a remo ao rio dos Tocantins, levados pelos tais 'índios cristãos' (tupinambás) em direção à aldeia de Camutá-Tapera (Cametá). Toma decisão arriscada de escrever a famosa carta secreta que o levaria à prisão e condenação pela Inquisição. Preparava-se, evidentemente, para retornar a Portugal... Precisava colher um trunfo importante, que de uma vez para sempre, calasse a seus inimigos e detratores... Fora ele a Cametá preparar caminho para a volta à Lisboa? Carta de 29 de novembro de 1659, relatando a missão do padre Souto Maior, a retomada da proposta de paz a fim de evitar a guerra "impossível de vencer"; a carta-patente supostamente enviada aos caciques nheengaíbas através de dois "embaixadores" nheengaíbas escravos do convento de Santo Alexandre, que imploram para não ir ao encontro dos parentes "ferozes"; o regresso dos embaixadores já alegres e bem satisfeitos do cumprimento da missão trazendo logo, quando os padres acreditavam no pior, uma delegação de sete caciques, dentre os quais o tal Piié, o mais ladino de todos...

O primeiro português a tentar a conquista do Marajó foi o donatário de Cametá, Feliciano Coelho, matou muitos nheengaíbas e fez escravos, mas perdeu também muita gente e não conseguiu desembarcar. Mais duas tentativas armadas fracassaram... Foi de fato Vieira e um confrade ao rio Mapuá? Se não esteve lá, a reportagem que fez é extraordinária pelos tantos detalhes. Então o Cacique Piié seria um herói criado dos relatos ouvidos dos escravos indígenas no convento, inclusive no confessionário? Serafim Leite escreveu que o Marajó "foi também o maior campo missionário da Companhia de Jesus".

Significativamente, na célebre carta a el-rei de Portugal, o nome de Piié é o único que Vieira forneceu de todos outros mais caciques dos Mapuás, Guaianases, Pixi-Pixi, Camboca, Mamaianás, Anajás e Aruãs; aparece além destes nheengaíbas, um cacique dos Tucujus (que eram índios do Amapá). Deus se esconde nos detalhes... O projeto de criação da Prelazia de Ponta de Pedras teria sido uma tentativa para ressignificar a missão do Padre Antônio Vieira, trezentos anos depois da sua expulsão do Pará, em 1661? 

Dom Ângelo criou o Seminario Antônio Vieira onde formou seminaristas e padres marajoaras, além de promover duas cooperativas mistas de produção e consumo, uma com mais de dez agrovilas para assentamento de famílias sem-terra, dentre as quais a agrovila Antônio Vieira (ex-povoado Pau Grande, lugar de Vilar, que teve São Francisco por padroeiro e foi aldeia dos Guaianazes (Guaianá). 

O mesmo Vieira vaticinou o Apocalipse para o ano de 1666... Desastroso para o autor da "História do Futuro" condenado por heresia judaizante e para a história de Portugal. Marajó, à parte, iria dar fim à Ilha dos Nheengaibas ou dos Aruans, para criar a Capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes (1665). Mas, o donatário dr. Antônio de Sousa de Macedo, secretário de estado, provavelmente leu a carta do superior das Missões sobre a ilha e queria educar os índios incorporando-os, pouco a pouco, à civilização portuguesa.

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