quarta-feira, 30 de outubro de 2013

CABOCO NA CASA DO BARÃO (2)

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Praça Independência, cidade de Montevidéu - República Oriental do Uruguai


TRAVESSIA

Um belo dia, no ano de 1982, lá estava o caboquinho do Fim do Mundo, da vila Itaguari (Ponta de Pedras), ilha do Marajó, a desembarcar no aeroporto internacional de Montevidéu (Uruguai). Por subjetivas contas, a viagem ao Uruguai ligou para mim a foz do Amazonas à foz do Rio da Prata deixando atrás séculos de história daquelas famílias imigrantes da antiga Ibéria, que José Saramago conta em "A Jangada de Pedra". 

Claro que o acontecimento, involuntário, não tem importância para ninguém mais que este curioso viajante do mundo que gosta de atravessar as fronteiras da literatura e da história, misturando assuntos futuros e pretéritos, a fim de vencer a solidão de sua ilha de esquecimento e chuva, na imaginária Vilarana, que ele mesmo inventou sob tímida impressão de "Santa Maria", da ficção peregrina do exilado uruguaio Juan Carlos Onetti. 

Vivíamos então os últimos dias da Ditadura com o terror da Operação Condor a rondar os caminhos de terra, mar e ar e eu já queria comprar "Memória do Fogo" de Eduardo Galeano enquanto marchas e panelaços precorriam "calles" e "ramblas" da capital do Uruguai. Gastei a sola dos sapatos andando de livraria em livraria que, em Montevidéu, não são poucas. No fim da tarde a franqueza de um livreiro me desenganou da procura dizendo ele, mais ou menos, assim: "Galeano no se vende aquí, por problemas políticos"... Em compensação, mandou-me ele esperar um poquito e desceu ao porão donde voltou trazendo um usado livro de contos do autor com título de "Vagamundo", o qual deu-me como regalo. Muchas gracias... Havia cumplicidades no ar platino frio e luminoso naquele fim de tarde. A recessão econômica cavava seu último poço e apressava o parto da nova democracia pelo Cone Sul. Na Argentina o nome Alfonsin era uma luz no fim do túnel...

Mais que a Onetti, de quem de fato não li além de uma resenha crítica; o caboco escrevinhador da "vila que nem vila era" andou mais perto de arremedar o engenhoso "prologomeno" ou heresia judaizante do "payaçu" dos índios, Padre Antônio Vieira. Euzinho, por presepada pura e heresia amerindizante, a fim de chatear a paciência de eruditos acadêmicos ("de las epidemias de horribles blasfemias de las Academias,¡líbranos, señor!", Rúben Dario) e o imperador da língua portuguesa a fim de burlar a terrível censura do Santo Ofício com aquela imaginosa e inacabada obra chamada "História do Futuro" por capa da verdadeira e infinita obra - prenhe de realismo-mágico -, onde a utopia ecumênica fez morada e entronizou o Menino Jesus no trono do quinto império do mundo. 

Parece brincadeira do maravilhoso acaso, mas minha tia Lodica havia um sítio denominado Menino Deus no Igarapé Paricatuba, lugar da fictícia fazenda Marinatambalo e ponto de partida do romance "Marajó", do tio Dalcídio com a odisseia de sua Criaturada grande... Foi, exatamente, a obra "Marajó" que minha avó e mestra na história oral da família marajoara, Sophia, deu-me a ler pela primeira vez: com a cambaleante leitura de iniciante mal letrado caíram-me as escamas dos olhos. Vi, pela primeira vez na vida, a dita cuja criaturada, dentre a qual sempre estive e me acho agora mais que nunca. Da imaginação acesa pela incipiente leitura de o "Marajó", conservado com zelo no baú de minha avó, desciam canoeiros dos sítios com carregamento de açaí para a feira do Ver O Peso; vaqueiros corriam campos infinitos a galope para pastorear o gado do vento, a ralé da vila mourejava a carregar lenha para fogão da casa dos ricos, fazer carreto, capinar rua, pescar, caçar, "tirar" borracha de seringais panemas...

Prossegui o curso eventual literário por "Os Sertões" de Euclides da Cunha... E já queria eu escrever soneto pior do que a emenda para vencer a timidez e conquistar a primeira namorada... em papel de embrulho com caneta Bic. Fiz calo nos dedos como um diploma. Neste longo caminho pelas beiras da história, por acaso, fui procurar Galeano ao longo da avenida 18 de Julio, em Montevidéu. Por acaso, no extremo-sul encontrei o gauchismo transfronteiriço eivado de galeguismo arcaico de "Tacuruses", de Serafim Garcia, publicado no Uruguai um ano antes de meu nascimento.

Para o menino que sonhava saber quem inventou o mundo, aqueles quarenta e cinco dias na antiga província Cisplatina foram um descobrimento estupendo numa viagem que está longe de terminar. Da qual o respeitável público hoje é informado depois de 31 anos. Prova de que Gabriel Garcia Marques teve razão quando disse ele que, em tempos modernos, o corpo vai de avião a jato mas a alma, coitadinha, vem de caravela... Neste caso, chega até aqui em igarité.
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igarités, antigas canoas à vela, que faziam transporte de carga e passageiros entre a ilha do Marajó e a cidade de Belém do Pará. 


NA BEIRA DO PRATA VISITANDO A ALMA IBERIANA
Tudo aquilo que antes em outras plagas e mares do velho mundo fora ibérico, evoluiu a iberiano no continente latino-americano sob a luz do Sol profundo e da constelação do Cruzeiro do Sul com seus imperadores ameríndios e reis do Congo emigrados ao Novo Mundo, que nem a Família Real portuguesa no Rio de Janeiro. Claro que os brancos da família como os deuses antigos deveriam estar loucos... Portanto, urge mestiçar o Barroco custe o que custar.

Quando um colega da chancelaria "vazou", propositadamente, poemas cometidos pelo caboco para consumir o ócio do estagiário uma diplomata de forte estilo castelhano veio até à tesouraria onde o mesmo dava expediente e indagou: "o que você está fazendo no Itamaraty?". Aquilo tanto poderia ser elogio ao poeta bissexto, quanto um sutil puxão de orelha ao exibido servidor... O mais interessante viria depois quando, inesperadamente, o próprio Chanceler que se encontrava em missão oficial no Uruguai, visitou a Embaixada e topou por acaso com o caboco, o qual conhecera por acaso em Belém, na Comissão de Limites. Fosse como fosse, visto a "intimidade" do estagiário com o Chanceler Saraiva Guerreiro, daquele momento urdido pelo famoso acaso em diante o frio relacionamento de praxe com o pessoal da embaixada mudou da água para o vinho. Pena que o estágio estava perto de acabar, como lamentou o Senhor Embaixador até ali sem ter tido ainda, dizendo ele; oportunidade de cumprimentar o tal personagem filho mestiço da necessidade com o acaso.

Foram curtos e interessantes quarenta e cinco dias de estágio do caboco amazônida ao cargo de Oficial de Chancelaria na Embaixada do Brasil no país platino. Porém se o caboco aqui presente tivesse ele um fiapo do talento de um Joice, por exemplo, ou a perícia da aquanarrativa de Dalcídio, que escreveu "Primeira Manhã" em um único dia; a estada de Montevidéu daria panos pra mangas de um razoável romance. Lá aprendi de um velho lobo do mar por que razão Pinzón batizou o Amazonas, que não existia ainda em 1500; com o risonho nome de "río de Santa María de la Mar Dulce"... Santa Maria do Mar Doce. Dizendo-me ele, a bordo de uma animada churrascada em casa de amigos, que para os marinheiros de língua castelhana o Mar é mulher. Faz sentido... A água é um elemento feminino por excelência e os povos ribeirinhos sabem disto mais que ninguém.

A primeira viagem de travessia na minha vida fiz na barriga de minha mãe. Que nem o profeta Jonas dentro da baleia bíblica. Por acaso, meus antepassados índios do Amazonas (segundo Stradelli) acreditavam que os primeiros seres humanos vieram ao mundo no bucho de uma cobra-canoa. Naquele tempo, o transporte entre a ilha do Marajó e a cidade de Belém era feito, exclusivamente, em canoas à vela, as famosas igarités. Sou o primeira filho de um casal marajoara. Ele filho de índia catecúmena da aldeia de Mangabeira (Ponta de Pedras) casada com um caboco descendente de portugueses e ela filha de imigrantes da Galiza, de Soutomaior, em Pontevedra; chegados no Pará após a guerra-civil na Amazônia, dita a Cabanagem (1835-1840); para repovoar a dita ilha da boca do Amazonas com outros galegos da diáspora galáico-portuguesa. Certa vez, perguntaram-me se tenho parentesco com o doutor Dráuzio Varella. Quem sabe? O que sei é que o nome de minha bisavó asturiana era Micaela Varela e meu avô Francisco (aliás Celestino) Pérez Varela nasceu na Galiza. O duplo "l" que carrego ficou por recordação do cartório Figueiredo, em Belém do Pará. 

Nasci, no dia 30 de outubro de 1937, na maternidade da Santa Casa do Pará como muitos de meus co-ilhanos, cujas mães tiveram complicação na hora do parto e na hora H correram depressa a pedir socorro à Santa Casa. Na verdade, no caso de minha mãe houve prevenção, pois minha avó morreu no parto de meu pai. Com tempo e boa maré a bordo de igarité eis como começou esta estúrdia história do caboco, seu criado...

Por acaso, a descoberta do Uruguai foi para mim como encontro da Galiza avoenga no ultramar. Um mundo de comparações e descobrimentos nesta outra América que se oculta pelas ilhargas da História. Não teria lá chegado naquele dia sem ajuda do acaso e o concurso de amigos. Primeiramente, o então Secretário Palm que levou-me de Belém de volta a Brasília e insistiu comigo para, pela terceira vez, tentar o concurso para categoria de Of. Chan. Foi crucial a boa compreensão do colega Roberto Revoredo Varela, que não é meu parente, mas um excelente amigo. Foi ele quem, no último minuto, fez minha inscrição ao concurso. E, mais ainda devo agradecer sempre à Secretária Edileuza que, ao ver minha desistência à prova de datilografia, correu dizendo que fizesse a prova de toda maneira. Não fosse isto, com certeza, tudo isto não teria acontecido.

Não ficam só por aí meus agradecimentos pela imprevista viagem ao Uruguai em 1982. A casa do Barão nunca foi um mar de rosas... Entretanto, com a Ditadura a arraia miúda andava na linha e com o coração na mão, sobretudo se o servidor fosse "quarto secretário".  Ou seja, o tal de Of. Chan. intermediário entre Funcionário (diplomata) e Servidor (administrativos). Uma estória itamaratyana contava que o ex-Presidente Jânio Quadros num mau encontro com diplomata no exterior teria determinado a criação desta categoria, originalmente privativa de pessoal de nível superior. Com a renúncia do ex-presidente entraram os oficiais de chancelaria a perder prestígio e numa reforma administrativa foram rebaixados ao nível médio. Foi assim que os Oficiais de Administração já de nível médio desde o início foram rotulados como Agentes Administrativos e os Oficiais de Chancelaria ficaram praticamente equiparados aos primeiros.

Meu colega Bernardo (nome fictício) era negro, nordestino e estudioso de cultura árabe. Colecionava rosário de preconceitos sofridos dentro e fora da Casa... Quando ele veio a saber que o haviam mandado ao Uruguai desconfiou estar sendo vítima de constrangimento ao ser enviado a um posto predominante branco. Veio ele procurar-me para saber aonde eu estava indo, disse-lhe que iria para a Guiana (ex-inglesa). Então me perguntou se eu trocaria de posto com ele caso houvesse uma permuta. Disse-lhe que não faria nenhuma objeção caso ele fosse tratar do assunto com a famosa DP. Mais uma vez o Secretário Palm entrou em ação e foi assim que meu colega Of. Chan. negro foi a Georgetown e o caboco aqui presente a Montevideu.

(a seguir 3ª parte) 

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